19 de setembro de 2008

Da proposta social-democrata a aceitação do pensamento único. Este caminho tem volta?

Artigo

SAMUEL COSTA FILHO
Departamento de Ciências Econômicas - UFPI

16/04/2007
Durante a década de 90, após a derrocada do Socialismo real do Leste Europeu e do surgimento das idéias sobre fim da história predominou a visão de que o capitalismo liberal iniciara uma nova Era de Ouro. Os admiradores do capitalismo não se cansaram de afirmar a superioridade desse sistema e a falta de alternativa a economia de mercado. Foi apregoada uma era de prosperidade, de elevados investimentos dos países desenvolvidos nos países emergentes e de grande progresso tecnológico como resultado dessa nova etapa do sistema capitalista.

Nessa fase, batizada de globalização, se propaga a crença de que o sistema capitalista é a solução ideal para a sociedade representando a forma mais perfeita e acabada de organização humana. Cresceu a fé na economia de mercado  e na sua capacidade auto-reguladora. Para os seus apologistas, o capitalismo é o único sistema que por ter em vista a produção orientada para o mercado, atendendo preferencialmente os consumidores, opera nos setores mais lucrativos e adota os métodos mais eficientes, representando assim um sistema perfeito, desde que não sofra a desnecessária intervenção do Estado, que supostamente não poderia torná-lo mais eficazes.

O “novo liberalismo ” ocupou posição-chave como geradora primária de uma ideologia de defesa da livre empresa na esfera econômica e da democracia liberal na esfera política . Para os neoliberais só uma economia de mercado na qual os empresários tenham liberdade total de ação produziria bons resultados. Apresentam ainda uma negação das questões sociais de forma explicita e programática em proveito das questões econômicas.

A repetição constante desse “pensamento único ” em todos os meios de comunicação e por quase todas as matizes políticas conferiu ao “novo liberalismo” uma força de intimidação que encobriu e asfixiou toda tentativa de crítica e de reflexão livre sobre o que na realidade ocorria na “nova ordem mundial”.

A arrogância e força ideológica desse “novo liberalismo” possibilitaram uma política de controle social que desqualificava os críticos ou os que defendiam reformas sociais. Desqualificação em tal magnitude que classificava os críticos por meios de adjetivos como “atrasados ”, “retrógrados”, “dinossauros”, “radicais”, “esquerda burra”.

A Nível global, a revista The Economist, o The Wall Street Journal, o Financial Time, principais órgãos de informação econômica dos investidores e financistas repetiram e reproduziram o discurso “novo liberal”, apresentando a comunidade internacional de homens de negócio uma proposta editorial adequada à livre empresa e à expansão dos interesses globais das potências centrais, ou seja, no interesse das forças econômicas ligadas ao capital internacional.

No Brasil o jornalismo econômico disseminou com entusiasmo a expressão globalização como palavra mágica que a tudo justificava. Esse fenômeno foi apresentado como inevitável e irreversível , de tal forma que ninguém podia evitar o processo de globalização, sendo necessário adaptar-se o mais rápido e mais intensamente possível, iniciando um virtuoso futuro de crescimento econômico e elevação no nível de emprego.

Nesse contexto surgiu um consenso nos meios de comunicação em que todos os jornais, revistas  e redes de televisão brasileiras repetiam as teses liberais e escamoteavam as críticas. Os novos termos do jornalismo econômico brasileiro passaram a ser expressões como “Globalização”, “Custo Brasil”, “Mercados Emergentes” e “Reinserção Competitiva na Economia Mundial”. Todos essas palavras contaminadas com elevada carga ideológica  (Kucinski, 2000).

As forças conservadoras na periferia do capitalismo em meio a essa avalanche liberal e respaldado no Consenso de Washington implementaram políticas de cunho ortodoxo por quase toda a América Latina. Hoje se constata que todas essas políticas de liberalização da economia resultaram num enorme fracasso. Políticas de austeridade fiscal, altas taxas de juros, abertura comercial, liberalização da conta capital e dos mercados de capitais, e a política de privatização provocaram baixos níveis de crescimento, redução das taxas de investimento, crescimento acelerado do desemprego, crescimento da dívida interna e da dívida externa, queda do poder aquisitivo da classe trabalhadora e aumento da vulnerabilidade externa em todos os países que seguiram a política econômica recomendada pelo Consenso de Washington.

