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13 de outubro de 2009

O Plano Real e outras Experiências Internacionais de Estabilização

O Plano Real e outras Experiências Internacionais de Estabilização

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Informe Estatástico da Economia Brasileira - 2009

Informe Estatástico da Economia Brasileira - 2009

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Painel internacional

Goldman Sachs perde recomendação de ‘compra’

O Goldman Sachs Group, maior instituição de títulos dos EUA antes de se tornar um banco no ano passado, foi reduzido para “neutro” pela analista de investimentos Meredith Whitney, que derrubou a única recomendação de “comprar” (que o Goldman ainda possuía). Whitney, que em 2007 previu corretamente que o Citigroup iria cortar seus dividendos, não atualizou sua estimativa de preços sobre as ações no resumo de nota distribuída hoje aos investidores. A analista de Nova York elevou a recomendação do Goldman Sachs para “comprar” em 13 de julho, quando as ações subiram 34%, comparado com um aumento de 29% no Índice Standard & Poor’s 500 de Bancos de Investimento & Corretoras. A fundadora da Meredith Whitney Advisory Group disse em 10 de setembro que o Goldman Sachs “ainda tem um monte de gasolina no seu tanque”.
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E mais

A restrição do crédito nos EUA

O Brasil no centro das atenções mundiais

A luta do México para manter a credibilidade

Rússia e China fecham acordos energéticos

A restrição do crédito nos EUA

New York Times

Muitas pequenas e médias empresas norte-americanas ainda estão lutando para garantir empréstimos bancários, dificultando seus planos de expansão e limitando o crescimento econômico global, mesmo com o país tendoprovisoriamente emergido das profundezas da recessão. A maioria dos bancos espera que os padrões de concessão de empréstimos permaneçam mais rígidos do que os níveis da última década, pelo menos até meados de 2010, de acordo com um levantamento de oficiais de crédito sênior pelo Comitê do Federal Reserve (banco central dos EUA). O duradouro aperto de crédito parece refletir uma aversão ao risco entre os financiadores,confrontados com uma grande incerteza sobre a economia mais do que os eventuais efeitos nefastos do pânico que tomou conta dos mercados financeiros no último outono, após o colapso do gigante de investimentos Lehman Brothers.

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O Brasil no centro das atenções mundiais

Forbes.com

De repente, todo mundo está falando do Brasil. Isso faz sentido, considerando que o colosso da América do Sulbateu o presidente Obama e sua cidade natal Chicago na disputa para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. O paístambém se beneficiou por ser a “parte B” do grupo BRIC de países emergentes, além de Rússia, Índia e China. De 2003 a 2007, o Brasil teve superávit comercial recorde, e seu produto interno bruto, de US$ 1,99 trilhão, é o 10º maior do mundo. Têm grandes e bem desenvolvidos setores agrícola, mineração, indústria e serviços, e sua economia é maior do que todas as outras nações da América do Sul juntas. Há também algumas desvantagens significativas para o Brasil. Apesar de seu PIB potente, a desenfreada desigualdade de renda significa que a sua riqueza per capita é a 102ª do mundo, pouco abaixo da média mundial e menor que a da Sérvia. David Joy, estrategista-chefe de mercado da RiverSource Investments, afirma que as Olimpíadas representam não só a cereja do bolo para o Brasil, mas um selo implícito de aprovação pelo desenvolvimento econômico. Isto significa que o Brasil e seus irmãos BRIC merecem não apenas um lugar à mesa quando questões econômicas globais estão sendo discutidas, mas que são jogadores centrais em tais discussões.

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A luta do México para manter a credibilidade

O México não é um caso fiscal perdido, ainda que a sua sitiada presidência tenha preparado enormes cortes orçamentais para salvar a sua duramente conquistada nota de crédito da dívida soberana (em grau de investimento). Países de todo o mundo estão envolvidos em gastos com déficits, enquanto tentam tirar suas economias para fora da recessão. O México não é exceção. É curioso ver a posição do México na lista de 25 países e os seus déficits orçamentais, de acordo com Jonathan Heath, economista-chefe da América Latina do banco HSBC: Os EUA lideram, por um déficit que iguala 15% do produto interno bruto, e a Grã-Bretanha, mais de 13%. A Rússia passou de superávit de 4,1% em 2008 para um déficit de 8,4% hoje. Mesmo rico em petróleo, aArábia Saudita passou de um excedente de quase 32% do PIB para um déficit esperado de 2,5% este ano,calcula Heath. Essas lacunas fazem o México antecipar um déficit fiscal de 2,3%, a partir de um PIB quase equilibrado de 0,1% no ano passado - visão positivamente modesta. Há um problema, porém: quase 40% da receita do governo vem de impostos e royalties de petróleo – e a produção e exportações de óleo cru estão caindo de forma constante, ao mesmo tempo em que o principal reservatório do país no Golfo do México seca.

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Rússia e China fecham acordos energéticos

BBC NEWS

A China e a Rússia assinaram acordos de comércio de US$ 3,5 bilhões. Cerca de 40 contratos foram assinados por empresários russos e chineses e funcionários do governo, disse o vice-premiê russo Alexander Zhukov. O chefe da empresa de energia russa Gazprom, Alexei Miller, disse que um acordo preliminar também havia sido firmado para o fornecimento de 70 mil metros cúbicos de gás por ano à China. Os acordos foram assinados durante o segundo dia de visita à Pequim do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin. A Rússia está interessada em fortalecer a sua economia, que o presidente Dmitry Medvedev, disse que irá diminuir 7,5% em 2009. O país está disposto a vender mais petróleo e gás para a China – o segundo maior usuário de energia do mundo. Zhukov disse aos jornalistas que os acordos incluem dois empréstimos de US$ 500 milhões dos bancos chinês para as instituições financeiras russas. Um deles era do China Development Bank ao seu colega russo Vnesheconombank, enquanto o outro era do Banco Agrícola da China à estatal russa VTB. Ele disse que outros negócios incluem investimentos de empresas chinesas em construções russas, mas não deu detalhes.

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http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/10/13/painel-internacional-86/

12 de outubro de 2009

Uma medida da desigualdade


Gilson Luiz Euzébio

de Brasília


O Brasil apresentou um surpreendente resultado: o índice de Gini caiu 7,6% entre março de 2002 e junho de 2009, ou de 0,534 para 0,493. E continuou caindo, mesmo depois de a crise econômica chegar ao país. Isso quer dizer que a desigualdade de renda no Brasil, oriunda do trabalho, está diminuindo, embora o índice de desigualdade brasileiro não seja digno de um país civilizado, como definiu o presidente do Ipea, Marcio Pochmann. Qualquer número acima de 0,4 indica desigualdade acentuada. O índice ou coeficiente de Gini é uma medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini, em 1912. A escala varia de 0 a 1: quanto mais próximo de zero, menor o grau de desigualdade da sociedade. A aproximação de um indica uma sociedade com alto grau de desigualdade.
Como a escala mede as desigualdades, um melhor resultado pode ser alcançado com a redução da pobreza ou com a redução do conjunto de mais alta renda. Ou ainda com a combinação das duas situações. Isso foi o que aconteceu no Brasil: muitos pobres superaram a linha da pobreza graças ao crescimento da economia nos últimos anos, que gerou emprego e renda, e também aos programas governamentais de distribuição de renda. Na outra ponta, a crise econômica destruiu empregos principalmente na indústria, onde os salários são mais altos. Não é uma boa saída, porque o ideal é que os mais pobres passem a ter acesso à renda, e não que o ajuste seja feito também com a perda salarial dos mais bem situados na pirâmide social.
O ponto positivo para o Brasil foi a redução da pobreza: de acordo com o Ipea, quatro milhões de pessoas saíram da pobreza desde 2002. Mesmo assim, são ainda 14,5 milhões de pessoas vivendo com renda familiar per capita abaixo de meio salário mínimo por mês.
Outro indicador de bem-estar social é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), utilizado pela Organização das Nações Unidas. Enquanto o índice de Gini avalia a desigualdade de renda, o cálculo do IDH leva em conta grandes temas como riqueza, renda per capita, educação e expectativa de vida. O IDH também varia de 0 a 1, mas quanto mais próximo de um maior é o grau de desenvolvimento econômico e melhor a qualidade de vida da população. No Brasil, o IDH tem melhorado devido aos avanços na educação e, também, aos programas sociais e ao crescimento econômico recente. Embora seja usado pela ONU na classificação dos países, o IDH serve também para medir as desigualdades entre estados e municípios. É um indicador para a definição das políticas públicas.

 

arquivo na íntegraLeia o arquivo na íntegra>>

http://www.ipea.gov.br/default.jsp

27 de setembro de 2009

A Nova Classe Média

O Mapa do Fim da Fome: METAS SOCIAIS CONTRA A MISÉRIA - FGV

 

O Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas vem monitorando as condições de vida da população nas diferentes cidades brasileiras de forma a municiar com informações espacialmente desagregadas o debate social brasileiro. O trabalho busca trazer ao cidadão comum os principais conceitos envolvidos na mensuração da miséria e será ilustrado com um conjunto amplo de mapas e tabelas abertos a nível de municípios, estados e de suas mesoregiões.

Abordamos o que talvez seja a pior forma de destituição: a insuficiência de renda para se comprar uma cesta de alimentos que cubra minimamente necessidades calóricas básicas. Calculamos o custo do fim da fome de forma espacialmente desagregada de forma a contribuir para o aperfeiçoamento de políticas de combate à pobreza. Em particular, insistimos na proposição de que os governos, em geral, se comprometam com a trajetória de indicadores sociais palpáveis da mesma forma que o Banco Central o faz em relação às metas inflacionárias. As metas sociais buscam motivar, coordenar e racionalizar o debate social nos diversos "Brasis". A adoção de metas explícitas de redução da miséria constitui a principal prescrição de política do estudo.

O trabalho âncora aqui apresentado busca didatizar os conceitos de pobreza e de metas sociais e está centrado nos níveis diversos municípios e mesorregiões fluminenses. O usuário está convidado a replicar as mesmas análises para os estados do RJ, SP, DF, BA, RS, MG, PE, PR, GO, CE ePA a partir das seguintes informações:

    i) Extensão indigência e do custo da sua erradicação a nível do estado, das suas mesoregiões e das diferentes cidades médias, grandes e municípios das metrópoles em três pontos da década de 90.
    ii) Evolução recente da miséria metropolitana até o final de 2000.
    iii) Evolução de longo prazo da miséria a nível de estados e municípios desde 1970.
    iv) Anexos contendo informações complementares àquelas citadas acima.
    http://www.fgv.br/ibre/cps/mapa_fome.asp

    Miséria e a Nova Classe Média na Década de Igualdade - FGV

    Atlas do bolso dos brasileiros FGV

    17 de setembro de 2009

    CAVAGNARI: 'POLITICAMENTE ACORDO MILITAR COM A FRANÇA É O MELHOR'

     

    Atualizado e Publicado em 17 de setembro de 2009 às 19:25

    por Valéria Nader e Gabriel Brito, em Correio da Cidadania   

    Após um longo período de ostracismo, as Forças Armadas brasileiras voltaram ao noticiário de destaque, com o anúncio de compra de novos caças e submarinos pelo governo, para reforçar seu aparato militar. Após tornar-se pública a preferência pelos produtos franceses, em detrimento dos suecos e norte-americanos, muitas discussões vêm se desenrolando acerca das motivações envolvidas nestas compras.

