7 de outubro de 2009
The world’s best foreign minister
Política externa brasileira: como enfrentar o espectro de Bolívar?
DEBATE ABERTO
A diplomacia tradicional sofreu uma inflexão progressista no governo do presidente Lula e o papel de Samuel Pinheiro Guimarães e do chanceler Celso Amorim foi decisivo no processo. Mas o passo será limitado se um novo horizonte não for estabelecido com urgência.
Nildo Ouriques
A ação decidida do Brasil na reversão do golpe de estado em Honduras despertou a ira da direita brasileira que se apressou em condenar a falta de propósito e o risco implícito para a tradição de nossa política externa com a presença militante do presidente deposto Manuel Zelaya na embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Não há dúvidas que as declarações do presidente Lula, do assessor especial para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, e do próprio chanceler Celso Amorim foram acertadas, enfáticas e até certo ponto, surpreendentes. Mas elas indicam, realmente, uma mudança na linha tradicional da política externa brasileira?
O golpe que depôs o presidente Manuel Zelaya decorreu da ação direta da embaixada estadunidense em Honduras com conhecidas e íntimas articulações com a elite empresarial e os militares hondurenhos. Tratava-se de um risco calculado, mas cujo objetivo decisivo era claro: impedir que o presidente Zelaya elegesse o seu sucessor e que sua opção pela ALBA abrisse um capítulo bolivariano na América Central. Em dezembro de 2007, por ocasião da IV Reunião da Patrocaribe, patrocinadora de um Tratado de Segurança Energética, o presidente Zelaya assinou um acordo conveniente para seu governo. Em agosto de 2008, Honduras se integrou a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), criada em 2004 para impulsionar a integração latino-americana. O argumento golpista segundo o qual ele violou a constituição com a realização de um plebiscito sobre a necessidade de uma constituinte não resiste a analise superficial, pois é mais do que sabido que a consulta não vinculante – ou seja, sem força constitucional – não poderia se instalar e decidir em favor da reeleição antes das próximas eleições presidenciais.
As decisões do governo do presidente Manuel Zelaya somente são surpreendentes se nos limitamos a sua origem de classe. Proprietário de terra e com ampla folha de serviço prestado às classes dominantes locais, seu governo foi gradualmente realizando opções que escapavam da tradição conservadora hondurenha, até inscrever-se com certo radicalismo na oposição ao “neoliberalismo”. A despeito de sua classe de origem, a verdade é que seu governo avançou não somente na oposição as políticas “neoliberais”, senão que avançou na direção do fortalecimento da onda bolivariana que de forma inédita a América Latina vive. Por que esta mudança? Há uma nova correlação de forcas na América Latina que justifica o pragmatismo do presidente Zelaya em direção à esquerda. No caso de Honduras, é fácil constatar que muito mais do que um ato isolado e intempestivo, o rumo tomado pelo presidente deposto tem perfeita racionalidade quando analisamos as mudanças globais em curso no continente.
A estratégia dos Estados Unidos para a América central combinou a guerra de baixa intensidade com a emergência de democracias restringidas. Não restam dúvidas que foi uma linha de ação vitoriosa, especialmente quando os Acordos de Chapultepec levaram aos movimentos guerrilheiros de grande envergadura – o FMLN de El Salvador e a URNG na Guatemala – a entregar suas armas e iniciar a “longa marcha pelas instituições”. Por mais de dez anos, o heroísmo guerrilheiro foi substituído por derrotas eleitorais contundentes e certa marginalidade política tanto em El Salvador quanto na Guatemala. Honduras seguia seu rumo disciplinado, pois sempre foi um ponto estratégico para a ação imperialista na América Central, não somente pela presença da base militar estadunidense e base de operação contra a vitoriosa Revolução Sandinista ocorrida na Nicarágua em 1979, mas pelo histórico de submissão de sua elite a política de Washington para a região.
A estratégia militar estadunidense foi acompanhada do Plano Puebla-Panamá, que reservava para Honduras o desenvolvimento da indústria maquiladora e certa abertura para os produtos agrícolas do pequeno país periférico no mercado dos Estados Unidos. Mas a aliança EUA-China é mais importante em tempos de disputa hegemônica, especialmente quando as relações entre a elite hondurenha e os Estados Unidos pode ser considerada quase “carnal”. A segunda metade da década de noventa levou com rapidez os empregos da indústria maquiladora ao sul da fronteira dos Estados Unidos para a China e o leste asiático, a despeito dos baixos salários pagos na América Central que, em Honduras, se limitavam a míseros 40 centavos de dólar por hora trabalhada. Um regime de superexploração, obviamente. Contudo, mesmo com aquele deslocamento fatal da indústria maquiladora, restavam ainda as remessas dos imigrantes hondurenhos nos Estados Unidos, fonte de divisas considerável para economias como El Salvador, Guatemala, Equador, República Dominicana, etc. A eclosão da crise em setembro de 2007 já anunciou tempos difíceis, particularmente visíveis após 2008 quando esta se generalizou, mas manteve o epicentro nos Estados Unidos.
Segundo a Cepal, desde outubro de 2008 a indústria maquiladora eliminou mais de 39.000 empregos. As remessas despencaram para todos os países que “fechavam” seus déficits no balanço de pagamentos com o fluxo constante, crescente e seguro do trabalho sem cidadania nos campos e centros urbanos estadunidenses. As remessas que em 2007 somaram 2,8 bilhões de dólares, aproximadamente 22,15% do PIB, pelo menos 70% destinado a gasto corrente das famílias, despencaram em 2008, mas já estavam em declínio desde agosto de 2007. A crise social nos países centro-americanos não era ainda maior porque os imigrantes remetiam todos os meses milhões de dólares aos bairros pobres das principais cidades da região. Finalmente, o CAFTA, tratado de livre-comércio assinados entre os Estados Unidos e a América Central enfrentou considerável oposição no congresso estadunidense mesmo com o apoio decidido de George Bush, mas suas promessas de um paraíso para os países da região desapareceram após a crise global.
Neste contexto, o deslocamento à esquerda de Manuel Zelaya era não somente resultado da ação pragmática de um presidente que herdou o colapso de uma estratégia que durante certo tempo funcionou para a elite crioula, mas também, e talvez principalmente, a percepção de que os Estados Unidos já não podem tudo na área que consideram sua reserva estratégica. Não há, como sabemos, ideologia que se sustente sem força material. A erupção do nacionalismo revolucionário inaugurado com a ação decidida do presidente da Venezuela Hugo Chávez, deixou de ser apenas instrumento de retórica como ideologicamente muitos analistas repetiam, mas fruto de uma estratégia que colocou por vez primeira na América Latina o tema da integração econômica com força econômica, política e cultural. Muitos economistas consideram que a integração econômica é inútil para um projeto nacional-popular no Brasil e, em conseqüência, minimizam sem vacilação a política do nacionalismo revolucionário em curso em outros países. No entanto, nenhuma programa popular no Brasil poderá prescindir da integração econômica que não poucas vezes aqui é percebida apenas como parte de uma estratégia sub-imperialista do empresariado nacional e deu seu aliado de sempre, as empresas multinacionais. Em oposição, para os chamados pequenos países periféricos, a integração econômica é parte decisiva de um projeto nacional destinado a superar as condições ultra limitantes do subdesenvolvimento e da dependência.
O surgimento do nacionalismo revolucionário não é, portanto, fenômeno passageiro. Possui tradição na América Latina e encontrou lideranças políticas com capacidade de atuação e percepção estratégica. Esta política de orientação claramente anti-imperialista supõem reforço da soberania nacional, controle dos recursos estratégicos, nacionalizações e estatizações e, especialmente, um novo horizonte para a crise da democracia representativa: a democracia participativa. Em primeiro plano implica em diminuir a ação das empresas multinacionais, consideradas estratégicas tanto para democratas quanto para republicanos nos Estados Unidos. A direita mundial – e especialmente a brasileira – orienta sua crítica contra o presidente Hugo Chávez, mas é cada dia menos eficaz a hostilidade ao bolivariano, pois existem outros presidentes atuando na mesma direção com grande sabedoria.
Há no Brasil uma crônica falta de percepção da importância desta significativa mudança na correlação de forças porque grande parte dos analistas ainda julga os conflitos do período atual como uma simples reação de setores sociais ao desgaste inexorável do “neoliberalismo”. Portanto, descartam a existência de uma ofensiva do nacionalismo revolucionário que abriu novas portas e elucidou uma nova correlação de forças na América Latina. Ao contrário de uma simples manifestação de “populismo”, o nacionalismo revolucionário é o principal protagonista das relações internacionais da América Latina no mundo. Quem poderá se opor a esta força nova e renovadora? As energias da chamada “Nova Direita” estadunidense liberadas na administração de Ronald Reagan tiveram seu auge na guerra de baixa intensidade livrada especialmente no terreno da América Central, mas exauriram sua força no segundo mandato de George Bush. O exercício da presidência imperial da última administração republicana deixou um legado difícil para o presidente Barak Obama pois destruiu algumas cartas decisivas do discurso liberal tanto de republicanos quanto de democratas nos Estados Unidos. Neste contexto, cabe perguntar o que os Estados Unidos podem oferecer para a região? Abertura de mercados? Alianças estratégicas no terreno econômico? Um compromisso com a democracia representativa quando é precisamente esta que entrou em colapso em vários países? Depois da eclosão da grande crise global e dos resultados econômicos, políticos e culturais terríveis para o México oriundos da entrada em vigor do Nafta, quem poderá acreditar nestas promessas abaixo do Rio Bravo?