Infelizmente, o Brasil também optou pela inserção subordinada e passiva ao processo de globalização durante os anos 90. Analisando o desempenho do PIB brasileiro nesse período constatamos que a economia brasileira apresentou um quadro de semi-estagnação econômica com um crescimento médio que rivaliza com o da chamada “Década Perdida”. A política econômica implementada entre os anos de 1990 e 1992 resultou num período de forte instabilidade, seguindo-se um período de curta recuperação entre 1993/1995 decorrente do incentivo ao aumento do consumo interno promovido pelo Plano Real, e estagnação econômica entre 1996/1999.

O grande capital internacional e os mercados financeiros globalizados ditaram as regras que o Brasil se submeteu, elevando á já nossa grande vulnerabilidade e dependência de capitais externos. Essa política aumentou enormemente a dependência internacional do país a ponto de forçar a recorrer três vezes ao FMI nos últimos anos (1999/2004).

Desde 1999 estamos sob a tutela do Fundo Monetário Internacional – FMI, que determina a política econômica adotada pelo Brasil. O governo de Luís Inácio Lula da Silva ao assumir se viu na prisão dos devedores internacionais, presos pelas obrigações criadas por FFHH para com o Citibank e seu braço policial, o FMI (Palast. 2004).

Os idealizadores do modelo liberal brasileiro realizaram um processo de abertura da nossa economia prometendo a elevação na taxa de crescimento da produtividade que ensejaria o processo de crescimento econômico brasileiro e melhorias tanto na distribuição de renda quanto na competitividade da economia (Franco 1999).

Nesse período, parafraseando Delfin Netto (2004): “os noveux économistes” apregoaram a falsa idéia de que a abertura econômica do Brasil nos tornaria mais competitivos, eficientes e nos levaria ao “primeiro mundo”. Ocorre que há mais de uma década acreditamos que a estabilidade da moeda e o modelo liberal irão possibilitar essas mudanças e o crescimento econômico, mas os seus resultados são desalentadores. O que restou da grande aventura da “modernização” de 1990/2003 foi à substituição do fenômeno inflacionário pela grande armadilha do endividamento interno e externo.

Atualmente até o governo “social-democrata burguês” ou “neoliberal” de LULA tem claramente uma proposta de continuidade desse modelo, não somente no campo de política de gerenciamento macroeconômico de curto prazo, mas também na implantação e aprofundamento desse desastroso modelo liberal.

A surpresa experimentada pela sociedade e pelos sindicatos mais combativos com a linha adotada pela “burguesia petista” parece ter desorientado e anestesiado à luta dos progressistas por constantes mudanças sociais e o fim desse nocivo modelo implementado na década passada. Todavia não podemos esperar que o governo, associado as nossas elites, realize reformas estruturais de cima para baixo e modifique a atual situação da economia e sociedade brasileira.

Nessa linha devemos relembrar que as reformas liberais que assolam o mundo capitalista foram executadas em várias partes do planeta pelos partidos ditos progressistas ou de esquerdas. Como os partidos conservadores não tiveram força e coragem para implementar a realização de todas as reformas liberais de diminuição e sucateamento do Estado (corte nos gastos sociais e nos investimentos do setor público), redução dos direitos trabalhistas e enfraquecimento do poder dos sindicatos entregaram essa tarefa aos partidos de esquerda que sancionaram de forma “competente” tais políticas. São os partidos progressistas os encarregados de desmantelamento do Welfare State e da destruição do poder sindical, de tal modo que os capitalistas e o capital estão tomando de volta dos trabalhadores quase todos os ganhos sociais acumulados nos Trinta Anos Gloriosos (1940/1970).

Na Europa, o Partido Social-Democrata da Alemanha, a Democracia Cristã na Itália, os Partidos Socialistas na França, na Espanha e Portugal, e o Partido Trabalhista na Inglaterra foram os que realizaram o “jogo sujo” em favor do CAPITAL contra a classe trabalhadora e a maioria da população de seus países.

Na América Latina o comportamento não foi diferente. Realização similar ficou a cargo do Partido Peronista na Argentina, o partido Socialista e a Democracia Católica no Chile e da Social-Democracia do PSDB no Brasil. Assim, diferente do afirmado pelo “antigo PT” não é surpresa que o atual “governo liberal” de LULA esteja também a realizar as reformas que o governo de FFHH não conseguiu ou não quis realizar, realizando apenas o terceiro mandato do tucanato, que foi tão sonhado pelo ex-ministro Sergio Mota.