    Para comentar o tema, o Correio da Cidadania conversou com o Coronel da reserva Geraldo Cavagnari, membro do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, que apóia as compras de caças e submarinos, pois considera que nossas Forças Armadas, a partir do fim da guerra fria, passaram por um processo de desmonte, deixando as forças de defesa do país em nível inferior à atual posição geopolítica brasileira. Cavagnari acredita também ser mais vantajoso politicamente o acordo com os franceses, ao se criar uma menor dependência em relação aos EUA, que imporiam maiores restrições no que se refere à transferência tecnológica.

    No entanto, alerta que a reativação da IV Frota Naval foi um duro golpe sobre o país no que tange o interesse brasileiro em chefiar uma zona de paz e cooperação na região. Diante dessa realidade e da discrepância do poderio militar entre as duas nações, Cavagnari acredita ser impossível realizar um contraponto aos americanos na região, restando a opção de, ao menos em princípio, continuar modernizando seu aparato bélico, para que assim comece a galgar caminho a um maior reconhecimento na área de segurança.

    Correio da Cidadania: O que pensa do acordo militar do Brasil com a França para a obtenção de helicópteros, submarinos e tecnologia para desenvolver um modelo de propulsão nuclear, acrescido posteriormente da obtenção de aviões de combate, e cujo valor previsto total encosta nos 30 bilhões de reais? O acordo é efetivo e oportuno enquanto um projeto estratégico de defesa nacional, na busca de aparelhamento das Forças Armadas?

    Geraldo Cavagnari: Sou favorável à compra desse material há muito tempo. Primeiramente, porque o Brasil sofreu um processo de desmonte em suas Forças Armadas, que chegou a um ponto em que não dava mais, ainda mais com o perfil do país hoje. O Brasil já é de certo modo considerado uma grande potência regional. Assim como a Índia já é uma potência no sul da Ásia, o Brasil o é na América do Sul. Isso por ter um elevado perfil econômico, tecnológico e geopolítico na região; só militarmente segue indefinido. Assim, deve renovar todas as Forças Armadas para se nivelar em todos esses perfis.

    A segunda razão é a de que o Brasil aspira um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Só que esse assunto é privilégio de grandes potências militares. Os integrantes de hoje são os mesmos que se definiram depois da 2a guerra mundial (EUA, China, Rússia, França e Grã Bretanha), as grandes potências à época da guerra.

    Hoje há um interesse no âmbito da ONU de se aumentar o número de assentos com direito a veto. E os candidatos obviamente são aqueles reconhecidos como potência militar. Estão na lista à espera de um lugar Japão, Índia e Brasil. Os dois primeiros já são potências militares, com a Índia tendo a vantagem de ser uma potência nuclear também, condição à qual o Brasil já renunciou. No entanto, também não é uma potência militar nesse nível.

    Considerando esses aspectos, é óbvio que as Forças Armadas têm de ser modernizadas, e essa foi a decisão do governo.

    CC:E o senhor considera estratégica e pertinente a entrada do Brasil no Conselho de Segurança da ONU?

    GC: É status. O Brasil quer um assento permanente, com direito a veto, então passa a ter seu status de grande potência regional reconhecido. Quer dizer, reconhecido já é, mas seria praticamente um reconhecimento oficial.

    CC:Especula-se que a escolha da França pode não ser a melhor opção em termos de custos e benefícios, além de não ter havido transparência no processo. O que pensa disso?

    GC: Isso está embaralhado. Porque temos de ver o seguinte: a Força Aérea e a Marinha fizeram os estudos de várias propostas. As mais convenientes eram as dos EUA no caso dos aviões e as da França no caso da Marinha.  Mas há um entendimento aí: os EUA colocam determinadas objeções que praticamente tiram a liberdade de produzir aquele material bélico.

    CC:O que emperraria a transferência tecnológica de forma decisiva.

    GC: Exatamente. Aconteceu que o Brasil teve de comprar algum pacote tecnológico para modernizar o Supertucano. E quando a Venezuela precisou fazer uma grande encomenda, por força desse acordo com os EUA, o Brasil ficou proibido de atendê-la, pois feria os interesses americanos.

    Desse modo, o que se está procurando é acabar com as restrições. Depois que o presidente anunciou o pacote com a França, os EUA resolveram apresentar sua proposta real, que é tão significativa quanto a da França.

    Tecnicamente, as duas se equiparam, inclusive no aspecto tecnológico, que permite a transferência de conhecimento. Porém, no nível político seria muito melhor para esse governo fechar com a França.

    No entanto, vejo o seguinte: embora tenhamos uma relação muito afetuosa e sólida com a França, não podemos esquecer que a potência hegemônica no Atlântico Sul e na América do Sul, duas áreas estratégicas para o Brasil (para operações terrestres e marítimas), são os Estados Unidos.

    CC:Dessa forma, estaria em jogo um sentido político para este acordo, ao se estabelecer um contraponto à ofensiva militarista dos EUA na América Latina, especialmente após o acordo militar com a Colômbia?

    GC: Não vejo assim. É insignificante se apresentar como contraponto. Temos de dizer que o Brasil se desenvolveu economicamente naqueles perfis citados, mas, quando terminou a guerra fria, achou que nessas duas áreas poderia agir com muita desenvoltura. Dessa forma, na década de 80, ao lado da Argentina, o Brasil propôs que o Atlântico Sul se transformasse numa Zona de Paz e Cooperação, procurando apoio na ONU. E pela sua resolução 4411, a ONU fez isso com a região.

    Quando os EUA saíram da América do Sul com o fim da guerra fria, a iniciativa brasileira, a galope da iniciativa venezuelana, foi criar uma OEA sul-americana, no que saiu a Unasul (União das Nações Sul-americanas). O Brasil se antecipou e fez uma proposta de criação do Conselho Sul-americano de Defesa. Ou seja, a Unasul seria o âmbito político e o Conselho o instrumento militar. O país fez isso pensando em estender a zona de paz do Atlântico para todo o subcontinente. E o Brasil ficaria com a batuta na mão, regendo uma grande orquestra, no caso a zona de paz.

    Porém, com toda essa desenvoltura, o país sofreu dois baques: o primeiro foi a reativação da IV Frota naval norte-americana. Os EUA criaram-na na Segunda Guerra Mundial. Tinham uma no Pacífico, fizeram outra no Índico quando passaram a ser dependentes de petróleo árabe e, na Segunda

    Guerra, criaram também a do Atlântico Norte. Terminando a Segunda Guerra, a IV Frota ficou ativa mais uns 8 anos, até que fosse desativada em 1953. Não foi extinta, mas desativada.

    Aconteceu depois que os EUA passaram a entender que têm dois tipos de segurança: uma linha avançada e uma outra linha estrita. A avançada está na Eurásia, pegando todo o continente europeu, entrando pelo Oriente Médio, Ásia e sul da África.

    Já a sua segurança estrita pega todo o Atlântico norte e sul, além do Pacífico oriental que banha a América do Norte e Sul. Na linha afastada, não mexeram nada, está tudo como no final da Segunda Guerra e como eles incrementaram depois. Os EUA acharam ainda que a América do Sul estava estabilizada, que se comportou como área política estratégica e passou a ter também estabilidade política e institucional.

    Quando apareceram o Chávez e as pretensões do Brasil, eles reativaram a 4a. Frota. Esse é o primeiro lance, que não nos prejudica tanto, mas de certo modo é um recado, no sentido de que não lhes interessa que o Brasil tenha constituído ali a zona de paz, pois eles não tiram sua frota.

    Assim, no caso da América do Sul, o Chávez abriu a guarda e os EUA entraram. Ele abriu a guarda com aquele discurso alarmista, com as provocações que fez aos EUA e à Colômbia. Os EUA tinham uma base em Manta e o Chávez atiçou o Correa a não prorrogar o contrato de concessão. E assim fez o Correa, desaparecendo os EUA de Manta.

    Mas eles têm uma relação muito próxima, diria até biológica, com a Colômbia, sempre participando no combate ao narcotráfico, uma vez que são o maior produtor e mercado consumidor do mundo respectivamente, e também combatendo a guerrilha que fica mais ou menos entre as fronteiras de Colômbia, Venezuela e Equador.

    Com as mudanças, os EUA conseguiram ganhar da Colômbia a aprovação para que se criassem bases com essas mesmas qualidades. Tendo como grande inimigo a Venezuela, seguida em menor escala pela Bolívia e Equador, a Colômbia achou interessante conceder as bases, pois, além do combate ao narcotráfico, teria um reforço contra a guerrilha e uma ameaça permanente a Equador e Venezuela.

    Isso prejudicou o interesse regional do Brasil. Os EUA nos mostraram que usam o Atlântico como querem, avisando ter condições de criar parcerias na América do Sul. E sabem que ainda são reconhecidos por alguns como a hegemonia. Foi isso o que aconteceu. E a Colômbia está se lixando para a Venezuela, o Brasil. O projeto de Chávez era reforçar a guerrilha de modo a causar uma desestabilização na Colômbia e depois entrar com suas forças armadas lá. Isso acabou. O plano de Chávez de formar a Gran Colômbia de Bolívar acabou definitivamente.

    São problemas geopolíticos da região. O Brasil tem de se convencer de que não tem condições de enfrentar os EUA na região; tecnológicas, militares e, tampouco, econômicas. Tem de saber conviver com isso e tirar proveito. Essa nossa força militar, de todo modo, tem a necessidade de segurança, principalmente na Amazônia, no espaço aéreo – praticamente sem defesa -, além da região do pré-sal.

    CC:E como se proteger ou driblar esse poderio inigualável dos EUA?

    GC: Não há condições. Tem de apostar no crescimento e desenvolvimento, pois não adianta falar alto sem ser potência militar. Os países que falam alto são forças militares. Tem de conviver com isso com realismo político.

    CC:Especula-se a respeito de que o Brasil estaria procurando fazer um contraponto não só ao poderio imperial aos EUA, mas também à Venezuela, Equador e Bolívia e sua aproximação com Irã e Rússia. Qual a sua opinião? Estamos diante do início de uma corrida armamentista na região, restaurando uma espécie de ‘guerra fria’ regional?

    GC: Creio que não. Bom, tudo é possível, não nego definitivamente, mas não acho que o Brasil entraria nessa. Se os sul-americanos criarem uma guerra fria entre si, se dividindo em blocos, a situação vai piorar, pois se abre de vez a brecha para os EUA.

    CC:A concomitância entre o fechamento do acordo e toda a mobilização em torno do Pré-Sal é uma mera coincidência?

    GC: Claro, vejo sim como coincidência. Não há dúvida de que há vínculo do Pré-Sal com essa compra, mas não é só isso.

    CC:O acordo vem na esteira de anunciadas mudanças no Ministério da Defesa e das Forças Armadas, concedendo mais poderes ao primeiro, além de fortalecer a Marinha e a Aeronáutica em suas atribuições de polícia nas fronteiras – atualmente função somente do Exército. Como estes fatos se relacionam, a seu ver?

    GC: Essa atribuição cabe ao Exército apenas por ser a força terrestre. Mas se a Força Aérea captura um avião do narcotráfico e o leva à base, chegando lá não pode prender. Por isso a decisão de conceder às três forças o direito de polícia. A estratégia nacional de defesa vai na direção de deixar as forças mais integradas.

    CC:Como vê a contratação sem licitação da empreiteira brasileira Odebrecht como parte do acordo, para a construção de uma base naval e um estaleiro?

    GC: Nesse caso, tem de ver como foi feito o acordo e por que o Brasil o aceitou. Se aceitou, é porque houve entendimento diplomático, pois o que fazemos aqui dentro é decisão brasileira, não tem imposição de fora, desconheço isso.

    CC:Mas o governo brasileiro atribui aos franceses a escolha da empreiteira.

    GC: Aí não sei dizer.

    CC:Tal contratação não parece, de todo modo, bastante obscura, insinuando a força do poderoso lobby das empreiteiras?