Não restam muitas dúvidas sobre o futuro imediato: Zelaya, muito provavelmente voltará a cadeira presidencial. O retorno do presidente a Tegucigalpa já lhe devolveu o protagonismo interno e certa influencia nas eleições presidenciais que se avizinham. Neste contexto, devolver-lhe a cadeira presidencial não representa prejuízo maior para as forças que lhe assestaram o golpe de estado e, seu retorno possui a virtude de garantir que Honduras “voltou à democracia”. A prerrogativa “democrática” é essencial para todos os postulantes à cadeira presidencial no país e também esta de acordo com os interesses de Washington. As poucas semanas que ainda restam a Zelaya no exercício presidencial não alteram substancialmente o quadro eleitoral interno e permitirá as credenciais democráticas ao governo que nascerá das urnas em 29 de novembro. O estado de sítio será em breve revogado, não há dúvidas. Mesmo que a solução constitucional se dê pela emergência de um tercius, o fato é que o resultado não alterará em grande medida os resultados obtidos pelos golpistas... ainda que, dialéticamente, deu maior visibilidade e credibilidade ao presidente deposto.
Há, contudo, um fato novo em Honduras. As forças representadas pelo Presidente Zelaya amadureceram politicamente e não restam dúvidas de que o debate sobre a constituinte não cederá. É muito provável que o novo presidente tenha que enfrentar esta questão e os ânimos populares renovados pela derrota dos golpistas. Neste contexto, Zelaya mesmo fora do governo representa uma força decisiva nos próximos anos, não somente em Honduras, mas em toda a América Central. As causas que o levaram a fazer esta dramática virada ideológica e política não desapareceram com o golpe de estado; ao contrário, fortaleceram ainda mais o movimento popular e a consciência de que os limites da democracia restringida em Honduras já não são suportáveis para a maioria.
Neste contexto, não há dúvidas que o protagonismo exercido pela chancelaria brasileira nos capítulos finais da crise hondurenha será recompensado com as manchetes da imprensa mundial e não restará aos seus críticos de direita no Brasil senão o reconhecimento de que a jogada embora muito ousada, deu prestígio e autoridade ao país. Em qualquer caso, a oposição ao presidente Lula (tucanato) dirigirá sua crítica a aspectos secundários da atuação, ainda que não possa discordar que o papel de “potencial regional” que compartilha em segredo com o petismo tenha sido afirmado em larga medida. Este consenso entre tucanos e petistas é suficiente para manter afastada as possibilidades de uma política anti-imperialista já em curso na América Latina, representada pelo surgimento do nacionalismo revolucionário. Este supõe o fortalecimento da soberania, com o respectivo controle dos recursos estratégicos, nacionalizações e estatizações. Em primeiro plano implica em diminuir a ação das empresas multinacionais, consideradas estratégicas nos Estados Unidos tanto para democratas quanto para republicanos.
O golpe de estado em Honduras revela que o Brasil adotou nova conduta nos assuntos latino-americanos após a vitória de Barak Obama, agregando certo protagonismo em sua ação continental. No essencial, o Itamaraty alimenta uma linha diplomática que oferece uma alternativa ao nacionalismo revolucionário sem aparentemente lhe hostilizar. É obvio que esta perspectiva é apoiada por Washington, que não cansa de assinalar o papel do Brasil como “potência emergente” em escala global e “liderança natural” na América Latina. Para consumo interno e mesmo para muitos de seus críticos, a atuação diplomática brasileira aparece como se Lula tivesse dado ao Brasil “projeção na política internacional que o país jamais tivera” e inclusive como “passo primordial e extenso de descolonização do Brasil”, como afirmou o colunista Jânio de Freitas. Este horizonte é, obviamente, demasiado otimista, pelo simples fato de que não esta em curso um processo de descolonização da sociedade brasileira; aliás, longe disso, estamos caminhando para o lado oposto, basta verificar o tratamento privilegiado dado as multinacionais e sua inquebrantável aliança com o empresariado nacional, especialmente paulista. Mas os países centrais e especialmente os Estados Unidos seguirão reconhecendo no Brasil o papel de “potencia regional” como peça necessária para diminuir o impacto do anti-imperialismo bolivariano em curso em vários países.
O protagonismo brasileiro contra o golpe em Honduras revela também que a política externa brasileira deixou de ser assunto para os especialistas. A rigor, não existe no Brasil um debate sobre alternativas de política econômica, tamanho o consenso entre os tucanos e os petistas neste terreno. Na política externa, o tucanato espeta o petismo em questões secundárias, exorcizando o espectro de Bolívar que é sempre evocado como se a diplomacia brasileira estivesse disposta a ceder diante de seu forte poder de sedução do bolivarianismo. Com este artifício, a direita pretende limitar a política externa brasileira aos interesses consolidados pela política econômica e, em conseqüência, garantir o verniz democrático da política empresarial expansionista na América Latina, cuja base principal se localiza em São Paulo. Por esta razão, em grande medida o debate sobre a orientação da política externa ainda esta cativo dos mitos, todos destinados a afastar a opinião pública da corrente anti-imperialista em curso no continente latino-americano. Em conseqüência, ainda vamos ouvir muito sobre a necessidade da “neutralidade” na política externa, sobre a importância de nossa função “moderadora” num continente em conflito, algo sobre nossa suposta sadia eqüidistância das ideologias, e outros artigos de consumo ideológico imediato.
A elite brasileira e a consciência ingênua de amplos setores sociais (inclusive de esquerda) seguirão insistindo com discreto otimismo sobre as vantagens da política de “potencial regional” e as virtudes derivadas do caráter democrático-progressista da política externa nacional. A limitação é obvia, pois esta concepção não passa de linha auxiliar na profunda crise do liberalismo como ideologia do capitalismo. Serão suficientes para enfrentar o espectro de Bolívar?
A única alternativa para o Brasil seria a “latino-americanização” de sua política externa. Atuar, em conseqüência, pela integração latino-americana, como único meio de romper o controle sobre a política econômica que perpetua nosso subdesenvolvimento e dependência. Não é preciso muito esforço para observar que esta opção não faz parte da tradição diplomática brasileira, mas no mundo atual e diante dos conflitos e oportunidades a que estamos submetidos, qual a importância da tradição?
A diplomacia tradicional sofreu uma inflexão progressista no governo do presidente Lula e o papel de Samuel Pinheiro Guimarães e do chanceler Celso Amorim foi decisivo no processo. Mas o passo será limitado se um novo horizonte não for estabelecido com urgência. Foi Samuel Pinheiro Guimarães quem anotou acertadamente que a estratégia americana (estadunidense) para o Brasil “procura evitar a articulação brasileira com outros Estados que possa pôr em risco a hegemonia e a capacidade de negociação americana.” . Ora, quais são outros estados com os quais podemos fazer uma aliança estratégica em condições excepcionais? Não restam dúvidas que alianças localizadas e momentâneas são possíveis e mesmo necessárias como peça da política externa, mas é ainda mais importante que estas se realizem pelo bloco latino-americano que se organiza e avança de maneira lenta, porém decidida. É muito pouco provável que um cenário tão favorável na correlação de forças entre a região e os Estados Unidos se verifique novamente na América Latina. O grande obstáculo para avançar nesta direção é, todos sabemos, a política econômica. E a política econômica do governo Lula, a despeito de suas diferenças pontuais com o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, expressão os interesses da burguesia brasileira. Esta apenas observa os países da América Latina como “mercados” e nunca como governos com os quais o Brasil teria que estabelecer uma aliança estratégica contra a superação do subdesenvolvimento e da dependência.
É neste contexto que o caráter progressista da política externa brasileira revela suas virtudes e também seus instransponíveis limites. É também aqui que a ruptura com a economia política da “potencia regional” deve ser abandonada em favor de um projeto nacional e popular que ainda esta em construção no país.
Professor do Departamento de Economia e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC. (www.iela.ufsc.br )


"As veias da América Latina continuam abertas"
"O que eu descrevia continua sendo certo. O sistema internacional de poder faz com que a riqueza siga sendo alimentada pela pobreza alheia. Sim, as veias da América Latina ainda seguem abertas", diz Eduardo Galeano em reportagem publicada no jornal espahol El País. O escritor uruguaio recebeu semana passada, em Madri, a Medalha de Ouro do Círculo de Belas Artes. Na reportagem, ele conta que seu mestre, Juan Carlos Onetti disse-lhe algo que não esqueceu: "As únicas palavras dignas de existir são aquelas melhores que o silêncio".
Javier Rodríguez Marcos (El País) - IHU Online
Com cabeça de senador romano e consciência de tribuno da plebe, Eduardo Galeano sempre tem presente uma frase de José Martí: "Todas as glórias do mundo cabem em um grão de milho". Ele diz isso porque, na semana passada, deram-lhe, em Madri, a Medalha de Ouro do Círculo de Belas Artes. "É uma alegria, claro. Não pratico falsa humildade, mas também não me esqueço de Martí e digo a mim mesmo: ei, tranquilo, devagar pelas pedras". No dia seguinte, além disso, recebeu um prêmio da ONG Save the Children.
A reportagem é de Javier Rodríguez Marcos, publicada no jornal espanhol El País, 06-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto, para o IHU (Instituto Humanitas Unisinos).
Aos 69 anos, o escritor uruguaio é uma pedra no sapato dos vencedores da história, uma espécie de best-seller furtivo da esquerda. No ano passado, durante o tour espanhol de apresentação de seu último livro, "Espelhos. Uma história quase universal" (L&PM Editores, 2008), ele lotou cada salão de atos em que pisou, chegando inclusive a transbordar o Auditório de Galícia, em Santiago de Compostela, com capacidade para mil pessoas. No próximo dia 14, ele encerrará esta nova visita à Espanha com uma leitura de sua obra no Auditório Marcelino Camacho de Comisiones Obreras, em Madri.
Galeano conseguiu levantar paixões com livros sem gênero preciso, mas escritos com um estilo fragmentário e seco que ele opõe à "tradição retórico do peito estufado. Aprendi a desfrutar dizendo mais com menos", diz, em seu hotel madrileno de sempre, a um passo da Puerta del Sol. Ali, ele conta que seu mestre, Juan Carlos Onetti, "que não dava conselhos", disse-lhe algo que não esqueceu: "Como ele era bastante mentiroso, para dar prestígio a suas palavras, ele costumava dizer que eram provérbios chineses. Um dia me soltou: 'As únicas palavras dignas de existir são aquelas melhores do que o silêncio".
O autor de "Dias e noites de amor e de guerra" (L&PM Editores, 2001), briga há anos contra o silêncio. Agora, luta também contra o medo. Mais do que as eleições presidenciais que ocorrem no Uruguai no dia 25 de outubro, interessam-lhe os dois plebiscitos que ocorrerão nesse dia. Um pretende derrogar a lei que impede o castigo contra os militares da ditadura: "O Estado não pode renunciar a fazer justiça porque a impunidade estimula o delito". Há 20 anos, foi realizado um referendo com o mesmo objetivo. E com um resultado ruim. "Lançaram toneladas de bombas de medo", conta o escritor. "Dizia-se que, se a lei fosse anulada, a violência voltaria, e as pessoas votaram assustadas".
Aquele primeiro plebiscito dos anos 80 foi promovido por uma comissão, na qual, junto com Galeano, estava Mario Benedetti. Desde a morte deste, em maio passado, seu amigo faz parte da fundação que herdou o legado do poeta para promover a literatura jovem: "Era um insólito caso de escritor generoso. O nosso grupo é uma agremiação egoísta que ocupa a jaula dos pavões reais. A cada um dói o êxito do outro. Ao Mario não". Com relação às reclamações do irmão de Benedetti, incomodado com o testamento, Galeano é diplomático: "Isso está superado. Ninguém se salva das confusões de herança".
O dinheiro misturado com as confusões leva inevitavelmente ao futebol, um assunto ao qual o escritor dedicou centenas de páginas, dentre elas as que formam um clássico da literatura desportiva: "Futebol ao sol e à sombra" (L&PM Editores, 2004). É obsceno pagar milhões de euros por um jogador? "O futebol profissional é a indústria de entretenimento mais importante do mundo. Além do mais, é um esporte que parece religião: a religião de todos os ateus. O que é preciso ter claro é que o Machado dizia: agora, qualquer ignorante confunde valor e preço".
Por outro lado, no anedotário diplomático internacional ficou gravado o fato de que Hugo Chávez presenteasse Obama com o livro mais popular (30 edições em inglês) do autor montevideano, "As veias abertas da América Latina" (Ed. Paz e Terra, 2007, na 46ª edição em português), um ensaio de 1971 que seu próprio autor descreve como "uma contra-história econômica e política com fins de divulgação de dados desconhecidos". E acrescenta: "O que eu descrevia continua sendo certo. O sistema internacional de poder faz com que a riqueza siga sendo alimentada pela pobreza alheia. Sim, as veias da América Latina ainda seguem abertas".
Galeano não acredita que presidente dos Estados Unidos tenha lido o livro. "Duvido. Foi só um gesto. Além disso, a edição era em espanhol". A eleição de Obama pareceu-lhe uma vitória contra o racismo, mas lhe decepcionou que ele aumentou o orçamento da Defesa: "Os políticos mais bem intencionados acabam presos a uma maquinaria que os devora". E o que lhe parece sua política para com a América Latina? "Ele tem boas intenções, mas há problema de treinamento. Os norte-americanos estão há um século e meio fabricando ditaduras, e, na hora de se entender com países democráticos, eles têm dificuldades. O desconcerto diante do que ocorreu em Honduras é uma amostra".
O segundo plebiscito que espera o escritor ao voltar para casa quer outorgar o voto aos uruguaios que não vivem ali, "uma quinta parte da população!". Ele mesmo teve que se exilar e sabe o que é sobreviver sem direitos: "Não tinha documentos, porque a ditadura os negava. Quando eu vivia em Barcelona, tinha que ir à polícia todos os meses. Faziam-me repetir os formulários e mudar cem vezes de guichê. No final, no campo da profissão, eu colocava: 'escritor'. E entre parênteses: 'de formulários'". Ninguém se deu conta.
JUNGMANN QUER QUE BRASIL PEÇA DESCULPAS A HONDURAS
Governo brasileiro mantém apoio a Zelaya, diz secretário-geral do Itamaraty
Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil
Brasília - O secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, reiterou hoje (6) que o governo brasileiro mantém o apoio ao presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e rechaça qualquer ameaça à democracia e tentativa de golpe de Estado.
A posição foi ratificada durante reunião com integrantes da missão parlamentar brasileira que foi a Honduras.
Segundo os deputados que fizeram parte da missão, a diplomacia brasileira está convencida de que está próximo um acordo para encerrar a crise no país vizinho. “O embaixador Pinheiro Guimarães disse, mais uma vez, que o governo brasileiro não reconhece um governo golpista e que isso é um péssimo exemplo para a América Latina. Para ele, um acordo está bem próximo”, afirmou o deputado Ivan Valente (P-SOL-SP).
O deputado Maurício Rands (PT-PE) disse que os diplomatas brasileiros consideraram positiva a participação dos parlamentares na missão a Honduras. “O secretário-geral ratificou a posição do governo e elogiou a missão parlamentar por ter contribuído para preservar os direitos dos cidadãos brasileiros que vivem em Honduras, assim como para reduzir a tensão no país vizinho”, afirmou.
Além de Rands e Valente, participaram da reunião no Itamaraty os deputados Raul Jungmann (PPS-PE) e Bruno Araújo (PSDB-PE). A conversa durou cerca de uma hora e reuniu ainda o subsecretário de América do Sul, Ênio Cordeiro, e o diretor do Departamento da América Central e Caribe, Gonçalo de Barros Mourão.
Os parlamentares de oposição fizeram cobranças aos diplomatas brasileiros. Para o tucano Araújo, o status jurídico de Zelaya deve ser definido o mais rápido o possível para evitar mal-estar quanto à posição do governo brasileiro. “O Brasil tem cumprido seu papel histórico na diplomacia, que é de apoiar quem pede ajuda, mas é fundamental definir o status político do presidente Zelaya. Não pode continuar como está”, afirmou ele.
Para Jungmann, o governo brasileiro deve um pedido de desculpas à sociedade de Honduras por ter permitido que Zelaya desse declarações e entrevistas na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. “A meu ver, o pedido de desculpas é uma necessidade urgente, pois tudo ocorreu em território brasileiro, que é a Embaixada do Brasil”, ressaltou.
Amanhã (7) a comitiva parlamentar fará um relato minucioso sobre as atividades desempenhadas em Honduras durante sessão na Comissão de Relações Exteriores da Câmara. A sessão será dedicada exclusivamente à crise política no país vizinho e à atuação do governo brasileiro.
Para os parlamentares, tanto Manuel Zelaya quanto o presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, dispõem-se a buscar uma alternativa negociada para encerrar a crise política que domina o país. Os parlamentares conversaram com representantes dos dois líderes, com políticos hondurenhos, com os 15 integrantes da Suprema Corte e com membros de associações de brasileiros e da sociedade civil.
Depois de três dias em Tugucigalpa, a comitiva parlamentar obteve a garantia de que os direitos dos cerca de 600 brasileiros que vivem em Honduras serão preservados, sem ameaças nem riscos à sua integridade. Após a entrada de Zelaya na embaixada brasileira, muitos dos que vivem lá receberam ameaças.
Segundo Rands e Araújo, as autoridades hondurenhas asseguraram a manutenção dos direitos de não violação aos brasileiros e o retorno dos serviços de comunicação, energia e água da representação brasileira.
No último dia 21, Zelaya e um grupo de correligionários se instalaram na Embaixada do Brasil. No momento, há aproximadamente 60 pessoas que acompanham o presidente deposto, além de diplomatas brasileiros e jornalistas. Zelaya foi deposto no dia 28 de junho em um golpe orquestrado por integrantes do Congresso, da Suprema Corte e das Forças Armadas do país.
Zelaya quer retomar a Presidência da República, mas o presidente interino, com apoio de algumas instituições e dos militares, resiste. Ontem (5) o governo interino revogou o decreto que restringia as liberdades civis. Autoridades estrangeiras e hondurenhas pressionavam pela revogação do decreto que suspendeu as liberdades de imprensa, associação e circulação.
Quem diria: brasileiro apoia restrições à imigração
[pt]
Quarta-feira - 07/10/2009
Levantamento destacado no Relatório de Desenvolvimento Humano diz que só 9% são a favor de liberar entrada de estrangeiros no país
Apesar de ser formada em boa parte por descendentes de estrangeiros —africanos, portugueses, italianos, espanhóis e japoneses, principalmente —, a população brasileira tende a defender restrições à imigração, mostra uma pesquisa destacada no RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) de 2009, do PNUD.
O levantamento aponta que 43% dos brasileiros são a favor de limitar ou proibir a imigração. Outros 45% dizem que o Brasil deve “permitir que as pessoas cheguem desde que haja empregos disponíveis”. Apenas 9% acreditam que se deve permitir a entrada de qualquer pessoa que deseje imigrar ao país — posição mais próxima da defendida pelo PNUD no relatório, que defende que poder decidir onde viver é uma liberdade crucial e que a entrada de estrangeiros geralmente aumenta o emprego e as taxas de investimento.
A posição dos brasileiros é parecida com a de outros países da América Latina — como Argentina e México, em que o apoio a regras restritivas é de cerca de 39% — e também de nações europeias como Espanha (cuja política de controle de migração já causou conflito com o governo brasileiro) e Itália. A imigração é rejeitada por 43% dos espanhóis e 42% dos italianos.
Esse sentimento dos brasileiros vai ao encontro da evolução das políticas do governo sobre imigração. O relatório do PNUD destaca que no Brasil e em outros países da América do Sul, como a Argentina, a chegada de imigrantes foi muito mais intensa até antes da Primeira Guerra Mundial. O Brasil, que no século 19 estimulava a imigração entregando terras aos estrangeiros, passou a retirar esses benefícios. No pós-guerra, o crescimento econômico na Europa fez cessar o fluxo dos que vinham ao Brasil.