    GC: Sim, mas não se pode fazer isso. O Brasil é obrigado a realizar licitação. Se tem uma lei que obriga haver licitação, deve ser cumprida. A França pode ter feito um pedido, mas não vejo eventual pedido como imposição definitiva.

    CC:Considerando o desmonte das Forças Armadas nos últimos tempos, ressaltado acima, o que consideraria como estratégia militar necessária ao país?

    GC: Primeiro, há que se concentrar em recuperar e atingir um status mais avançado de modernização. Depois, deve-se manter um estado permanente de investimentos nas Forças Armadas.

    Gabriel Brito é jornalista. Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

    15 de setembro de 2009

    João Sicsú: PIB cresceu 1,9%: a crise era um V

     

    De 2006 até o terceiro trimestre de 2008, a economia cresceu de forma vigorosa. No entanto, no quarto trimestre de 2008, o Brasil foi atingido pela crise econômico-financeira internacional. Foi uma crise que veio de fora para dentro. Primeiramente, houve uma aguda restrição do crédito ofertado por instituições estrangeiras.
    Por João Sicsú*, no Jornal do Brasil

    Posteriormente, instituições financeiras domésticas elevaram a taxa de juros de suas operações no país, tornando o crédito ainda mais escasso. E, finalmente, a economia foi atingida por uma crise de confiança por parte de empresários e trabalhadores, isto é, uma crise de contenção de gastos para produção, investimento e consumo. Houve fuga de capitais da bolsa de valores. E, por exemplo, a venda de veículos caiu de 272 mil unidades em julho de 2008 para 166 mil, em novembro daquele ano.
    Àquela época, o saldo de admissões e demissões do trabalho com carteira assinada divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego já era revelador da gravidade da situação. Em outubro de 2008, foram criados somente 61 mil novos postos de trabalho. Esse número era o sinal amarelo: em outubro de 2007, haviam sido criados 205 mil novos empregos. Em novembro de 2008, foram destruídos de forma líquida 41 mil empregos. Em novembro de 2007, haviam sido criados 125 mil novos empregos. Dezembro de 2008 e janeiro de 2009 apresentaram números que também confirmavam a gravidade da crise. Em dezembro, foram destruídos 655 postos de trabalho com carteira e em janeiro, 102 mil.
    Em setembro, portanto, dias antes de o Brasil mergulhar nesta crise, o Banco Central elevou a taxa de juro Selic de 13% para 13,75% ao ano. E, então, dias antes da economia enfrentar o seu pior trimestre da série histórica desde o Plano Collor, a ata da reunião de setembro afirmou: “o Copom avalia que o ritmo de expansão da demanda doméstica, que deve continuar sendo sustentado (...), continua colocando riscos importantes para a dinâmica inflacionária”.
    No mês seguinte, em outubro, o Banco Central manteve a taxa nesse elevado patamar de 13,75%. Na ata da reunião realizada naquele mês, quando a economia brasileira já havia mergulhado na crise, o Copom afirmava: “Os dados disponíveis referentes à atividade econômica indicam que o ritmo de expansão da demanda doméstica continua bastante robusto...”. Em outra passagem daquela ata, os diretores do Banco Central afirmaram de forma categórica: “o Copom avalia que o ritmo de expansão da demanda doméstica segue colocando riscos importantes para a dinâmica inflacionária (...).
    Chegado o mês de dezembro de 2008, houve outra reunião do Copom. O Brasil já havia submergido na crise internacional. Naquela conjuntura, centenas de milhares de trabalhadores já haviam perdido seus postos de trabalho. Nesse cenário, o Copom manteve a taxa de juro Selic no elevado patamar de 13,75% ao ano. Avaliou na ata de dezembro que existiam “sinais de acomodação da demanda doméstica”, ou seja, a grave crise que a economia brasileira mergulhou foi pintada pelo Copom com cores bem mais brandas. Em outra passagem da ata de dezembro, o Copom caracterizou o que estava ocorrendo naquele momento como um “arrefecimento do ritmo de atividade econômica”.
    A crise foi grave. O governo adotou uma série de medidas para combatê-la. Todas as medidas visavam ampliar a liquidez/crédito, por um lado, e ampliar os gastos públicos e privados, por outro. Vale destacar as seguintes medidas:
    (i) aumento real superior a 6% do salário mínimo que começou a ser pago a partir de março – cabe lembrar que 2/3 dos benefícios da previdência têm valor de um salário mínimo; (ii) todos os benefícios pagos pela previdência cujo valor é superior a um salário mínimo foram reajustados de acordo com a inflação passada – ou seja, não houve perda de poder de compra de 2008 para 2009; (iii) ampliação do crédito direcionado, principalmente, aqueles que são ofertados pelas instituições financeiras públicas, especialmente, o BNDES, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil; (iv) criação de duas novas alíquotas de imposto de renda sobre a pessoa física – o que fez aumentar de forma significativa a renda disponível; (v) decisão de inclusão de mais 1,3 milhão de famílias no programa bolsa-família; (vi) concentração de esforços para realização dos projetos de investimento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); (v) redução da meta de superávit primário anual, anteriormente, estabelecida em 4,3% do PIB para 2,5%; (vi) lançamento do programa habitacional de construção de 1 milhão de moradias; (vii) manutenção/ampliação dos gastos públicos com pessoal, programas sociais e atividades-finalísticas do Estado brasileiro e (viii) redução de IPI em diversos para segmentos, entre eles, o automobilístico.
    Os primeiros e nítidos sinais de recuperação da economia já começaram a aparecer. Até o momento, tudo indica que o formato da trajetória da crise enfrentada pela economia brasileira foi de um V. O crescimento do PIB do segundo trimestre de 1,9%, em relação ao primeiro trimestre, indica que a economia já está em rota de recuperação e que uma aceleração mais forte já teve início no segundo semestre de 2009.
    Alguns sinais que a economia brasileira iniciou uma caminhada segura e ascendente são os seguintes: (i) há quatro meses consecutivos que a taxa de desemprego está em queda (em março foi 9%, em julho, 8,1% - taxas muito baixas para períodos de crise); (ii) o saldo líquido de admissões e demissões de trabalhadores com carteira assinada que foi negativo de novembro de 2008 até janeiro de 2009, se tornou positivo a partir de fevereiro, gerando empregos em número crescente (em 2009, já foram criados 438 mil novas vagas); (iii) a relação volume de crédito/PIB está próxima de 44%, seu pico histórico (iv) as vendas de veículos que de novembro de 2008 a fevereiro de 2009 caíram para valores inferiores a 200 mil unidades/mês, nos meses de junho e julho voltaram para um patamar superior a 250 mil unidades/mês e (v) o volume de vendas do comércio varejista está entre 4 e 5% em termos reais maior que no ano passado.
    A recuperação em curso é nítida, embora evidentemente seja uma recuperação tímida. Fortalecer esta recuperação é tarefa do governo que deve ser ousado, na medida em que a crise atingiu o Brasil de forma bastante profunda e em velocidade surpreendente. Os números que indicam a recuperação já configuram uma trajetória consistente. O governo adotou uma série de medidas corretas, mas que precisam ser calibradas de acordo com o desenrolar dos fatos. Manter a economia na perna ascendente do V no segundo semestre de 2009 é decisivo para a configuração do ano e determinante para o ritmo de crescimento de 2010.
    * Diretor de Estudos e Políticas Macroeconôm

    2 de setembro de 2009

    Exploração de nióbio exige regulamentação

    ENTREVISTA: BRIZOLA NETO

     

    Deputado Federal do PDT, neto de Leonel Brizola, fala da defesa dos recursos
    naturais, da sua trajetória política e da luta contra a exploração das multinacionais.

    Gilberto Felisberto Vasconcellos: Que questões envolvem o nióbio no Brasil?
    Brizola Neto: Toda indústria de alta tecnologia é altamente dependente do nióbio, não tem turbina de avião, não tem turbina de termoelétricas, não tem oleoduto se não tiver nióbio, porque ele é anticorrosivo. E o dado importante, é que justamente 95% das reservas de nióbio do mundo concentram-se só nas minas amazônicas, onde está demarcada a Reserva Raposa do Sol, sem serem exploradas. Há uma mina em atividade em Araxá, Minas Gerais, uma associação do grupo Moreira Sales com o grupo Rockefeller, a Cia. Brasileira de Mineração de Metais-CBMM. que vendem internacionalmente o nióbio a um preço abaixo do custo. Fato grave é que mesmo sendo o único exportador no mundo deste minério estratégico, o nosso país não é sequer capaz de determinar o preço do nióbio no mercado externo. Nos momentos de baixa dos valores das comodites como ocorre na crise atual, o preço da extração e do refino fica superior ao valor em que é cotado na bolsa de Londres, em média U$ 90 o kilograma. Na jazida atualmente mais explorada, em Araxá, Minas Gerais, a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) pertencente ao grupo Moreira Salles associado a multinacional MOLYCORP, do grupo Rockefellerr, exporta 90% do nióbioo extraído. Isso é mais um exemplo deplorável da simbiose da burguesia nativa com os interesses das grandes corporações multinacionais que engordam o imperialismo. Com o deputado mineiro José Fernando Aparecido, a gente tem lutado na Câmara por um novo marco regulatório na questão mineral no Brasil. Dá mais de um trilhão de dólares o nióbio que você tem hoje na Amazônia. Isso com preço estipulado lá na Bolsa de Londres, abaixo do custo, sem levar em conta a importância que tem o nióbio hoje na indústria, principalmente na indústria de ponta. É mais um caso da história de 500 anos de espoliação internacional do Brasil.

    Renato Pompeu: A sua intervenção no Congresso teve repercussão na mídia?
    Brizola Neto: Olha na grande mídia a gente pode dizer que essa repercussão ela realmente não acontece, e ai a gente entende inclusive as pressões que deve haver dos grandes grupos multinacionais nesse sentido, talvez os grandes anunciantes e sustentadores da grande mídia. Só para dar um exemplo, nós fizemos uma convocação na Comissão de Minas e Energia, requerimento meu e do deputado José Fernando Aparecido, convocando,  para que se explicasse esse processo de privatizações da Companhia Vale do Rio Doce, o ex-presidente Fernando Henrique, o ministro das Minas e Energias na época do governo Fernando Henrique, o senhor Roger Agnelli, que comprou a Vale, para explicar por que a venderam pelo preço de seis meses do seu faturamento. E mais, o mais grave, a Constituição Federal diz que quem detém o solo não detém o subsolo, que o subsolo é patrimônio da União, e junto com a venda da Vale do Rio Doce entregaram as maiores minas brasileiras, as de Carajás, exploradas pelo senhor Roger Agnelli.
    Renato Pompeu: A CBMM tem interesse em que não sejam exploradas as reservas de nióbio de Roraima, que estão nas terras indígenas. Mas a direita militar divulga na Internet que a demarcação contínua das terras indígenas foi feita para possibilitar a exploração do nióbio de Roraima por empresas estrangeiras.
    Brizola Neto: Acho que uma questão não inviabiliza a outra. Nesse primeiro momento há essa pressão clara da CBMM para não desvalorizar a exploração do nióbio na mina que ela tem em Araxá, porque é uma exploração muito mais difícil do que a exploração que é possível hoje na Amazônia. Mas eu concordo plenamente que essa demarcação, além de atender o interesse imediato da CBMM, num futuro próximo, ela vai atender ao interesse internacional de que empresas estrangeiras se instalem ali para fazer a exploração do nióbio brasileiro.

    Wagner Nabuco: Mas lá no Congresso, como é que você sente a repercussão, quem está mais para a posição sua e do PDT, quem fica mais em cima do muro, quem combate mais? Como que é isso lá?
    Brizola Neto: Hoje, eu acho que é um pouco difícil você identificar dentro do Congresso, através de partidos políticos, quais são os grupos nacionalistas. Você tem hoje nacionalismo espalhado em vários partidos e, infelizmente, talvez seja a fração minoritária de cada um desses partidos com algumas exceções. Até mesmo no campo da esquerda você tem partidos que não compreendem a questão do nacionalismo, preferem estar afiliados a doutrinas externas.

    Wagner Nabuco: Qual a sua posição sobre essa questão que o neto do Jango tem levantando do fato de ele ter sido assassinado. E se o Jango depois, o único presidente que nós temos que morreu no exílio, se ele recebeu honras de Estado.
    Brizola Neto: Não, só houve esse processo agora.. Hoje não tenho dúvidas de afirmar que o presidente João Goulart foi assassinado por esse processo de cortes de cabeça das principais lideranças políticas de toda a América Latina pela pressão que surgiu, até dos próprios Estados Unidos a partir do presidente Jimmy Carter, que houvesse um processo de reabertura da América Latina. Houve um acordo com as ditaduras militares dos países da América Latina - Brasil, Chile, Argentina, Uruguai -, e nesse acordo ficou tratado que se cortariam cabeças, e eu tenho certeza que uma das cabeças cortadas foi a do presidente João Goulart. Olha, você tem outros exemplos, inclusive dentro do Brasil, são questionados, o próprio Juscelino, é questionado o assassinato do Letelier nos Estados Unidos, o colaborador do presidente Allende, e a morte de diversas lideranças do Movimento dos Montoneros na Argentina, dos Tupamaros no Uruguai. Digo que a própria cabeça de Leonel Brizola só não foi cortada porque ele foi avisado pelo governo do Uruguai que corria risco de vida e foi tomar asilo nos Estados Unidos, pedindo inclusive para o próprio presidente Jimmy Carter que concedesse esse asilo.
    Para ler as entrevistas completas e outras reportagens confira a edição de maio da revista Caros Amigos, já nas bancas, ou assine a versão digital da Caros Amigos.

    http://carosamigos.terra.com.br/index_site.php?pag=revista&id=125&iditens=160

    18 de março de 2009

    China preocupa-se com segurança dos empréstimos que fez aos EUA

     

    A Casa Branca asseverou oficialmente à China que “não existe aplicação mais segura no mundo” para as reservas de divisas do país asiático e pediu encarecidamente a Pequim que continue emprestando, em reação às preocupações manifestadas pelo primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, na semana passada, sobre a sorte de centenas de bilhões trocados por títulos do Tesouro dos EUA e papéis norte-americanos. “Para ser sincero, estou um pouco preocupado”, afirmou Jiabao, no último dia da sessão anual do pleno do parlamento chinês, na sexta-feira 13. “Já emprestamos muito dinheiro aos Estados Unidos”, acrescentou.

    Sem esse dinheiro, os EUA não teriam como financiar seu déficit, que este ano, em decorrência da crise e da falta de poupança interna, chegará a 12% do PIB. A otimista declaração de que “não existe aplicação mais segura no mundo” foi feita pelo porta-voz Robert Gibbs. Desde setembro, a China ultrapassou o Japão como o maior credor dos EUA.

    Nessa mesma entrevista, Jiabao havia reiterado que “é claro que estamos preocupados com a segurança de nossos ativos”. Afinal, somente em títulos do Tesouro e outros papéis o montante de dinheiro chinês emprestado aos EUA ultrapassa os US$ 727 bilhões. Diz-se até que o banco de hipotecas Freddie Mac só não faliu porque era “too chinese to fail” – “demasiado chinês para quebrar”. Também querendo tranqüilizar Pequim, o diretor do Conselho de economistas da Casa Branca, Lawrence Summers, garantiu que Washington “é um zeloso guardião” das reservas da China.

    Prevendo um déficit de 1,752 trilhão de dólares para o exercício fiscal 2008-2009 que finaliza em setembro, agravado por medidas excepcionais tomadas para sustentar a economia americana, o governo dos EUA dificilmente pode dispensar os empréstimos apor-tados pela China.

    14 de fevereiro de 2009

    Foto da crise é a vencedora

     

    PHILIP SMET

    13-02-2009

    Guerras, desastres naturais, pobreza e fome. Mas também as Olimpíadas e a campanha de Barack Obama. Nesta sexta-feira foram divulgados em Amsterdã os premiados do World Press Photo. O grande vencedor é o norte-americano Anthony Suau, com uma foto sobre a crise econômica.
    Um policial norte-americano entra com a pistola em punho numa casa toda desarrumada. Esta foto em preto e branco do fotógrafo Anthony Suau foi escolhida como a World Press Photo de 2008. A imagem faz parte de uma série que Suau fez sobre a crise na economia dos Estados Unidos. A foto - de março de 2008 - foi feita na cidade de Cleveland, Ohio. O policial tem que conferir se todos os moradores deixaram a casa. Eles foram despejados.


    Obrigação
    "Achamos que era nossa obrigação escolher uma imagem que não fosse apenas forte pela composição, mas que também tivesse forte significado para o ano de 2008", comenta a presidente do júri, MaryAnne Golon. "Os jurados ficaram impressionados com esta foto porque, à primeira vista, você pensa que é uma foto de guerra ou uma foto que tem a ver com tráfico de drogas, com criminalidade. Só num segundo momento você percebe que se trata de uma guerra econômica e que as vítimas são apenas culpadas por não poderem pagar suas contas."

    O World Press Photo tem dez categorias e profissionais de todo o mundo inscrevem seus trabalhos. No total, 64 fotógrafos de 27 países foram premiados.

    Pela primeira vez o público também pode escolher - via internet - suas imagens preferidas entre uma seleção dos premiados pelo site www.worldpressphoto.org

    http://www.parceria.nl/cultura/20090213-ct-worldpressphoto

    Cresce tensão social na Rússia

     

    GEERT GROOT KOERKAMP

    30-12-2008

    Ouça esta reportagem

    A polícia russa antimanifestações anda muito ocupada ultimamente. A maioria dos russos sabe o que a crise está fazendo com a vizinha Ucrânia. Quase todos os dias, os canais de televisão controlados pelo Estado trazem notícias sobre as calamidades e o caos político de lá; o desmoronamento da economia, o descontentamento da população e o aumento das reivindicações pela renúncia do presidente.

    Ação violenta
    Mas os mesmos telespectadores quase não recebem notícias sobre o que está acontecendo em seu próprio país. Embora não seja menos preocupante. Recentemente, houve uma ação violenta da polícia antimanifestações em Vladivostok, no extremo leste da Rússia. O alvo foi uma demonstração pacífica contra o aumento drástico dos impostos sobre carros importados. A medida entra em vigor em janeiro e tem como objetivo incentivar a indústria automobilística russa. Mas centenas de milhares de pessoas no extremo leste do país, que ganham a vida com a venda de carros japoneses de segunda mão, serão prejudicadas. Outros milhões de russos não poderão mais se permitir comprar carros importados.
    A polícia reagiu com violência contra os demonstrantes e também contra os jornalistas que tentavam filmar o protesto. Mais de sessenta pessoas foram presas de maneira brutal, entre elas algumas equipes de televisão. Um cameraman da televisão estatal japonesa viu sua câmera ser espatifada e um fotógrafo que passou mal teve auxílio médico negado. A ação da polícia teve um forte caráter intimidador.
    Renúncia de Putin
    Um detalhe significativo é que a unidade policial que atuou em Vladivostok vinha de Moscou. Os agentes foram enviados por avião a uma distância de seis mil quilômetros para lidar com um protesto de rua não-autorizado. O fato de que o espectador de televisão médio não tenha visto nada disso nos canais russos só fez aumentar a fúria em Vladivostok. Novos protestos estão sendo planejados. A novidade é que nestas demonstrações cada vez mais a palavra de ordem pede a renúncia do governo e do premier Vladimir Putin, um grito que até pouco tempo era emitido apenas por pequenos grupos de oposição.
    O envio de policiais de Moscou é um sinal indiscutível de que os líderes russos estão nervosos com relação à crescente tensão social, mesmo que isso nunca seja admitido publicamente. Por toda a Rússia há fábricas que estão há semanas, e em alguns casos meses, paradas. Trabalhadores são dispensados com férias não remuneradas ou não recebem seus salários. É muito provável que o início de 2009 traga uma nova onda de desemprego.
    Desemprego em massa
    As conseqüências da crise financeira são preocupantes principalmente nas chamadas "mono-cidades", onde a maioria da população trabalha em uma única fábrica ou em um ramo único da indústria. Se a produção em uma cidade assim fica estagnada, o desemprego pode chegar a 80%. Em Injevsk, nos Urais, as máquinas das fábricas estão paradas. Alguns milhares de pessoas foram para as ruas para demonstrar contra o fechamento e o aumento das tarifas de gás e energia elétrica. Na Sibéria, mineiros entraram por curto período em greve de fome, porque há meses não recebiam seus salários. Na província de Ivanovo, várias fábricas de tecidos fecharam as portas por tempo indeterminado e uma fábrica de alumínio em Nadvoitsy, na Carélia, fechou.

    Os números da produção nos últimos meses deixam poucas esperanças de melhora. Em alguns setores a produção industrial teve enorme diminuição percentual. Alguns economistas já falam em catástrofe.
    Desestabilização
    O Ministério do Interior, em Moscou, preocupa-se com o mal-estar da economia. Pouco antes do Natal, um subministro admitiu pela primeira vez que a crise pode ‘desestabilizar' o país. Se o ministério se prepara para ações mais rígidas ou se irá tentar empurrar a responsabilidade para outro, ainda não se sabe.

     

    Típicas são as palavras do presidente do parlamento Boris Gryslov, líder do partido do Kremlin, Rússia Unida, e ex-ministro do Interior. Após a repressão da demonstração em Vladivostok, Gryslov disse que "toda violação da lei deve ser punida: esta é a marca de um Estado forte". Um discurso que não foi bem recebido em sua cidade natal, Vladivostok.

    http://www.parceria.nl/atualidade/variospaises/20081230-vp-russia

    Demandas crescentes, fundos minguantes

     

    FRANCISCO REY MARCOS *

    29-01-2009

    Ouça esta reportagem

    Terminou esta semana em Madri a Reunião de Alto Nível sobre Segurança Alimentar para Todos, que pretendia dar continuidade ao Plano Global de Ação das Nações Unidas e traçar uma rota que permita garantir o cumprimento de todos os objetivos e compromissos assumidos na Conferência de Roma, em junho de 2008. Também esta semana, em Genebra, foi lançada a campanha de emergência do Unicef para 2009, que visa arrecadar um montante de mais de um bilhão de dólares.


    Os dois acontecimentos tiveram um tom muito diferente: um diplomático e conciliador e o outro levemente alarmista, mas em ambos não se pôde ocultar o cenário de preocupação pelos efeitos da crise financeira sobre as populações vulneráveis dos países empobrecidos e, também, pelas maiores dificuldades em conseguir fundos públicos e privados para cobrir suas necessidades. Sobretudo, uma das necessidades mais básicas: a alimentação. E o efeito que produz a não satisfação deste direito: a fome.

    Conscientização
    A Conferência de Roma foi um ponto chave na tomada de consciência da comunidade internacional sobre a crise dos preços dos alimentos. Perto da mítica cifra de um bilhão de pessoas que passam fome, a conferência pediu atenção para o problema, colocando a crise dos alimentos como um dos maiores desafios de nosso tempo.