“Na Argentina e no Brasil, a diminuição no número de pessoas nascidas no exterior deveu-se a uma diminuição no número daqueles que provêm dos países mais pobres da Europa, uma vez que esses mesmos países experimentaram um enorme crescimento no pós-guerra, ao passo que uma grande parte da América Latina estagnou”, diz o texto.
A partir dos anos 60, a migração passou a ser dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos. Em 1960, o Brasil tinha cerca de 2% de sua população formada por estrangeiros, a maioria de países desenvolvidos. Em 2000, essa taxa já seria pelo menos 2 terços menor.
O RDH afirma que, com exceção dos países do Golfo Pérsico, na maior parte do mundo os fluxos de imigração estão estabilizados. “No resto do mundo, contudo, a fração de pessoas nascidas no estrangeiro tem-se revelado estável ou em queda. Estas reduções são mais significativas na América Latina e Caribe, onde a migração internacional diminuiu para menos de metade”, aponta.
Migração interna
Se a presença de imigrantes estrangeiros tem diminuído no Brasil, a migração interna, de um Estado para outro, é destacada pelo RDH. O estudo aponta que a migração estimula o combate à desigualdade de renda. “Os estudos têm associado uma maior mobilidade de trabalho interna com a redução de disparidades de rendimento inter-regionais no Brasil, na Índia, na Indonésia e no México”, afirma. “Isto porque, com o aumento da mobilidade entre as duas regiões, os seus mercados de trabalho tornam-se mais integrados e grandes diferenças salariais tornam-se mais difíceis de manter”.
De acordo com o RDH, índios brasileiros que se deslocavam para outras regiões tinham uma considerável melhora na renda. Apesar disso, o documento destaca que é preciso garantir que as regiões de destino tenham infraestrutura suficiente.
O texto cita a construção da Barragem de Tucuruí, no Pará, que tirou de suas regiões cerca de 30 mil indígenas parakanã, asurini e parkateje. Assim como em casos ocorridos na Índia, o RDH alerta para riscos de os indígenas perderem bens, sofrerem com o desemprego, a escravidão para pagamento de dívidas, a fome e a desintegração social.
2 de outubro de 2009
1 de outubro de 2009
Existem no país doze grandes redes de influência, que interligam até mesmo municípios situados em diferentes estados. A rede centralizada por São Paulo, por exemplo, também abrange parte de Minas Gerais, do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre. O Rio de Janeiro tem projeção no próprio estado, no Espírito Santo, no sul da Bahia, e na Zona da Mata mineira.
A rede de Brasília influi no oeste da Bahia, em alguns municípios de Goiás e no noroeste de Minas Gerais. As outras nove redes de influência são centralizadas por Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Goiânia, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.
Foram analisadas informações fornecidas pela rede de agências do IBGE sobre 4.625 municípios, e registros administrativos do próprio instituto, de órgãos estatais e empresas. A atual configuração da rede urbana brasileira é comparada com estudos feitos pelo IBGE em 1972, 1987 e 2000.
Entre os diversos dados comparativos coletados a respeito das 12 redes de influência, nota-se que, para fazer compras, a população brasileira se desloca cerca de 49 km, em média. Na rede de influência de Manaus, no entanto, essa distância é de 218 Km. Para freqüentar uma universidade, o deslocamento médio, em Mato Grosso é de 112 Km, contra 41 Km na rede de influência do Rio de Janeiro. Pacientes percorrem, em média no país, 108 km em busca de atendimento médico.
A seguir, as principais informações do estudo sobre as Regiões de Influência das Cidades.
O estudo Regiões de Influência das Cidades mostra as redes formadas pelos principais centros urbanos do País, baseadas na presença de órgãos do executivo, do judiciário, de grandes empresas e na oferta de ensino superior, serviços de saúde e domínios de internet. Tais redes, às vezes, se sobrepõem à divisão territorial oficial, estabelecendo forte influência até mesmo entre cidades situadas em diferentes unidades da federação.
Para definir os centros da rede urbana brasileira, buscam-se informações de subordinação administrativa no setor público federal, no caso da gestão federal, e de localização das sedes e filiais de empresas, para estabelecer a gestão empresarial. A oferta de equipamentos e serviços – informações de ligações aéreas, de deslocamentos para internações hospitalares, das áreas de cobertura das emissoras de televisão, da oferta de ensino superior, da diversidade de atividades comerciais e de serviços, da oferta de serviços bancários, e da presença de domínios de Internet – complementa a identificação dos centros de gestão do território.
Nos 4.625 municípios (entre os 5.564 existentes) que não foram identificados como centros de gestão, a Rede de Agências do IBGE respondeu a um questionário específico, em fins de 2007, que investigou: as principais ligações de transportes regulares, em particular as que se dirigem aos centros de gestão; os principais destinos dos moradores locais, para obter produtos e serviços (compras, educação superior, aeroportos, serviços de saúde, aquisição de insumos e destino dos produtos agropecuários).
Hierarquia das metrópoles e centros tecem as redes de influência
As áreas de influência dos centros foram delineadas a partir da intensidade das ligações entre as cidades, com base em dados secundários e os obtidos no questionário específico. Foram identificadas 12 redes de primeiro nível. As cidades foram classificadas em cinco níveis, por sua vez subdivididos em dois ou três subníveis:
1. Metrópoles – Os 12 principais centros urbanos do País, com grande porte, fortes relacionamentos entre si e, em geral, extensa área de influência direta. Têm três subníveis:
a. Grande metrópole nacional – São Paulo, o maior conjunto urbano do País, com 19,5 milhões de habitantes, em 2007, e no primeiro nível da gestão territorial; b. Metrópole nacional – Rio de Janeiro e Brasília, com população de 11,8 milhões e 3,2 milhões em 2007, respectivamente, também estão no primeiro nível da gestão territorial. Juntamente com São Paulo, constituem foco para centros localizados em todo o País; c. Metrópole – Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Goiânia e Porto Alegre, com população variando de 1,6 (Manaus) a 5,1 milhões (Belo Horizonte), constituem o segundo nível da gestão territorial. Note-se que Manaus e Goiânia, embora estejam no terceiro nível da gestão territorial, têm porte e projeção nacional que lhes garantem a inclusão neste conjunto.
2. Capital regional – são 70 centros que, como as metrópoles, também se relacionam com o estrato superior da rede urbana. Com capacidade de gestão no nível imediatamente inferior ao das metrópoles, têm área de influência de âmbito regional, sendo referidas como destino, para um conjunto de atividades, por grande número de municípios. Este nível também tem três subdivisões: Capital regional A (11 cidades, com medianas de 955 mil habitantes e 487 relacionamentos); Capital regional B(20 cidades, com medianas de 435 mil habitantes e 406 relacionamentos); Capital regional C (39 cidades com medianas de 250 mil habitantes e 162 relacionamentos).
3. Centro sub-regional –169 centros com atividades de gestão menos complexas, dominantemente entre os níveis 4 e 5 da gestão territorial; têm área de atuação mais reduzida, e seus relacionamentos com centros externos à sua própria rede dão-se, em geral, apenas com as três metrópoles nacionais. Com presença mais adensada nas áreas de maior ocupação do Nordeste e do Centro-Sul, e presença mais esparsa nas Regiões Norte e Centro-Oeste, estão subdivididos em grupos: a. Centro sub-regional A– constituído por 85 cidades, com medianas de 95 mil habitantes e 112 relacionamentos; e b. Centro sub-regional B – constituído por 79 cidades, com medianas de 71 mil habitantes e 71 relacionamentos.
4. Centro de zona – 556 cidades de menor porte e com atuação restrita à sua área imediata; exercem funções de gestão elementares. Subdivide-se em: a. Centro de zona A – 192 cidades, com medianas de 45 mil habitantes e 49 relacionamentos. Predominam os níveis 5 e 6 da gestão territorial (94 e 72 cidades, respectivamente), com nove cidades no quarto nível e 16 não classificadas como centros de gestão; e b. Centro de zona B – 364 cidades, com medianas de 23 mil habitantes e 16 relacionamentos. A maior parte, 235, não havia sido classificada como centro de gestão territorial, e outras 107 estavam no último nível.
5. Centro local – as demais 4 473 cidades cuja centralidade e atuação não extrapolam os limites do seu município, servindo apenas aos seus habitantes, têm população dominantemente inferior a 10 mil habitantes (mediana de 8 133 habitantes). Em relação aos elementos da análise, os 802 centros acima do nível 5 abrangem 548 centros de gestão do território e 254 cidades com centralidade identificada a partir dos questionários, que foram incluídas no conjunto final. Destas 254 cidades, a maior parte está classificada como centro de zona, mas três centros – Bragança (PA), Itapipoca (CE) e Afogados da Ingazeira (PE) – exercem o papel de centro sub-regional em sua região.
Brasil tem 12 redes urbanas comandadas por metrópoles
No topo da hierarquia urbana, 12 metrópoles comandam redes urbanas. As redes são diferenciadas em termos de tamanho, organização e complexidade e apresentam interpenetrações, pela ocorrência de vinculação a mais de um centro, resultando em dupla ou tripla inserção na rede. Um bom exemplo é Florianópolis, que integra as áreas de Curitiba e de Porto Alegre, e o de Natal, nas redes comandadas por Recife e Fortaleza. Por essa razão, a soma dos valores apresentados para cada uma das redes supera o total nacional.
São Paulo, Grande Metrópole Nacional, tem projeção em todo o País, e sua rede abrange o Estado de São Paulo, parte do Triângulo Mineiro e do sul de Minas, estendendo-se para Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia e Acre. Concentra, nos municípios que a compõem, cerca de 28,0% da população brasileira e 40,5% do Produto Interno Bruto PIB de 2005. A alta concentração/primazia se reflete no PIB per capita , que é de R$ 21,6 mil para São Paulo, e R$ 14,2 mil para os demais municípios do conjunto.
O Rio de Janeiro, Metrópole nacional, tem projeção no próprio estado, no Espírito Santo, em parcela do sul da Bahia, e na Zona da Mata de Minas Gerais, onde divide influência com Belo Horizonte. Essa rede conta com 11,3% da população do País e 14,4% do PIB nacional. O PIB per capita é da ordem de R$ 15 mil no centro, e R$ 14,8 mil nos demais municípios da rede.
A população da rede de Brasília representa 2,5% da população do País e 4,3% do PIB nacional. A extensão dessa rede também é reduzida, compreendendo o oeste da Bahia, alguns municípios de Goiás e do noroeste de Minas Gerais. Essa rede tem alta concentração de população e renda no centro, que responde por 72,7% da população e 90,3% do PIB da rede. Entre todas as redes, esta tem o mais alto PIB per capita, R$ 25,3 mil.
Manaus controla uma das redes de maior área, 19% da área do País, e de menor densidade, 2,2 hab./ km2, correspondendo a 1,9% da população do País e 1,7% do PIB nacional. De modo similar à rede imediata de Brasília, Manaus concentra a maior parte da população e do PIB da rede, respectivamente 47,3% e 75,5%. Tal concentração tem como efeito grande disparidade no PIB per capita, que é de R$ 10,4 mil para o conjunto da rede, correspondendo R$ 16,5 mil ao centro, Manaus, e R$ 4,8 mil aos demais municípios.
A rede de Belém, assim como a de Manaus, tem baixa densidade, 5,5 hab./km 2 , correspondendo a 4,2% da população do País. Em 2005, a rede respondia por 2% do PIB nacional, com PIB per capita de R$ 5,7 mil, um dos menores do País, sendo o valor de Belém R$ 7,9 mil, e o dos demais municípios de R$ 4,8 mil.
A rede de Fortaleza, a terceira maior em população do País (11,2%), contava, em 2005, com apenas 4,5% do PIB nacional. Como conseqüência, possui o menor PIB per capita entre as redes, com R$ 4,7 mil, registrando em Fortaleza R$ 7,6 mil e no restante da rede R$ 4,1 mil. Com população dispersa, apenas 15,8% da população total encontram-se na metrópole, que concentra 25,7% do PIB da rede. Abrange o Ceará, Piauí e Maranhão e compartilha a área do Rio Grande do Norte com Recife.
A rede urbana de Recife é a quarta mais populosa do País, com 10,3% de seus habitantes. Deste total, 19,5% se concentram em Recife. Em 2005, a rede detinha 4,7% do PIB nacional, sendo Recife responsável por 29,0% desta parcela, com um PIB per capita de R$ 8,0 mil, e de R$ 4,7 mil no restante da rede.
Salvador e sua rede urbana respondem por 8,8% da população do País e 4,9% do PIB nacional. Salvador concentra 22,4% da população e 44,0% do PIB da rede, com um PIB per capita de R$ 12,6 mil, enquanto para os demais municípios componentes este valor é de R$ 4,6 mil.
A rede urbana de Belo Horizonte responde por 9,1% da população e 7,5% do PIB do País. A metrópole concentra 30,5% da população e 40,4% do PIB da rede. O PIB per capita do centro é mais alto, de R$ 12,7 mil, e nos demais municípios da rede ele não passa de R$ 8,2 mil per capita. Minas Gerais corresponde à área de influência desse centro, exceto pela área no sul do estado, ligada a São Paulo, e as áreas de influência compartilhada – a Zona da Mata com o Rio de Janeiro e parte do Triângulo, com São Paulo.
Curitiba e sua rede reúnem 8,8% da população do País e 9,9% do PIB nacional. Em Curitiba, concentram-se 18,6% da população e 23,5% do PIB da rede. O PIB per capita indica menos desigualdade na renda, ainda que o do centro seja superior ao do restante da rede (R$ 16,6 mil e R$ 12,3 mil, respectivamente), com uma das menores razões, entre todas as redes.
A população da rede urbana de Porto Alegre representa 8,3% do total nacional e o PIB é de 9,7%. Porto Alegre concentra 19,2% da população e 24,1% do PIB da rede; o seu PIB per capita, de R$ 17,1 mil, é relativamente pouco superior ao do restante da rede (R$ 12,8 mil).
Goiânia e sua rede urbana concentram 3,5% da população e 2,8% do PIB nacional. Goiânia concentra 30,2% da população, e 29,7% do PIB da rede; possui PIB per capita de R$ 9,2 mil, e é o único caso de centro com este valor inferior ao do restante da rede, que é de R$ 9,5 mil. Abrange os Estados de Goiás e Tocantins, tendo ainda alguma penetração no Pará, Maranhão, Piauí e Mato Grosso.
Hierarquia dos centros se alterou em quatro décadas
Ao comparar-se os centros urbanos identificados em 1966 com aqueles examinados neste estudo, verifica-se que os centros que emergiram no período se localizam predominantemente nos Estados de Mato Grosso, Rondônia e Tocantins, no oeste do Amazonas e no sul do Pará. Com menor intensidade, houve ascensão de novos centros no Maranhão e Piauí. Nas áreas de ocupação mais antiga, como São Paulo, Rio de Janeiro e sul de Minas, o quadro é mais estável, e algumas cidades deixam de exercer maior centralidade, possivelmente com as mudanças em comunicação e transportes.
Os 12 centros atualmente identificados como metrópoles (São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Goiânia), são praticamente os mesmos de 40 anos atrás, com exceção de Brasília e Manaus.
Brasília, então recém-criada, foi classificada como Centro regional B em 1966. No estudo de 1978, foi classificada como Capital Regional, mantendo-se a subordinação a Goiânia (REGIÕES..., 1987). Já em 1993, foi considerada cabeça-de-rede. Em 2007, torna-se uma das duas Metrópoles Nacionais do País. Manaus, subordinada a Belém no estudo de 1966, tornou-se metrópole regional no estudo de 1978.
Centros de segundo nível também mudaram de status
No segundo nível, das Capitais Regionais, há alguns centros que, em 1966, eram classificados no terceiro nível, o dos Centros sub-regionais. São exemplos deste movimento ascendente, no Norte do País, Porto Velho (RO), Rio Branco (AC), Marabá e Santarém (PA), e Macapá (AP); no Nordeste, Imperatriz (MA) e Barreiras (BA); no Centro-Sul, Volta Redonda–Barra Mansa (RJ), Santos e São José dos Campos (SP), Cascavel (PR) e Dourados (MS). Casos mais extremos são os de Boa Vista (RR), de Araguaína (TO), de Ipatinga-Coronel Fabriciano-Timóteo (MG) e de Novo Hamburgo-São Leopoldo (RS), que saltam do quarto nível para o segundo, e o de Palmas (TO), criada em 1989, e também no segundo nível.
Inversamente, centros do segundo nível, em 1966, estão no terceiro nível, em 2007. São exemplos, no Nordeste, Floriano (PI), Garanhuns (PE) e Jequié (BA); no Centro-Sul, Muriaé (MG), Ourinhos (SP), Pato Branco (PR), Lages (SC), Santa Rosa e Cruz Alta (RS) e Anápolis (GO).
As principais mudanças no período devem-se ao adensamento ou à emergência de redes em territórios de ocupação rarefeita, e ao fortalecimento do papel das capitais estaduais, um processo já sinalizado no estudo de 1978. Além disso, o surgimento de novos centros de nível intermediário provocou subdivisão das áreas de influência dos grandes centros, entre 1966 e 2007. Houve transformações nas Regiões Norte e Centro-Oeste. Manaus, que, em período anterior, já dividira a extensa área abrangida por Belém, teve sua área dividida pela ascensão de Porto Velho, que, incorporando a rede de Rio Branco, passa a vincular-se, preferencialmente, não mais a Manaus, mas a São Paulo e a Brasília.
A criação do Estado do Tocantins – e de sua capital – altera a estruturação da rede de Goiânia. Palmas, além de assumir a função de capital do novo estado, demonstra forte centralidade e, embora se mantenha na região de influência de Goiânia, efetivamente articula sua própria rede.
A área de Imperatriz passa a ligar-se com São Luís, e não mais com Belém. Recife tem sua influência reduzida, perdendo a área o Piauí para Teresina, e passando a dividir a rede de Natal com Fortaleza. O alcance de Fortaleza amplia-se tanto a leste, por Natal, como pela expansão das redes de São Luís e de Teresina. Florianópolis assume o controle de quase toda Santa Catarina (exceto da rede de Joinville, no norte, ligada a Curitiba) e passa a ter dupla vinculação: com Curitiba e com Porto Alegre.
No Centro-Oeste e Norte, as atividades de comércio e serviços concentram-se nas capitais
Em 5.275 unidades territoriais pesquisadas, 23 centros estão na classe 1 do comércio, enquanto apenas São Paulo e Rio de Janeiro estão na classe 1 dos serviços. Os estados do Sudeste destacam-se na diversidade de oferta de comércio e serviços, especialmente São Paulo. O setor também é relevante no Sul.
Já no Centro-Oeste e Norte, comércio e serviços concentram-se nas áreas de maior densidade populacional e nas capitais. A região Nordeste apresenta duas dinâmicas distintas, uma do interior, outra do litoral, especificamente das capitais, tanto para o comércio quanto para os serviços. A rede urbana dessa região é fortemente comandada pelas capitais dos estados, apoiada em poucos centros no interior, como os de Campina Grande (PB), Juazeiro-Petrolina (BA-PE), Caruaru (PE), Mossoró (RN), Juazeiro do Norte-Crato-Barbalha (CE), Feira de Santana, Ilhéus-Itabuna e Vitória da Conquista (BA).