    A reunião de Madri terminou com um balanço discreto e com a sensação de que o mais grave ainda está por acontecer. Mas destacou-se pontos importantes como o necessário apoio aos pequenos agricultores e a participação protagonista dos países afetados pela crise. Alguém disse com sabedoria: "A crise nos países desenvolvidos é um parêntesis; nos países em desenvolvimento é uma forma de vida."

    Retrocesso
    Em matéria de financiamento, poucas novidades, mas algumas interessantes. O ministro espanhol Moratinos, anfitrião da reunião, lançou a ideia da obrigatoriedade de 0,7% do PIB dos países ricos para ajudar ao desenvolvimento, mas até hoje, após cinquenta anos de descumprimento, e com a maior parte dos países doadores reduzindo seus fundos, essa proposta parece fadada ao fracasso. Poucos países mantiveram seus compromissos em matéria de financiamento do desenvolvimento nos últimos anos - a Espanha foi um que aumentou suas quantidades - e não parece que esta ideia possa ser aceita.

    Mas o mais preocupante em matéria de financiamento é o retrocesso dos fundos privados. Há alguns meses, quando se começou a conhecer as cifras de 2007, analisávamos a freada dos fundos oficiais de ajuda ao desenvolvimento (os que vêm de fundos públicos) e se constatava que, pela primeira vez nas últimas décadas, o componente dedicado a responder a emergências provocadas por desastres e conflitos havia reduzido.

    Agora, o que mais se comenta no setor humanitário é o retrocesso do financiamento privado, inclusive o decréscimo significativo de sócios, colaboradores e doadores das organizações. Parece que muitos cidadãos, ao ter que reduzir seus gastos, começam por coisas como dar baixa nestas organizações e diminuir seu compromisso com causas humanitárias.

    Campanha
    Consciente do aumento da crise que se vive na atualidade e de suas consequências humanitárias, o Unicef está solicitando este ano 17% a mais de fundos que em 2008 e põe em destaque em sua campanha os efeitos da mudança climática e as consequências dos desastres naturais.

    Mas tanto no Unicef como em outras grandes organizações solidárias, públicas ou não governamentais, já se sente os efeitos da crise e as previsões são preocupantes. Ainda mais quando muitos dos desastres que vive nosso mundo são crises esquecidas, com pouco impacto mediático, em que a resposta privada tende a ser mais errática. O que aconteceria com a resposta cidadã se acontecesse hoje um grande desastre internacional? Oxalá não aconteça.

    Neste cenário de preocupação, teve início a conferência de Davos, que todos os anos reúne os ricos do planeta. Mas não parece que estes aspectos da crise serão abordados, apesar do slogan deste ano do Fórum Econômico Mundial. O tema é Committed to improving the state of the world (Comprometidos a melhorar o estado do mundo). Bonito, mas não mais que isso.

    * Francisco Rey Marcos é Co-diretor do Instituto de Estudos sobre Conflitos e Ação Humanitária (IECAH)

    http://www.parceria.nl/atualidade/organizacao/20090129-qg-demanda

    Brasil e Índia criticam UE na OMC

     

    RNW

    05-02-2009

    Países em desenvolvimento acusaram a União Europeia esta semana de usar leis rígidas de proteção intelectual para apreender medicamentos genéricos, colocando vidas em risco em nações emergentes, para onde estes medicamentos mais baratos em geral são destinados.

    Num encontro na Organização Mundial do Comércio (OMC), Brasil e Índia criticaram a União Europeia por ter apreendido um remédio genérico para o tratamento de pressão alta que foi retido no final do ano passado pela alfândega holandesa, quando estava sendo transportado para o Brasil.

    Depois de 36 dias da apreensão, a carga foi enviada para a Índia, nunca tendo chegado ao Brasil.

    O embaixador do Brasil na OMC, Roberto Azevedo, disse ao cônsul geral da organização que o caso reflete uma tendência dos países industrializados de tentar interferir com as leis globais de comércio ao forçar padrões rígidos de proteção à propriedade intelectual em outras organizações, como a Organização Mundial de Aduanas e Organização Mundial da Saúde.

    O incidente toca em um dos pontos mais sensíveis entre países ricos e pobres - o acesso à medicamentos de baixo custo.

    O vice-ministro holandês da Economia, Frank Heemskerk, diz que a aduana holandesa agiu de acordo com as regras européias.

    11 de novembro de 2008

    US$ 553,5 bilhões atam o Brasil à ciranda mundial

    A REORDENAÇÃO PÓS-CRISE

     

    O Brasil atrelou seu destino à lógica dos mercados financeiros desregulados a partir dos anos 90. A prerrogativa da intervenção pública - sobretudo no setor financeiro - ficou subordinada a regras que protegem grupos de interesses locais e internacionais; os mesmos que ameaçam pôr em movimento uma montanha desordenada de capitais voláteis, cuja força é suficiente para reverter a retomada do desenvolvimento.

    Redação - Carta Maior

    Data: 10/11/2008

    Moeda é poder. O consenso aparente em torno da regulação dos mercados nesse momento esconde a dimensão política da crise. Existe hegemonia embutida em uma nota de dólar; explorados e exploradores na definição da taxa de juro. Está em jogo a reordenação da hierarquia entre moedas abalada pelo colapso da ordem neoliberal. A prática não ecoa o consenso reformista dos discursos oficiais. Foi assim também em 1929.
    Uma Guerra mundial levou para os campos de batalha a arbitragem de impasses que paralisavam as nações, corroíam regimes monetários e minavam a produção e circulação da riqueza. A nova correlação de forças sancionada pelo argumento bélico foi legitimada em Bretton Woods, em 1944, quando a velha liderança britânica cedeu lugar à supremacia dos EUA, dos seus bancos, da sua indústria e da sua moeda em todo o planeta.
    A disputa em marcha no mundo encontra urgências e impasses equivalentes na vida interna das nações. O Brasil não é exceção: US$ 553,5 bilhões de dólares atam o país à ciranda mundial.
    Decisões tomadas desde os anos 90, destinadas a atrair, incentivar e garantir a mobilidade do capital estrangeiro na economia nacional restringiram a autonomia da política econômica e podem enfraquecer o Brasil nas respostas para enfrentar a crise. A prerrogativa da intervenção pública - sobretudo no mercado financeiro - ficou subordinada a regras que fortalecem e protegem grupos de interesses locais e internacionais; os mesmos que agora ameaçam por em movimento uma montanha desordenada de capitais voláteis, cuja força é suficiente para reverter a retomada do desenvolvimento.
    Hoje esses recursos equivalem a US$ 553,5 bilhões. Um poder de pressão quase três vezes (2,7 vezes) superior à margem de autonomia proporcionada pelas reservas cambiais acumuladas desde 2003 (US$ 200 bilhões). Assimetrias dessa ordem ajudam a entender um paradoxo da crise: a exemplo do Brasil, inúmeras nações da periferia do capitalismo clamam por reformas na arquitetura financeira mundial, mas hesitam em aplicá-las internamente.
    Para entender como essa dependência se cristalizou e a dificuldade para reverter algo que aprisiona a economia numa espécie de “caos calmo”, Carta Maior ouviu vários economistas entre os quais a professora Daniela Magalhães Prates, da Unicamp. Especialista em economia internacional, Daniela publicou recentemente um artigo oportuno em parceria com Marcos Antonio Macedo Cintra, também da Unicamp: “Keynes e a hierarquia de moedas: possíveis lições para o Brasil” , texto incluído na coletânea “Economia do Desenvolvimento , teoria e políticas keynesianas”, organizada por João Sicsú e Carlos Vidoto.
    I) Recursos voláteis equivalem a quase três vezes o total das reservas brasileiras
    Dois pontos reafirmam a pertinência desse debate no momento. O primeiro é a gravidade e a dimensão do que está em jogo. Dada a inexistência de controles de capitais, o montante de dólares que entrou e poderá sair do país a qualquer momento impressiona pelo poder desestabilizador. “Estamos falando”, explica a economista Daniela Prates, "de US$ 553,5 bilhões que formam o Passivo Externo Líquido (PEL) do país”. Trata-se do saldo entre o estoque dos investimentos externos (financeiros e produtivos) existentes na economia; mais o valor da dívida externa; menos investimentos de brasileiros no exterior e reservas cambiais. Daí a denominação passivo “líquido” – uma medida de dependência mais exata que o conceito de dívida externa já que inclui toda ordem de remessas possíveis, desde juros, royalties, lucros a fugas potenciais do dinheiro de curto prazo.
    Há uma outra forma de medir esse flanco, segundo a professora Daniela Prates . O saldo, neste caso, contabiliza o montante bruto de passivos de curto prazo, sem descontar as reservas. Hoje isso daria pouco mais de US$ 531 bilhões: 2,7 vezes o total das reservas. São recursos sujeitos a fugas e resgates abruptos, facilitados pelas decisões tomadas a partir dos anos 90 e agora postas em xeque. “Não existe estabilidade econômica numa situação como essa. Para ter segurança em regime de mobilidade de capitais só mesmo com reservas chinesas (US$ 1,5 trilhão)”, alfineta.
    II) Armínio Fraga soldou o país ao cassino financeiro; sucessores mantiveram laços
    O Brasil, a exemplo da maioria dos países da periferia do capitalismo, atrelou seu destino à lógica dos mercados financeiros desregulados a partir dos anos 90. O governo Collor já havia ensaiado alguns passos nessa direção, mas o ponto central da solda entre o mercado interno e a finança volátil foi consumado pelo então presidente do Banco Central no governo FHC, Armínio Fraga. Ex-funcionário do mega-especulador George Soros, Armínio trouxe para o BC um reconhecido traquejo no jogo pesado das finanças desreguladas. Foi essa experiência e o endosso do governo PSDB/PFL às teses do Estado mínimo que orientaram a decisão política de liberar o entra-e-sai de capitais de curto prazo no país em janeiro de 2000.
    A Resolução 2.689 autorizou a aquisição de ações e títulos pelo capital estrangeiro, bem como liberou-o para captar, interligar e especular em mercados de derivativos. Hoje, o ex-presidente do BC beneficia-se dessa medida à frente do Gávea, um “fundo agressivo” aberto a investidores da elite do dinheiro fugaz. Gente selecionada pela carteira e apetite para correr risco altos em troca de retornos sempre acima da média mundial.
    Os sucessores de Armínio Fraga, é forçoso dizer, ampliaram em vez de cortar os laços com a ciranda global. Restrições à aquisição e remessas de dólares foram eliminadas em março de 2005 pelo então ministro Antonio Palocci. Em julho de 2006, concedeu-se isenção fiscal na aquisição de títulos públicos por fundos estrangeiros.
    “Boa parte da vulnerabilidade brasileira nesta crise decorre das implicações de medidas que facilitaram a mobilidade de capitais na economia”, confirma a economista da Unicamp.
    III) Um jogo que dá direito à fatias crescentes da riqueza sem contribuir para gerá-la
    Investidores estrangeiros e nacionais dispõem hoje de um variado cardápio de facilidades e “inovações” que garantem salvo-conduto na porta-giratória de um mercado amplamente integrado ao jogo da finança global. Um fundo como o Gems Investimentos de origem israelense, com sede em Londres, que capta recursos no Brasil e centraliza sua contabilidade no paraíso fiscal de Luxemburgo é um exemplo de como as coisas funcionam.
    O Gems, como outros, explora uma novidade introduzida no país há dois anos muito apreciada antes crise. O “produto” de ponta da “indústria” de fundos permite captar recursos em reais; aplicar em ativos estrangeiros no exterior (ações, commodities, cotas de outros fundos, sub-primes etc); não deixa marcas de remessas na contabilidade do aplicador; não exige abertura de conta lá fora, nem incorre em ônus fiscal no estrangeiro. Tudo isso legalmente.
    Gestores mais criativos seduzem clientes insaciáveis com promessas de metas “alfa". Trata-se de dobrar rendimentos numa sucessão fulminante de apostas globais feitas num curto espaço de tempo e à descoberto (em bom português: apostando o que não se têm). Esse são alguns indícios de que a regulação em pauta requer algo mais do que apelos sensatos à prudência e à temperança na gestão financeira. O que está em jogo é desmontar uma usina de lucros meteóricos que assegura a seus participantes o direito a fatias cada vez generosas da riqueza real, sem contribuir um centavo para que ela cresça em proporções equivalentes. É uma rota de colisão: de um lado, a voragem estrutural do capital fictício; de outro, o risco de colapso da sociedade que já não consegue mais saciá-lo sem se auto-destruir.
    IV) Desregulação internaliza instabilidades e, ao mesmo tempo, engessa o Estado
    Graças à livre circulação de capitais fundos hedge – assim como bancos e empresas - podem apostar livremente contra e à favor da moeda brasileira na bolsa local de mercadoria. Idealmente, o equilíbrio de contratos entre comprados e vendidos (respectivamente, apostas na alta e na baixa da moeda norte-americana, por exemplo) criaria um espaço de liquidez para proteger operações indexadas ao câmbio, caso do comércio exterior e empréstimos em moeda estrangeira. O colapso atual evidenciou que essa finalidade foi desvirtuada em todo o mundo e aqui também. Operações especulativas muito superiores às necessidades de hedge (proteção) seduziram exportadores e bancos que apostaram maciçamente na direção errada ao prever a queda do dólar no mercado brasileiro.
    Estima-se que o mico referente a distintas modalidades de contratos de risco e opções “vendidas” em dólar possa alcançar entre US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões. Os casos da Sadia e da Aracruz ilustram o tamanho do prejuízo que poderá esfarelar balanços, a depender da evolução cambial: a primeira teria assumido posições de risco no valor de US$ 7,6 bilhões; a segunda, de US$ 8,5 bilhões.
    V) O especulador entra sem trazer capitais, aluga fiança, aposta alto e altera o câmbio
    Uma particularidade das operações com derivativos cambiais na bolsa brasileira é que os contratos são zerados em moeda nacional. Em tese, isso evitaria uma corrida ao mercado físico do dólar; vantagem anulada, todavia, pela mobilidade de capitais que potencializa a instabilidade inerente às apostas em derivativos. “O especulador estrangeiro não precisa internalizar recursos para fazer apostas na bolsa brasileira”, explica a economista Daniela Prates. “Ele pode fixar posições altamente alavancadas ( muito superiores aos recursos próprios) dispondo apenas de uma carta de fiança fornecida por banco local; ou mediante o aluguel de títulos depositados como margem de garantia na bolsa”, esclarece a professora da Unicamp.
    Decorrem daí inúmeras distorções que convergem para gerar forte instabilidade na formação da taxa de câmbio, um dos preços decisivos do cálculo econômico. “O governo acumula reservas com base em fluxos físicos de capitais e mercadorias”, esclarece Daniela. “Porém, como dispensam ingresso efetivo de moeda, as operações com derivativos não deixam uma contrapartida equivalente no balanço de pagamento, nem nas reservas. Cria-se assim uma dissociação perigosa. Mudanças abruptas na direção e nos volumes das apostas, associadas a fugas de investidores, emitem um sinal forte que contamina a definição da taxa de câmbio no mercado físico. Como as reservas são inferiores ao deslocamento potencial em jogo, isso gera incertezas que se propagam por toda a economia”, ensina.
    VI) Idéias de Keynes em Bretton Woods ainda enfrentam resistências, 64 anos depois
    As conseqüências e constrangimentos que a mobilidade de capitais impõe às políticas de desenvolvimento foram exaustivamente estudadas por John Maynard Keynes nos anos 40. Em 1944, como representante inglês em Bretton Woods, ele propôs uma nova arquitetura financeira mundial .A criação de uma moeda global contábil (obancor) e um banco central dos bancos centrais (clearing union), constituíam mecanismos de coordenação indispensáveis, no seu entender, para harmonizar assimetrias entre economias ricas e pobres e garantir um ciclo estável de prosperidade no pós-Guerra. Impor uma disciplina espartana à mobilidade dos capitais era uma espécie de lei de bronze dessa arquitetura. As propostas de Keynes, como se sabe, foram rejeitadas pela delegação norte-americana que enxergou aí a tentativa inglesa de restringir a liderança mercantil e financeira conquistada pelos EUA durante a Guerra, que dava ao dólar o papel de moeda de reserva universal.
    Dizer que os acontecimentos de hoje são uma conseqüência da derrota de Keynes em Bretton Woods é uma parte da verdade. Na realidade, Keynes conseguiu inserir nos estatutos de fundação do FMI - proposta vitoriosa norte-americana - o direito de as nações acionarem controles de capitais em condições críticas. Embora persista formalmente nos estatutos do Fundo, o tempero keynesiano foi sepultado na prática pelo avanço da desregulação nos anos 90. Algo semelhante se deu no Brasil, na medida em que a lei do capital estrangeiro de 1961 (nº 4.131) nunca foi revogada; mas acabou reduzida a um zumbi jurídico por conta das decisões tomadas nos últimos dez anos.
    Sessenta e quatro anos depois, os temas e as propostas levantados por Keynes voltam à agenda obrigatória dos chefes de Estado, inclusive do Brasil. O mundo do crash de 2008 é mais complexo; o jogo de forças inclui potências que redimensionaram a geopolítica dopós-guerra; a China e os blocos econômicos ameaçam a hegemonia norte-americana. Ainda assim será difícil vencer a resistência dos EUA em aceitar uma nova hierarquia monetária que reduza seu poder expresso em dólares.
    VII) Um dos custos para atrair e manter capitais voláteis é pagar juros paralisantes
    A espada de incertezas erguida sobre as políticas econômicas tende a promover uma acomodação baseada em taxas de juros impiedosamente hostis ao desenvolvimento. Em vez de controlar e selecionar investimentos que interessam, recorre-se a uma espécie de taxa- tampão, alta o suficiente para tornar sedentário um capital que por natureza é errático e especulativo. Num momento em que os BCs de todo o mundo reduzem o custo do dinheiro para refrear a espiral recessiva, o Brasil mantém a Selic em 13,75%. E ainda ameaça elevá-la novamente.
    VIII) Crise desmente a tese de que livres mercados asseguram liquidez just-in-time
    Juros altos radicalizam assimetrias macroeconômicas em torno de objetivos naturalmente díspares mas desejáveis, ironicamente sintetizados na tríade impossível perseguida por todas as escolas econômicas. A saber: simultaneamente sustentar o crescimento, estabilizar o câmbio e controlar a inflação. “Mais que uma defasagem específica entre reservas e passivo externo, a crise põe em xeque a tese de que a liquidez mundial tornaria desnecessário adotar o controle de capitais para estabilizar o crescimento”, explica professora Daniela Prates. Segundo a ortodoxia dos anos 90, a liquidez inerente à desregulação faria do mercado mundial um provedor just-in-time, harmonizando necessidades distintas entre contas correntes, déficits e superávits comerciais.
    Sob certas circunstâncias, a panacéia entregou o que prometeu. Mas ao reverter o ciclo de liquidez para uma fuga planetária rumo ao dólar, verificou-se o quanto são frágeis as certezas ideológicas que menosprezam circunstâncias e contradições históricas. No Brasil, a exemplo do que ocorre em muitos países, o caos calmo expresso no passivo externo líquido pode transformar-se em tempestade tropical. “Reverter esse quadro em plena crise, naturalmente, é muito complicado”, admite Daniela Prates. Ainda que alguns avanços ocorram nas cúpulas internacionais, nenhum país escapará, porém, da necessidade de adaptar a agenda da regulação ao seu idioma e circunstância. Desde já o Brasil precisa decidir em que medida vai manter seu destino amarrado a um trem sem trilhos que justamente por isso mostrou-se capaz de descarrilhar o mundo.

    28 de outubro de 2008

    "É PRECISO SALVAR A ECONOMIA REAL"

     

    Número global de desempregados pode passar de 200 milhões

    A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma primeira estimativa do impacto da crise sobre a vida cotidiana das pessoas em todos os níveis da sociedade. O número global de desempregados poderá aumentar em 20 milhões, daqui ao fim de 2009 – ultrapassando o número de 200 milhões de desempregados no mundo pela primeira vez na História.

    Juan Somavia*

    Data: 28/10/2008

    A atual crise atingiu duramente o setor financeiro. Quais as conseqüências para as pessoas e para a economia real? Desconhecemos a gravidade desta crise e sua duração. Mas sabemos que se não agirmos de maneira decisiva as conseqüências para milhões de pessoas e suas condições de vida e de trabalho serão profundas.
    Diante da urgência, as propostas se destinarm a uma melhor regulação financeira e a um mecanismo de segurança global mais eficaz. Mas devemos nos projetar para além dos mercados financeiros. A crise não se sentiu apenas em Wall Street, mas nas ruas do mundo inteiro.
    O mundo necessita de um plano de resgate econômico para todos aqueles e aquelas que trabalham, investem e asseguram o funcionamento da economia real. Com regras e políticas favoráveis ao trabalho decente e às empresas produtivas. Com o restabelecimento do liame entre produtividade e salários, entre crescimento e desenvolvimento. As pessoas devem reencontrar confiança numa economia que também funciona para elas. Essa mensagem é urgente.
    A Organização Internacional do Trabalho (OIT) fez uma primeira estimativa do impacto da crise sobre a vida cotidiana das pessoas em todos os níveis da sociedade. O número global de desempregados poderá aumentar em 20 milhões, daqui ao fim de 2009 – ultrapassando o número de 200 milhões de desempegados no mundo pela primeira vez na História. As pessoas que trabalham na construção, na indústria automobilística, no turismo, na finança, nos serviços e no setor imobiliário serão as primeiras atingidas.
    Além disso, o número de pessoas trabalhando e vivendo com menos de um dólar por dia poderá aumentar em 40 milhões e o de pessoas vivendo com 2 dólares por dia em 100 milhões. Por mais sombrias que sejam essas previsões, é temeroso pensar que se trata apenas de uma subestimação, caso os efeitos do desaquecimento econômico e da recessão que se aventam não forem rapidamente controlados.
    Devemos concentrar nossa ação sobre as pessoas, as empresas, a economia real. Quatro eixos devem ser observados. O primeiro, restaurar a circulação do crédito. As medidas de urgência já foram tomadas ou estão sendo preparadas. Segundo, dar sustentação aos mais vulneráveis. Uma série de medidas estão ao alcance das mãos, da proteção às aposentadorias ao seguro desemprego, passando pela ajuda às PME (Pequenas e Médias Empresas), que persevera sendo o primeiro nicho de emprego. Terceiro, políticas públicas eficazes e uma regulação inteligente, que recompense o trabalho e a empresa. Nós estamos sofrendo os espamos de um sistema financeiro que perdeu o rumo no plano ético.
    Devemos retomar a função primeira e legítima da finança, que é promover a economia real, emprestar aos empreendedores que investem, inovam, criam empregos, produzem. Retomemos o papel primeiro dos mercados financeiros: lubrificar a engrenagem da economia real.
    Enfim, e isso é crucial, devemos relevar os desafios fundamentais subjacentes. Muito antes da crise financeira atual, nós já estávamos em crise. Uma crise marcada por uma pobreza maciça em escala mundial, de desigualdades sociais crescentes, de uma informalidade e de um trabalho precário em pleno avanço. Uma crise da globalização que trouxe benefícios consideráveis, mas que, para muitos, é desequilibrada, injusta e não-durável.
    É urgente reencontrar um equilíbrio. Este passa pela sustentação das pessoas e da produção. É preciso salvar a economia real. Lembremo-nos de que as pessoas julgam sua vida e seu amanhã em função do seu percurso no trabalho. Mais do que nunca, devemos lutar para que as políticas públicas e os serviços sociais necessários estejam à altura da principal preocupação das pessoas: uma oportunidade justa de ter um trabalho decente.
    Para manter abertas as economias e as sociedades, as organizações internacionais responsáveis devem se reunir em torno de um quadro multilateral para uma mundialização justa e duradoura. As negociações comerciais estão em pane; os mercados financeiros vacilam e estão à beira do colapso; a mudança climática está ocorrendo; toda refundação deverá encontrar um método para integrar as políticas financeira e econômica, social e ambiental no âmbito global. A crise das subprimes não será resolvida com políticas tímidas. O tempo é de audácia, de pensamento e ação inovadores, para responder aos imensos desafios que estão postos diante de nós.
    * Juan Somavia é diretor geral da OIT (artigo publicado originalmente no jornal Le Monde, em 27 de outubro de 2008)
    Tradução: Katarina Peixoto

    25 de outubro de 2008

    A relação entre as finanças e a economia da produção e do consumo

     

    Matéria da Editoria:
    Economia
    25/10/2008

    PAUL SINGER

     

    Para superar a crise financeira e impedir que ela lance a economia real em recessão, é essencial que o crédito seja restaurado, o que possivelmente exigirá uma intervenção efetiva do poder público nos bancos. Se os governos não fizerem isso, é provável que o dinheiro público injetado nos bancos seja entesourado, porque é o que todos os agentes privados fazem enquanto o pânico perdura.