Mais de 40% dos municípios brasileiros contavam com apenas um banco em 2004
Existem 2.391 cidades que contam com apenas um banco. Das cinqüenta maiores instituições financeiras por ativo total (Bacen, 2004), 32 têm sede em São Paulo, quatro estão em Brasília, três no Rio de Janeiro, duas em Fortaleza, Belo Horizonte e Porto Alegre, e uma em Belém, Salvador, Vitória, Curitiba e Florianópolis. No Sudeste e no Sul estão os maiores bancos privados de capital nacional ou estrangeiro, enquanto nas demais regiões predominam instituições oficiais, federais e estaduais.
São Paulo ocupa o primeiro nível, seguido pelo Rio e por Brasília, no segundo nível. No terceiro nível, destacam-se Belo Horizonte, Curitiba, Campinas e Porto Alegre e, no Nordeste – Fortaleza, Recife e Salvador. O quarto nível, o último em que estão maciçamente presentes todos os bancos de atuação nacional e de significativo número de outras instituições, inclui a maior parte das demais capitais estaduais, as demais subáreas de concentração de população que constituem a área de São Paulo, e tradicionais capitais regionais do centro-sul, a exemplo de Juiz de Fora, Uberlândia, São José do Rio Preto, Londrina, Maringá, Joinville, Pelotas-Rio Grande, bem como centros do porte de Santa Cruz do Sul e Rio Verde.
Ensino de graduação no RJ está concentrado na capital enquanto em MG está distribuído pelo interior
Em 2004, havia cursos de graduação em 1.261 centros, atendendo a um total de 4,1 milhões de alunos matriculados, em 18.644 cursos distribuídos por áreas do conhecimento: Agricultura e Veterinária; Ciências Sociais, Negócios e Direito; Ciências; Matemática e Computação; Educação; Engenharia, Produção e Construção; Humanidades e Artes; Programas ou Cursos Gerais; Saúde e Bem-Estar Social; e Serviços.
Foram identificados dois centros no primeiro nível (São Paulo e Rio de Janeiro) e nove no segundo nível (oito capitais e a área de Campinas). Em 2004, São Paulo tinha 1,1 milhão de matrículas no ensino de graduação (53,8% na capital e o restante no interior do estado), Rio de Janeiro tinha 444 mil matrículas (84,1% na capital) e Minas Gerais, 421 mil matrículas (35% na capital).
Apesar de ser um centro de primeiro nível, Rio de Janeiro tem o ensino de graduação muito concentrado na capital. No Nordeste e no Norte, pode-se destacar a grande quantidade de pequenos municípios do interior que contam com cursos superiores nos estados do Tocantins, Maranhão, Bahia, Amazonas e Pará. Como contraponto, Amapá e Roraima mostram um sistema de ensino superior ainda acanhado.
Capitais concentram cerca de 70% dos cursos de pós-graduação
Ao final de 2005, havia 3.325 cursos de pós-graduação strictu sensu , repartidos entre cursos de mestrado, mestrado profissional e doutorado. Os cursos eram encontrados em apenas 109 centros, revelando a concentração do sistema brasileiro de pós-graduação. Chama atenção a enorme disparidade entre os números de cursos por grande região, com a região Sudeste (1.880) superando em muito a Região Sul (638).
Há cursos no interior, apesar de eles ainda se encontrarem, em sua maioria, nas capitais dos estados. As 27 capitais oferecem 2.284 cursos (68,7%), enquanto os 82 centros do interior compreendem 1.041 (ou 31,3%). Fora das regiões Sudeste e Sul, o papel concentrador das capitais é ainda mais marcante. No Norte (112 cursos), Belém e Manaus destacam-se claramente em relação às demais capitais.
Grandes centros regionais tradicionais destacam-se na área de saúde
Em relação aos serviços de saúde, destacam-se São Paulo e Rio de Janeiro. O segundo e o terceiro níveis correspondem aos centros capazes de prestar atendimento mais complexo, distinguindo-se entre si pelo tamanho. No segundo, estão as áreas das maiores capitais estaduais: Belo Horizonte, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia, Salvador, Belém e Manaus, bem como Brasília e Campinas. No terceiro nível, além de dez capitais estaduais (Vitória, João Pessoa, Cuiabá, Campo Grande, Maceió, Teresina, São Luís, Natal, Aracaju e Florianópolis) destacam-se grandes centros regionais tradicionais, como Campina Grande, Juiz de Fora, Uberlândia, Ribeirão Preto e Londrina, entre outros.
No quarto nível, os centros são de menor porte, mas ainda predominam condições de atendimento de mais alta complexidade. Embora apresente alta concentração nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, o quarto nível está representado em todo o país, em centros regionais longamente estabelecidos, a exemplo de Montes Claros, Joinville, Maringá, Arapiraca, Feira de Santana, Caruaru, Teresópolis, Sobral, Parnaíba, e em centros de projeção mais recente, como Sinop e Palmas.
Cerca de 40% dos municípios não tem nenhum domínio na Internet
A distribuição dos domínios na Internet tem desigualdades espaciais marcantes: 2.241 municípios (40% do total) não têm nenhum domínio de internet. Entre os 3.319 restantes que possuíam pelo menos um domínio, em março de 2005, a distribuição é enormemente desigual, com metade possuindo no máximo seis domínios. Por outro lado, somente São Paulo detinha 243.927, o que representa cerca de 33% do total de domínios, seguido por Rio de Janeiro (73.209), Curitiba (31.633), Belo Horizonte (28.132) e Porto Alegre (26.944).
São Paulo e Rio comandam sistema de redes de televisão aberta
São Paulo e Rio comandam o sistema de redes de TV aberta, gerando e propagando grande parte da sua programação. O sistema conta com 171 centros que emitem sinais, diferenciados em cinco níveis, e outros 5.036 que apenas recebem os sinais e integram as áreas de influência, diferenciando-se os mais conectados, que recebem maior número de redes nacionais, daqueles cujo grau de conexão é menor. As áreas de cobertura dos municípios com emissoras de TV afiliadas, tanto as nacionais quanto as regionais, variam regionalmente e acompanham diferenças de concentração espacial de população e de renda.
Ligações aéreas no Brasil tem estrutura concentrada
As ligações aéreas no Brasil têm estrutura concentrada. No total de ligações, 32 pares de cidades são responsáveis por pouco mais da metade dos passageiros transportados (50,2%), e o transporte de carga possui padrão semelhante, da mesma ordem de grandeza. Existe, de acordo com o estudo, concentração no volume dos fluxos, notadamente no Centro-Sul do país.
Média das distâncias percorridas nos transportes coletivos no Amazonas é de 270 km
Em relação aos transportes coletivos, destaca-se a atração exercida por São Paulo e Rio de Janeiro em pontos distantes do Nordeste. No interior do estado da Bahia, ocorre outro fluxo longo de caráter interestadual, voltado para Brasília. O mesmo acontece entre algumas cidades de Roraima e Manaus, num movimento que contribui para tornar a média das distâncias percorridas a partir de municípios de Roraima (de 270km) a maior do País. O Amazonas é o outro estado em que a média das distâncias das viagens ficou acima dos 200km, destoando até mesmo da média da região Norte, que foi de 107km.
Santa Catarina aparece com a menor média de distância dos deslocamentos (30km), e Florianópolis, com o menor grau de atração no quesito transportes: apenas um fluxo longo foi registrado como primeiro destino (partindo do município de Mondaí). Outros estados com baixa média de distâncias percorridas são Rio de Janeiro (31km), São Paulo (32km) e Alagoas (33km). A média nacional ficou em 61km, e abaixo dela estão apenas as regiões Sul, com 36km, e Sudeste, com 43km, indicando maiores facilidades de transporte que contrastam com as grandes dificuldades de mobilidade das demais regiões do país.
Na região Norte, o deslocamento médio para fazer compras é mais que o dobro que na média do país
A média dos deslocamentos para compras no comércio varejista da população brasileira é de 48km. Como característica geral, entretanto, observa-se que a tendência é no sentido de deslocamentos progressivamente mais longos, a partir das opções seguintes. Por exemplo, a média da segunda opção de deslocamento para compras é de 79km, de 94km para a terceira opção, e de 121km para a quarta opção. Esse padrão contudo varia, em linhas gerais, de acordo com a estrutura da rede urbana brasileira: densa no Sudeste, Sul e litoral nordestino; mais esparsa no Centro-Oeste e no interior do Nordeste; e bem dispersa no Norte.
Na região Norte, os deslocamentos de primeira opção envolvem em média 102km, enquanto, no Sudeste, os mesmos deslocamentos equivalem em média a 38km. No estado de São Paulo, por exemplo, que possui uma rede urbana bem estruturada e escalonada, predominam fluxos curtos e homogêneos. No Amazonas, no entanto, as redes que se formam envolvem deslocamentos longos, e chama a atenção o espraiamento da área capitaneada por Manaus, que exerce grande centralidade no estado.
Há casos que fogem ao padrão regional, como o de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, que exerce um forte poder de atração no norte mineiro, com deslocamentos médios de 110km como primeira opção. Caso ímpar é o de Macapá, que aparece como centro único no estado do Amapá.
Universitários no Mato Grosso e região Norte deslocam-se em média mais de 100 Km para estudar
As regiões com as menores médias de distância de deslocamento para cursar ensino superior eram 37km, no Sul, e 47km, no Sudeste, sendo Santa Catarina o estado brasileiro de menor média, 28km, seguido de São Paulo com média de 35km. Entretanto, os fluxos longos também se destacam, em geral direcionados às capitais de alguns estados onde a rede de cidades médias e pequenas é menos pulverizada e apresenta menor dinamismo. É o que ocorre na Bahia, Ceará, Piauí, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Amapá e Amazonas.
Os maiores deslocamentos ocorrem na região Norte e no estado de Mato Grosso. Este último, com média de 112km, aproxima-se dos estados do Acre, Roraima e Amapá, todos com médias acima dos 100km, valores, no entanto, bem abaixo dos 295km em média, percorridos no estado do Amazonas, que evidenciam a forte polarização exercida por Manaus.