    Paul Singer

    Data: 23/10/2008

    O mistério do interrelacionamento entre as finanças e a economia da produção e do consumo
    É nos momentos de crise financeira que a opinião pública se volta a este tema: como se interrelacionam o mundo financeiro com suas vicissitudes especulativas e o mundo da produção e consumo de valores de uso. São dois mundos distintos: no primeiro circulam valores monetários denominados genericamente de ativos porque são créditos, a cada um dos quais corresponde um débito (ou passivo); no segundo circulam bens e serviços que satisfazem necessidades de seres humanos, que por isso se dispõem a pagar para adquiri-los. Estes bens e serviços são mercadorias – produtos do trabalho humano destinados à venda, à troca por dinheiro - e neste sentido também são valores monetários. A diferença entre ativos e mercadorias é que os primeiros são valores virtuais, isto é, não satisfazem qualquer necessidade diretamente, ao passo que os últimos são valores reais, prontos para serem utilizados ou consumidos.
    As finanças prestam serviços à economia real: recebem em depósito a poupança de famílias e empresas (sem falar dos governos) e lhes oferecem empréstimos. Serviços financeiros são basicamente de intermediação entre famílias e empresas que têm poupanças e outras que necessitam de dinheiro. As finanças recolhem o dinheiro sobrante das primeiras e o emprestam às últimas. Mas, sua atividade principal é emprestar a governos e empresas para que possam fazer investimentos. Embora as compras a prazo dos consumidores sejam importantes – sobretudo o crédito hipotecário - a maior parte dos ativos se destina a financiar investimentos do poder público e das empresas capitalistas, sobretudo de grande porte.
    Além disso, boa parte da poupança captada pelas finanças são delas mesmas. A atividade financeira expandiu-se acentuadamente nos últimos decênios de globalização e neo-liberalismo, usufruindo de lucros extraordinários, parte dos quais alimentam as remunerações milionárias dos altos executivos financeiros. Uma parte crescente do capital total da economia capitalista globalizada gira no mundo financeiro e nas fases de alta dos ciclos de conjuntura usufrui de inegável hipertrofia.
    São muitas as modalidades de empréstimos praticados pelas finanças: depósitos bancários, títulos negociados em Bolsas de Valores, emissões de títulos por governos, grandes empresas, companhias de seguros (apólices), emissão de cartões de crédito e de débito e assim por diante. O que efetivamente importa é que os intermediários podem emprestar mais dinheiro do que captaram do público ou de outros intermediários. Eles podem fazer isso porque gozam de crédito por parte do público que aceita em pagamento os ativos avalizados por bancos. É assim que funcionam os cheques e os cartões eletrônicos: são ordens de pagamento que o cliente do banco emite para que determinadas dívidas, que ele faz junto a lojas, restaurantes etc., sejam pagas pelo seu banco. A grande maioria das transações dos agentes da economia real é liquidada por meio de instrumentos chamados meios de pagamento emitidos por bancos. Só transações de pouco valor são liquidadas por meio da moeda oficial emitida pela Autoridade Monetária, que pode ser o Banco Central ou o Tesouro do governo nacional.
    Os bancos ganham dinheiro fazendo empréstimos, pelos quais cobram juros. Os serviços que prestam aos depositantes só lhes dão despesas. Os bancos precisam dos depósitos porque eles constituem o lastro dos empréstimos que fazem. O Banco Central exige que os bancos comerciais mantenham um encaixe mínimo que serve para cobrir os saques dos depositantes. Os prestatários (que recebem os empréstimos) sacam rapidamente os valores acrescentados aos seus saldos para pagar os fornecedores de equipamentos, instalações, matérias primas etc. que são os elementos materiais de seus investimentos. Os fornecedores, por sua vez, depositam imediatamente o dinheiro recebido em seus bancos, quando o dinheiro não é transferido diretamente para suas contas. O que significa que o dinheiro utilizado pelos agentes da economia real para liquidar transações entre eles circula incessantemente entre os bancos, ou seja, no âmbito financeiro.
    Quando todos os bancos, no afã de ganhar mais, ampliam os empréstimos a agentes da economia real, os depósitos de todos eles aumentam. O efeito importante é sobre a economia real, que se expande na medida em que os investimentos crescem, o que ocasiona a ampliação do emprego, da produção e do consumo. A expansão da economia real se auto-alimenta na medida em que desempregados conseguem trabalho, os gastos do público aumentam, o que suscita mais investimentos, mais emprego e mais produção.
    O ciclo de conjuntura
    A fase de alta do ciclo se origina mais frequentemente na economia real do que no âmbito financeiro. Ela é desencadeada geralmente por inovações tecnológicas de grande impacto sobre a produção e/ou consumo ou por mudanças institucionais, como a instauração de sistemas de previdência social, de assistência à saúde ou de transferência de rendimentos à população mais pobre. A realização de inovações tecnológicas exige investimentos vultosos, o que eleva as demandas de financiamento por parte das empresas. O mesmo se dá quando iniciativas governamentais de redistribuição de renda elevam os gastos de consumo de amplos setores da sociedade, o que também requer investimentos para ampliação da capacidade de produção dos bens e serviços consumidos por aqueles setores.
    O crescimento da demanda por empréstimos normalmente evoca resposta favorável das finanças, que farejam oportunidades para bons negócios. É conhecida a tendência dos intermediários financeiros de agir como rebanhos: quando a alta cíclica da economia real acontece, todos os banqueiros se entusiasmam, convictos de que os riscos de que os empréstimos deixem de ser pagos tornaram-se insignificantes. Na medida em que as expectativas otimistas se revelam verdadeiras – os financiamentos são pagos pontualmente – o entusiasmo cresce até se tornar euforia. Microempresas, incapazes de oferecer garantias reais normalmente exigidas, acabam por receber empréstimos em função do seu potencial, representado algumas vezes por não muito mais do que uma boa idéia.
    A euforia é contagiante. Ela pode ter começado na economia real e contaminado as finanças ou vice-versa. Seja como for, enquanto o potencial das inovações tecnológicas ou das mudanças institucionais não estiver esgotado, a fase de alta do ciclo se eleva cada vez mais, graças à interação simbiótica das finanças com a economia real. Até que ela bate num teto. Este pode ter por causa o esgotamento da capacidade de expansão da oferta de mercadorias, por falta de mão-de-obra ou de oferta de energia ou de capacidade de transporte e armazenagem ou de tudo isso em conjunto.
    Outra origem do teto para a alta pode ser o esgotamento da necessidade das mercadorias cuja produção está em perene aceleração. Este foi o caso da bolha imobiliária, que está na origem da atual crise financeira. A demanda por habitação costuma ser grande, mas certamente não é infinita. A alta da atividade de construção tem elevado poder de irradiação por toda economia, na medida em que ela implica em procura crescente por material de construção, equipamentos e mão-de-obra, além de mobília, eletrodomésticos, objetos de decoração etc., etc.. Como a construção de casas e prédios é relativamente prolongada, quando o esgotamento da demanda se torna manifesto, a quantidade de construções em andamento está no auge. Interrompê-las pode ser extremamente custoso, mas levá-las a cabo implica em mais investimentos numa mercadoria que provavelmente se tornará invendável, a não ser por um preço muito abaixo do custo.
    O estouro duma bolha imobiliária atinge em cheio as finanças porque imóveis são objetos privilegiados para a especulação, particularmente porque os investimentos parecem protegidos por elevada garantia material, qual seja, os próprios imóveis. Uma parte da intermediação financeira se especializa no financiamento hipotecário e quando a bolha atinge seu apogeu este setor atrai enorme quantidade de dinheiro, parte do qual é investida na especulação fundiária. Quando finalmente a oferta de residências ultrapassa a demanda solvável, o preço tanto dos terrenos como das construções despenca, acarretando grandes prejuízos não só aos investidores, mas também às instituições que os financiam. No caso da atual crise financeira, a peculiaridade é que, durante a alta, instituições financeiras fizeram empréstimos à população de baixa renda, que implicam riscos maiores do que os normais. Por isso os títulos de crédito destas operações recebem a classificação de subprime, o que significa algo como “abaixo dos melhores”.
    Para poder vender estes títulos ao público sem deságio, as instituições os empacotaram com outros títulos de risco considerado menor, numa manobra conhecida como de diluição de riscos. A operação aparentemente foi um sucesso: títulos no valor de muitos bilhões de dólares foram incorporados às carteiras de ativos de numerosos bancos de investimento, não só dos Estados Unidos, mas também da Europa. Quando o ciclo imobiliário entrou em baixa, o preço das residências e o aluguel das mesmas sofreram forte queda, tornando desproporcionalmente onerosa a dívida assumida por milhões de famílias pobres. Em outras palavras, o prejuízo causado pelo estouro da bolha foi colocado sobre os ombros de quem menos podia suportá-lo. Os devedores deixaram de honrar suas dívidas, arriscando-se a perder suas casas e apartamentos, cada vez mais desvalorizados. Desta maneira o prejuízo bilionário da crise imobiliária voltou ao colo dos especuladores financeiros, que se mostraram igualmente incapazes de suportá-lo. Um grande banco estadunidense faliu e diversos outros foram provisoriamente estatizados, tanto na América do Norte como na Europa.
    Crises que se originam no âmbito financeiro
    Há crises que se originam no próprio setor financeiro, sem envolver inicialmente a economia real. Uma crise deste tipo ocorreu em 2000, nos Estados Unidos, por ocasião da grande euforia ocasionada pela criação da Internet e a conseqüente revelação de suas inegáveis potencialidades. A criação de empresas de informática muito lucrativas e capazes de expansão fulminante provocou uma corrida nas Bolsas de Valores por ações de firmas em setores de alta tecnologia. As ações passaram a se valorizar cada vez mais, proporcionando ganhos milionários aos especuladores institucionais – fundos de investimento, fundos de pensão, companhias de seguro etc. – e também a um crescente número de pessoas físicas, que passaram a arriscar suas economias neste jogo.
    O Federal Reserve – o banco central dos Estados Unidos – resolveu intervir para deter a bolha, certamente para limitar as perdas quando seu inevitável estouro tivesse lugar. Para tanto, o Federal Reserve começou a elevar paulatinamente a taxa oficial de juros, encarecendo deliberadamente o crédito em geral. Esta ação levou meses, até que a taxa de juros para investimento praticamente ‘sem risco’ chegasse a um patamar que levasse investidores a preferir aplicações a juros em lugar de comprar ações, cujo rendimento depende da lucratividade da firma que as emite. A partir deste momento o volume de recursos aplicados em ações começou a diminuir, o que fez com que os seus preços passassem a crescer cada vez menos. Subitamente, o humor dos especuladores mudou inteiramente e um número cada vez maior deles começou a vender suas ações, tendo em vista aplicar o dinheiro em outros ativos. O que causou uma débâcle nas Bolsas, não só dos EUA, mas também do resto do mundo, com queda vertical das cotações.