Cidades das regiões Norte e Centro-Oeste buscam opções de lazer a mais de 100 km
As médias das distâncias de deslocamento para opções de lazer fora do próprio município revelam as desigualdades no acesso ao entretenimento. Norte e Centro-Oeste têm médias bem acima da média nacional, que é de 65km: 108 e 107km, respectivamente. Nas demais, os valores são de 58km, no Nordeste; 50km, no Sudeste; e 36km, no Sul.
Para lazer, predominam deslocamentos curtos do sul de Minas ao Rio Grande do Sul, e em boa parte do Nordeste; de fluxos de média extensão, na longa faixa iniciada no oeste de Minas e prolongada pela maior parte do interior do país; e de longos fluxos voltados para algumas capitais, indicando a grande carência, em vasta porção do território, de estabelecimentos que ofereçam eventos voltados ao lazer da população.
Destaca-se, no mapa, a centralidade exercida por capitais como Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, Salvador, Teresina, Manaus, Boa Vista e Macapá. Estas duas últimas foram mencionadas por todos os municípios pesquisados nos seus respectivos estados como sendo a primeira, e praticamente única, opção, visto que, no Amapá, apenas mais um município, Porto Grande, foi mencionado por Ferreira Gomes e, em Roraima, Pacaraima foi citado pelo município de Normandia. Ambos os destinos constam, porém, como segunda opção. Fica patente, assim, tanto a polarização exercida por parte de Boa Vista e Macapá quanto a grande limitação de opções de lazer nos demais municípios daqueles estados.
Pacientes percorrem em média 108 km em busca de atendimento especializado
Quando procura atendimento fora do município, a população desloca-se em média 54 km na busca por serviços de saúde. Para a segunda opção, percebem-se fluxos mais longos, que podem representar deslocamentos para tratamento de maior nível de especialização, com deslocamentos que compreendem, em média, 108km. Na terceira e quarta opções, as médias são de 144km e 169km, respectivamente.
Ganham destaque centros de referência do sistema de saúde do país, como é o caso, por exemplo, de Goiânia, Teresina e Barretos. Analisando as diversidades regionais, observa-se um padrão que acompanha a organização da rede urbana brasileira. Nas regiões Sudeste e Sul, por exemplo, onde a rede urbana é bastante densa, predominam fluxos mais curtos, uma vez que os serviços de saúde se encontram distribuídos de forma mais ubíqua. Na região Norte, em parte do Centro-Oeste e do Nordeste, a rede urbana menos estruturada, e os serviços de saúde ofertados em centros específicos, explicam a presença de fluxos mais longos. Mais uma vez, chama a atenção a forte centralidade exercida por Manaus, na região Norte.
Ao observar-se a segunda opção, ou seja, aquela que vai além dos serviços de saúde de uso mais freqüente, as capitais exercem forte atração para a população do interior dos estados. Esse fenômeno se repete em todos os estados, com especial destaque, porém, no Nordeste do país, em Minas Gerais e Goiás. Vale ressaltar ainda a atratividade exercida por Brasília no oeste baiano.
Deslocamento médio das pessoas até aeroportos é de 146 Km
O estudo verificou que as fronteiras dos estados exercem peso na definição das áreas de influência dos aeroportos. Deve-se considerar, ainda, a influência do caráter da viagem nos deslocamentos. A variação quanto à distância dos deslocamentos de primeira e de segunda opção é relativamente pequena. Na primeira opção, os deslocamentos são em média de 146km, enquanto, para a segunda opção, são de 185km.
Acompanhando a ocupação populacional do território, a faixa litorânea, de ocupação mais densa, é mais bem atendida por aeroportos. Nas outras áreas, a rede é mais esparsa, implicando em longos deslocamentos para acesso aos aeroportos, por exemplo, em Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.
De modo geral, como primeira opção, notam-se ligações mais curtas. Contudo, aparecem centros que exercem dupla influência, pela relativa eqüidistância, com aeroportos de mesma categoria. Um exemplo de dupla influência é a exercida por Londrina e Maringá no Paraná; por Foz do Iguaçu e Cascavel, também no Paraná; e por São Luís, no Maranhão e Teresina, no Piauí. As áreas de influência desses centros, pelo menos no que se refere ao item aeroportos, são compartilhadas.
Comunicação Social
10 de outubro de 2008
Fordlândia: desindustrialização e crítica do presente
No documentário Fordlândia, os cineastas se fazem cronistas de uma cidade extinta. Uma cidade construída por Henry Ford, nos anos 1930, em plena floresta amazônica. Se as ruínas são testemunhas que resistem ao poder destruidor do tempo, Fordlândia corresponde, antes, à lógica do Capital.
Olgária Mattos
Fordlândia é um documentário de Mário Andrade e Daniel Augusto. Henry Ford funda, nos anos 1930, em plena floresta amazônica, um duplo de Detroit, cidade construída para introduzir no desenvolvimento industrial a utopia do automóvel. Na luta entre natureza e cultura, para realizar as promessas iluministas do progresso técnico, a cadeia de montagem venceria, pela racionalização do trabalho, a beleza convulsiva da mata exuberante.
Indiferentes a esse mito, os cineastas se fazem cronistas de uma cidade extinta. Em vez de dar a voz principal a antropólogos e economistas, historiadores e urbanistas - que explicariam o fracasso da tarefa no desconhecimento “da geografia humana” da região, dos seringais dizimados às condições alimentares impostas pelo colonizador moderno -, e desconfiando do dualismo do explorador e do explorado, a fita produz um deslocamento da memória testemunhal e dos filmes de arquivo, evocando a potência alucinatória da ficção, profetizando o passado, invertendo as relações causais. Evitando a idéia de que a objetividade é a verdade, os diretores operam com a desordem espacial e das lembranças para ingressar na cidade fantasmática de que não restam sequer ruínas, mas reminiscências de antigas edificações - da fábrica, da escola, do hospital,das moradas operárias e da “casa grande”.
Se as ruínas são testemunhas que resistem ao poder destruidor do tempo, Fordlândia corresponde, antes, à lógica do Capital. Ao tratar do capitalismo triunfante na Paris do século XIX, Benjamin anotou que nos “monumentos da burguesias se reconhecem ruínas antes de seu desmoronamento.”
Nesta fita as ruínas não são apenas materiais e externas, mas subjetivas e existenciais. Nem desaparecida, nem sobrevivente, a cidade, com seus raros habitantes, descendentes dos pioneiros, oferece o espetáculo de uma anacrônica duração.
Anacrônica, caso os diretores acreditassem em progresso e decadência, apogeu e queda de civilizações. Não por acaso, o filme começa pela cena final nos seringais: o trabalho que neles inscreve as primeiras cicatrizes produz o sofrimento da natureza que prenuncia o do homem.
Colocando face a face a criança de outrora, hoje adulto que, dos Estados Unidos, retorna à casa paterna e reencontra a ama que a criou, a câmera confidencial atualiza o que é negligenciado e esquecido nos relatos acadêmicos. Daniel Augusto e Mario Andrade não competem com ficções reais, câmera e ficção têm o dom de reanimar o que parecia sem vida e reunir os caminhos que se separaram e se perderam. Longe do diretor onisciente, a câmera preserva o decoro e o pudor. Em lugar de diálogos,a imagem revela a memória involuntária que traz de volta as primeiras emoções, o adulto é a criança que a ama acalentou. Fordlândia é o emblema da existência condicionada pela economia e pelo capital; nela, a vida perde a destinação humana.
Em seu ensaio “Experiência e Pobreza”, Walter Benjamin procura compreender como a pobreza pode se transformar em recurso e conhecimento, esquivando-se da submissão à produção imposta pela heteronomia da acumulação e do mercado mundial. Por isso fábulas e provérbios são ensinamentos de que Diógenes, no século V a.C dá o exemplo. Conta-se que um caminhante viu o filósofo que passava suas noites e seus dias ao relento mendigando uma moeda a uma estátua e lhe perguntou porque agia assim. Ao que Diógenes respondeu: “Eu me preparo para não receber nada.” Diógenes transforma a pobreza em menosprezo da glória das estátuas e, simultaneamente, revela a pobreza como condição de sua liberdade.
No filme a pobreza não é apenas a falta e seus tristes corolários, mas uma máxima sobre o trabalho industrial e o cortejo de infelicidades que comporta. Oscilando entre um passado que não se encerrou e um futuro que não é ainda, o limiar do desaparecimento pode vir a ser o renascimento da cidade que seja a “morada do homem”, espaço de pertencimento, bem-estar e paz. Nesta fita a tristeza não deverá ter a última palavra.
Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo.
30 de setembro de 2009
Brasil y la crisis de Honduras
JORGE HEINE 30/09/2009
Vota
- Capital:
- Brasilia.
- Gobierno:
- República Federal.
- Población:
- 191,908,598 (2008)
- Capital:
- Tegucigalpa.
- Gobierno:
- República.
- Población:
- 7,639,327 (est. 2008)
Brasil
A FONDO
Honduras
A FONDO
La noticia en otros webs
Al declarar que el golpe de Honduras no es tolerable, Lula asume el papel regional que se le pedía
No han faltado los que han criticado a Brasil por esto. Mi buen amigo Jorge Castañeda, en una extensa entrevista en O Estado de Sao Paulo, ha llegado a decir que Brasil se estaría comportando como "un enano" más que como un "gigante diplomático" al asumir batallas menores por "un país poco decisivo". Ello tampoco se correspondería, dice, con las aspiraciones de Brasil a ser miembro permanente del Consejo de Seguridad de Naciones Unidas.
En esto el ex canciller mexicano, normalmente tan certero en sus análisis, se equivoca.