    Os prejuízos dos intermediários financeiros foram enormes, com a perda de trilhões de dólares no valor das empresas. Ficou evidente que as cotações haviam atingido níveis muito maiores do que a lucratividade destas empresas justificaria. O Federal Reserve imediatamente inverteu sua política, passando a reduzir também paulatinamente a taxa de juros, para tentar evitar que a crise das bolsas afetasse a economia real. Mas, apesar da notável agilidade do Federal Reserve, a economia real estadunidense entrou em recessão. O débâcle dos mercados de ações ocasionou fortes perdas aos fundos, cujos investidores passaram a conter seus gastos, o mesmo acontecendo com os milhões de particulares que arriscaram suas economias no jogo especulativo. E o crédito mais restrito e caro também impediu que muitos investimentos planejados fossem executados.
    A queda na demanda dos consumidores e na realização de investimentos causou uma queda na atividade econômica, que foi enfrentada pela Autoridade Monetária mediante injeções de dinheiro, que ajudaram a financiar o setor imobiliário. A recessão de 2000/2001, agravada pelo ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque, foi superada pela persistente alta dos preços dos imóveis e a expansão da atividade construtiva, que constitui o pano de fundo da crise financeira começada em 2007 e que atualmente (2008) começa a afetar a economia real estadunidense e européia.
    O inter-relacionamento entre as finanças e a economia real
    Historicamente, as finanças modernas surgiram desde o século XIV, na Europa Ocidental para financiar os governos monárquicos, principalmente suas guerras e suas alianças matrimoniais. Em muitos países, os primeiros bancos eram oficiais, possuídos por autoridades nacionais ou locais. No Brasil, nosso primeiro banco foi criado por D.João VI no início do século XIX e permaneceu sob controle do governo imperial até a Proclamação da República, sendo a criação de bancos privados mal tolerada pelo poder público.
    A conhecida propensão das finanças entrarem em crise, como vimos acima, provoca praticamente sempre uma forte intervenção estatal no setor, tendo em vista preservar a normalidade dos negócios financeiros e muitas vezes com o propósito explícito de proteger a economia real das emanações destrutivas da crise financeira. Em diversos países, todos os intermediários financeiros chegaram a ser estatizados e ficaram nesta condição por anos, até que algum governo resolveu reprivatizá-los..
    Sem considerar o papel do Estado é impossível compreender o inter-relacionamento entre as finanças e a economia real. Atualmente, as finanças de cada país são constituídas majoritariamente por entidades privadas, mas sob controle e fiscalização do Banco Central. As finanças são quase sempre dominadas por um número reduzido de grandes entidades, que constituem complexos financeiros com atuação em quase todas modalidades financeiras, desde os bancos de varejo e os bancos de investimento atacadistas (que lidam apenas com grandes inversores) até as companhias de seguro, os fundos de investimentos, as companhias de cartões eletrônicos etc..
    Com o advento da globalização financeira, produto da abertura total da circulação dos capitais sobre as fronteiras nacionais de numerosos países, o poder do Estado nacional sobre as finanças foi consideravelmente erodido, porque se algum governo nacional vier a tomar medidas que contrariem os interesses das firmas financeiras privadas, ele se defrontaria imediatamente com forte fuga de capitais para paraísos fiscais, que lhes garantem liberdade total de ação a custo muito baixo. Para que os governos nacionais possam recuperar o controle sobre o capital financeiro, a primeira medida teria que ser o restabelecimento do controle sobre a movimentação internacional dos capitais privados.
    A economia real também é dominada por um punhado de transnacionais de grande porte. Para não ter de se submeter aos complexos financeiros, estas firmas criaram seus próprios braços financeiros, semelhantes aos complexos financeiros independentes. As estruturas das finanças e da economia real se assemelham, sobretudo em seus aspectos oligopólicos e transnacionais. Mas, a economia real é muito mais diversificada e é composta por um número muito maior de empreendimentos de pequeno porte do que o setor financeiro. Por isso, na maior parte dos países, a intervenção do Estado na economia real é mais dispersa e muito mais diversificada, consistindo em geral na concessão de incentivos e imposição de proibições de atividades que violam a concorrência, os direitos dos trabalhadores ou a preservação de recursos naturais não renováveis.
    A economia real é instável e imprevisível por causa da ausência de qualquer tentativa de coordenação da produção e do consumo, distribuídos hoje em dia por milhares de mercados distintos. Tentativas de coordenar as ações de todas as empresas de determinado setor são consideradas formação de cartel e portanto ameaças à competição, o que é punível por lei. Decisões devem ser tomadas isoladamente por cada empresa, para que a competição nos diversos mercados seja livre.
    Para tornar a economia real mais estável e previsível a cartelização de determinados ramos deveria ser não só permitida, mas fomentada e controlada pelo poder público, para tornar as decisões estratégicas das empresas mutuamente congruentes e portanto mais eficazes. O controle público teria por objetivo impedir que o ganho de eficiência seja apoderado apenas pelo segmento mais forte, mas compartilhado com todas as empresas da cadeia produtiva e com os consumidores dos produtos.
    A instabilidade e imprevisibilidade do mundo financeiro são, em certa medida, reflexos destas características da economia real. Mas, no mundo financeiro a imprevisibilidade é condição indispensável para que possa haver especulação, que constitui a razão de ser de parte considerável (Bolsas de Valores e de Mercadorias) deste mundo. Isso faz com que a instabilidade e a incerteza quanto ao futuro, nas finanças, sejam muito maiores do que na economia real. Os ativos com que lidam as finanças, são contratos a serem executados num futuro, que no capitalismo é inevitavelmente incerto.
    Além disso, há outra diferença entre as finanças e a economia real que torna a instabilidade e imprevisibilidade muito maior no âmbito financeiro: é que este está sujeito a ondas de otimismo ou pessimismo que arrastam o conjunto de operadores numa ou noutra direção, maximizando ganhos e perdas sempre que o rebanho muda bruscamente de direção. A especulação na economia real se funda mais em informações específicas sobre determinados setores de produção e consumo. Por isso, a economia real é menos propensa a se lançar inteira em ondas de otimismo ou pessimismo, provocadas por apreciações apenas subjetivas.
    A crise financeira, por tudo isso, pode ser considerada inevitável, pelo menos enquanto a desregulação das finanças permanecer em vigor. A crise faz com que a prestação de serviços financeiros à economia real se contraia cada vez mais até cessar ao todo, a partir do momento em que a crise alcança a maior parte dos bancos e demais intermediários. O trancamento das fontes de crédito obriga as empresas que não dispõem de reservas líquidas abundantes a suspender o pagamento de suas dívidas e se a crise se prolongar elas acabam por falir. Os rombos deixados pelas falidas arrastam suas credoras à inadimplência por sua vez. Desta maneira, a crise financeira contamina a economia real, podendo lançá-la em recessão em pouco tempo.
    Então, o que fazer?
    Trata-se de circunscrever a crise financeira, num primeiro momento, para evitar que ela venha a paralisar a economia real. Uma eventual crise da economia real tem conseqüências sociais e políticas muito mais amplas porque ela começa por lançar no desemprego e logo mais na miséria uma parcela substancial da sociedade. Uma crise da economia real é muito mais difícil de reverter por medidas de Estado, porque não basta recuperar a confiança da população em determinadas instituições. Seria necessário criar novas atividades capazes de reinserir milhões de pessoas na economia mediante políticas de fomento e incentivo que somente poderão ser definidas por um processo prolongado de tentativa e erro. A grande crise de 1929 levou uma década para ser superada e mesmo assim graças ao “auxílio” de uma guerra mundial.
    Como a crise da economia real não aconteceu ainda e tão pouco é fatal, partiremos do pressuposto de que é possível preveni-la desde que sejam adotadas políticas capazes de resolver em curto prazo a atual crise financeira e ao mesmo tempo lancem fundamentos de uma nova estrutura institucional capaz de evitar novas crises financeiras no futuro. Convém lembrar que o sistema monetário internacional implantado nos anos 1930, e consolidado e sistematizado na Conferência de Bretton Woods em 1944, livrou o mundo de crises financeiras internacionais por mais de 40 anos.
    Ao contrário da política do governo de Bush, que se dispõe a resgatar os bancos falidos comprando seus créditos podres, e por isso sem valor, por preços que evitem a bancarrota gastando algo como 700 bilhões de dólares do erário público, o Estado deveria se apossar dos bancos falidos e só então reabilitá-los com recursos do tesouro. Se os governos não fizerem isso, é provável que o dinheiro público injetado nos bancos seja entesourado, porque é o que todos os agentes privados fazem enquanto o pânico perdura. Mas, para superar a crise financeira e impedir que ela lance a economia real em recessão, é essencial que o crédito seja restaurado, o que possivelmente exigirá uma intervenção efetiva do poder público nos bancos.
    Uma vez superada a crise, uma reformulação em profundidade das finanças deveria ser pautada. Há bons argumentos a favor da estatização perene de todos os bancos que emitem os meios de pagamento do país, não só para preservar o meio circulante da especulação mas, sobretudo, para garantir os valores dos depositantes e fazer com que sejam aplicados onde são mais necessários do ponto de vista do interesse geral da sociedade. O que pode implicar numa governança participativa do novo sistema financeiro, com forte presença dos assalariados, trabalhadores da economia solidária, além dos setores empresariais de praxe.
    Se as finanças fossem todas colocadas sob um comando unificado, elas poderiam controlar a economia real inteira, impondo-lhe diretrizes sobre o que e quanto produzir e consumir, de forma semelhante ao que foi feito nos países do ‘socialismo real’ no afã de planejar centralmente todas as atividades econômicas. Este não é um modelo que permitiria a paulatina construção duma economia socialista autogestionária. Em lugar dele algo como um parlamento econômico, composto por representantes eleitos dos diferentes modos de produção – capitalismo, pequena produção de mercadorias, economia solidária, economia pública local, regional e nacional etc.. – certamente seria mais adequado.
    Finalmente, o mercado de capitais teria de ser reformulado, tendo em vista não só coibir a especulação, mas também reconstruir os laços entre o investidor privado e o empreendimento em que ele é sócio. Neste sentido, seria necessário retirar a presente “liquidez” dos investimentos, que hoje podem ser colocados numa firma e retirados depois num piscar de olhos e quase sem custos. Entre as idéias que me ocorrem uma seria limitar o número de sócios de cada firma, de modo que seja possível a cada um participar efetivamente da administração da mesma, pelo menos na condição de membro duma assembléia de acionistas com influência real sobre a empresa. Só assim, propostas de cogestão de empresas por proprietários, empregados e representantes dos clientes p.ex. poderiam ser viáveis.
    (*) Paul Singer é economista, Secretário Nacional de Economia Solidária

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15322&boletim_id=479&componente_id=8426

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