¿En qué radica la importancia de Honduras? ¿Por qué el cuarto país más pobre de América Latina, con un ingreso per cápita de apenas 1.900 dólares, es hoy el asunto más urgente en la agenda interamericana? ¿A qué se debe el que, en el último medio siglo, ningún asunto ha tenido el rechazo en las Américas que ha tenido lo de Honduras? Cuando Cuba fue suspendida de la OEA, en 1962, fue en votación dividida; el segundo país en sufrir esa suerte, 47 años después, Honduras, lo fue en votación unánime. ¿Qué nos dice ello?
El caso de Honduras debe situarse en el marco del enorme esfuerzo por recuperar y consolidar la democracia en América Latina. Por primera vez, en todos los países del hemisferio occidental, salvo en Cuba, se ha establecido la democracia. Por lo débiles de sus raíces, esta frágil planta requiere especial cuidado. Por eso, han surgido numerosos mecanismos internacionales de monitorización democrática. En ninguna parte del mundo estos mecanismos se han institucionalizado tanto como en América Latina. La Carta Democrática Interamericana, aprobada en Lima el 11 de septiembre de 2001, fue la culminación de este proceso.
Desde entonces, ha habido otros casos en que jefes de Estado en la región han terminado sus mandatos en forma prematura y abrupta. Pero en ninguno de ellos se dio lo de Honduras, donde el presidente fue sacado de su casa a punta de pistola por militares, puesto en un avión y despachado al extranjero. Si esto no es un golpe militar, ¿qué lo es?
Si el sistema interamericano es incapaz de restaurar la democracia en Honduras, uno de los países más débiles de la región, no es capaz de hacerlo en ninguna parte. Y si se permite el éxito del golpe de Estado en Honduras, se habrá sentado un precedente muy grave.
Dadas las ecuaciones de poder en el hemisferio, lo lógico sería que el liderazgo para resolver la crisis lo asumiese Washington. Sin embargo, pese a su ostensible compromiso con el multilateralismo y con la causa de la democracia en América Latina, el Gobierno del presidente Obama ha indicado que, si bien rechaza el golpe y aplica sanciones, no está en condiciones políticas de asumir el liderazgo de la resolución de esta crisis.
Durante la última década, América Latina ha asumido un papel más significativo en las relaciones internacionales, diversificando sus mercados y sus lazos diplomáticos. Esto ha ido de la mano con una disminución palpable de la influencia de los Estados Unidos en la región. También ha aumentado la cooperación política intrarregional, con una multiplicidad de mecanismos, incluyendo las Cumbres Iberoamericanas. Este importante acervo y capital político está siendo puesto a prueba en Honduras. Si los presidentes latinoamericanos no pueden resolver esta crisis, ¿qué se puede esperar de ellos en materia de diplomacia colectiva?
Si no hoy, ¿cuándo? Si no en Honduras, ¿dónde?
Una crítica recurrente a la política exterior brasileña durante los Gobiernos del presidente Lula ha sido que ha prestado demasiada atención a los temas globales (la Ronda de Doha de la OMC, el grupo IBSA, la reforma del Consejo de Seguridad de la ONU) y no suficiente a las realidades regionales. Ahora el argumento se revierte, y se plantea que al involucrarse en una cuestión regional como Honduras, Brasil estaría perjudicando sus aspiraciones más amplias. Esto no tiene sentido. Una potencia regional con aspiraciones globales que es incapaz de resolver crisis en su propio entorno no es tomada en serio en el resto del mundo.
Al asumir la crisis de Honduras como una prioridad, Brasil no hace sino expresar el consenso latinoamericano (e iberoamericano) en la materia. La noción de que esto perjudicaría a Brasil y su papel global no tiene fundamento. Si Brasilia logra con esto resolver el intríngulis de Honduras y con ello quitarle un problema de encima a Estados Unidos, Washington le estaría eternamente agradecida. Con ello, Brasilia habría comenzado a asumir el tipo de liderazgo regional que hemos estado esperando hace tiempo.
Jorge Heine, abogado, diplomático y ex ministro de Estado chileno, es catedrático de Gobernanza Global en la Escuela Balsillie de Asuntos Internacionales en Waterloo, Ontario.
Pittsburg marca o fim do restrito
G8 nas deliberações econômicas
EUA ainda tentou manter o monitoramento das economias através do FMI, mas a proposta foi rejeitada pelo Brasil, China e Alemanha
O G8 já era: a cúpula de Pittsburg consagrou o G20, que reúne os países centrais e os principais países emergentes, como o principal centro de deliberações sobre a economia mundial, e sobre o enfrentamento da maior crise desde a Depressão de 1930. Como afirmou o comunicado final da cúpula, “Nós designamos o G20 para ser o principal fórum da nossa cooperação internacional”.
A mudança foi assim registrada pela revista inglesa “The Economist”, porta-voz da City londrina. “Uma espécie de reequilíbrio das instituições globais para melhor refletir as realidades econômicas de hoje. De agora em diante, o G20 substituirá o G8, estreito e dominado pelo Ocidente, como fórum primário econômico global, dando àqueles como China, Índia e Brasil um assento permanente à mesa” (a Rússia já participava do G8 desde Ieltsin). Ou seja, trata-se da formalização de uma nova correlação de forças no terreno econômico, que reflete o peso que a China – que já é a terceira ou segunda maior economia do planeta, dependendo de como é calculado o PIB -, a Índia, Brasil, Rússia, África do Sul e outros países passaram a ter.
Essa “substituição na prática” do G8 – como na imagem sugerida pelo presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva – ainda não é a substituição do sistema imposto em Bretton Woods, mas já é um largo passo para o questionamento do sistema que faliu, do dólar e da hegemonia dos monopólios norte-americanos. A propósito, o presidente do Banco Mundial, um norte-americano, Robert Zoellick, advertiu (veja matéria abaixo) que os EUA “não podem dar o dólar como garantido como moeda de reserva do mundo” e se acham sob ameaça da moeda chinesa e do euro.
ESTÍMULOS
Para vários dos países que agora fazem parte do G20, como no caso do Brasil, o “fórum” de que participaram em crises anteriores foi o comitê de bancos da dívida externa e as missões do FMI. Assim, é uma grande mudança. De acordo com a Declaração, “Nossos países concordam em fazer tudo que for necessário para garantir a recuperação, consertar nosso sistema financeiro e manter o fluxo global de capital”. Os signatários também concordaram em manter os estímulos à produção enquanto não seja atingida uma recuperação durável.
Mas nas entrelinhas perpassam várias divergências sobre como resolver a crise, e quanto a que ponto da crise está. A proposta dos EUA para “coordenação econômica” debaixo do FMI com poderes alargados, isto é, o velho “monitora-mento”, revisto e ampliado, foi descartado pela China, Alemanha e Brasil, entre outros, e substituído por uma “revisão pelos pares”. Há diferenças também sobre onde centrar os esforços: enquanto a maior parte do pacote de Obama foi para o bailout dos bancos arrombados, a China dedicou quase US$ 800 bilhões para investimentos na infraestrutura, redire-cionou a economia para desenvolver o mercado interno e ampliou fortemente o crédito através dos bancos estatais.
MONOPÓLIOS
Quanto à questão chave da restauração da regulamentação sobre os monopólios financeiros, o G20 seguiu patinando: as normas somente estarão definidas no ano que vem, e só precisarão ser aplicadas dois anos depois, 2012. Assim, já que a crise eclodiu em 2008, os monopólios financeiros terão tido cinco anos para fazerem vista grossa – e a festa – em Wall Street. Anuncia-se que a regulamentação irá incluir limites mais rigorosos para a alavancagem, mas, enquanto isso, em Wall Street, e nas bolsas do mundo inteiro, a inundação de recursos públicos para os bancos tem permitido frenética especulação com ações, com alta desde o final de março em 35%, o que é apresentado como sintoma da retomada econômica, enquanto os números do desemprego só fazem se agravar. Nos EUA, o desemprego “cheio” já ultrapassou os 16%. A declaração de Pittsburgh também propôs restringir bônus e remuneração dos banqueiros e executivos, embora sem atender à Alemanha e França que queriam limites expressos do tipo proporção da receita ou do capital.
Foi criado ainda, como auxiliar do BIS, espécie de banco central dos bancos centrais, o Conselho de Estabilidade Financeira. Na cúpula, também ficou acertado a ampliação das cotas dos países emergentes no FMI e Banco Mundial. Participaram do G20 a África do Sul, Argentina, Arábia Saudita, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, EUA, França, Rússia, México, Etiópia, Tailândia, Turquia, União Européia, Espanha, Inglaterra, Japão, Índia, Indonésia, Canadá, Itália, Holanda e Suécia.
ANTONIO PIMENTA
Hora do Povo
O novo papel do Itamarati
Por m.m.
Da BBC
Para ‘Time’, Brasil é ‘primeiro contrapeso real aos EUA no Ocidente’
Considerando que o Brasil foi “trazido” para o coração do imbróglio pelos vizinhos, mais especificamente pela Venezuela do presidente Hugo Chávez, a revista diz que “Brasília se vê no tipo de centro das atenções diplomático do qual no passado procurou se afastar”.
Entretanto, diz a Time, o país “não deveria se surpreender” com o fato de ser chamado a assumir tal responsabilidade.
Para a publicação americana, “nos últimos anos, a potência sul-americana tem sido reconhecida como o primeiro contrapeso real aos EUA no hemisfério ocidental – e isto significa, pelo menos para outros países nas Américas, assumir um papel maior e mais pró-ativo em ajudar a resolver distúrbios políticos do Novo Mundo, como Honduras”.
“Lula e Obama são colegas e almas gêmeas de centro-esquerda, mas quando Obama disse, no mês passado, que aqueles que questionam sua resolução em Honduras são hipócritas, porque são ‘os mesmos que dizem que nós estamos sempre intervindo na América Latina’”, recorda a reportagem, “ele estava incluindo o Brasil, que expressou sua preocupação em relação aos esforços dos Estados Unidos”.
mais, em:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/09/090930_pressbrasil_times_pu.shtml