As argumentações infantis, simplistas e didáticas, próximas do senso comum, sobre as vantagens da globalização e do livre mercado não foram impedimentos para difusão rápida dessa ideologia devida não somente à renúncia dos intelectuais e partidos políticos “progressistas” de apresentar uma proposta alternativa, mas também em virtude da cooptação de intelectuais via farta verbas de pesquisa e/ou empregos na administração pública (Malaguti ett all, 1997).

Argumento ideológico que ainda se mantém apesar dos flagrantes desmentidos da história e dos desastres que provocou em todos os países que utilizaram as recomendações dos liberais. Em virtude da larga utilização do receituário “Novo Liberal” o continente latino-americano apresenta hoje um quadro de fragilidade na sua situação econômica, política e institucional, apresentando ainda um agravamento no quadro social (Soares, 2000).

A vitória da ideologia do “novo liberalismo” provocou o esgotamento da política social-democrata , deteriorou os serviços do Estado, ganhou os corações das novas gerações de tal maneira, que os jovens passaram a ter como projeto pessoal, somente “subir na vida”, transportando para o conjunto da sociedade os princípios darwinistas de sobrevivência do mais apto.

A “obsessão em vencer ”, o sucesso dos mais aptos, o estímulo ao desejo de atingir o topo da pirâmide social como sonho individual máximo realizado por poucos recria uma sociedade capitalista de rivalidade, incompatibilidade, antagonismos, racismo, xenofobia e violência, onde os vencedores não devem nada àqueles que esmagaram. Uma sociedade que ao lado de reduzido número de vencedores encontramos muitos rejeitados que não têm mais nada o que esperar.

Acontece que a história do capitalismo nos séculos XIX e XX foi, fundamentalmente, a história da redução dos excessos maléficos característicos do capitalismo, quer seja controlando o processo da concentração em oligopólios e monopólios, quer seja na regulação da sua lógica de exploração da força de trabalho, em virtude do ideal presente de pretender governar a sociedade com a afirmação dos princípios de igualdade, de justiça social e de solidariedade. Ocorreu a priorização da política e da ética em lugar dos princípios econômicos liberais.

O caminho da globalização da economia libertou o capitalismo das regras, procedimentos e instituições que permitiram a construção do “contrato social” do Estado do Bem-Estar Social ou Welfare State. Pela via da globalização o capitalismo reconstruiu, em escala planetária, seu enorme poder de concentração econômico, financeiro e político, de modo a levar que o mercado e a moeda sejam os únicos valores prioritários para a humanidade no atual estagiam do sistema capitalista globalizado.

No final do século XX o predomínio do “novo liberalismo” provocou o abandono das questões políticas e da responsabilidade social, levou a dilapidação dos bens públicos de tal modo que nenhuma força social ou política pode limitar as ambições dos ideólogos do liberalismo econômico. Os liberais difundiram a visão perniciosa da submissão do Estado as pensões e demandas da sociedade democrática, de tal forma que os governos teriam aumentado os orçamentos no limite do insustentável.

No atual contexto histórico-institucional financeiro em que existe desintermediação bancária, securitização, lançamento de título de dívida pública direta, títulos de propriedade e derivativos, globalização financeira, etc., estamos diante de uma globalização produtiva com supremacia da lógica e da ordem financeira.

Esse processo de globalização está associado às vertentes financeiras, produtiva-tecnológica e comercial. Na versão financeira apresenta-se sob forma de autonomia e mobilidade do capital financeiro pelo mundo a um custo bastante elevado no empréstimo do capital-dinheiro, na chamada financeirização da economia.

Os investidores preferem cada vez mais investir em títulos em detrimento do investimento produtivo. Conseqüentemente, a esfera financeira passa a ser o local principal de valorização do capital, nas transações com títulos públicos e privados, nas bolsas de valores, câmbio e nos mercados futuros.

Apenas uma fração reduzidíssima dessas transações relaciona-se com o financiamento de projetos criadores de emprego, além do que, a “regra de ouro” da empresa na atualidade passou a ser produzir sempre mais com menos trabalhadores assalariados. Diante deste quadro, além do crescimento econômico não criar mais tantos empregos, constatamos ainda que os novos sectores dinâmicos da economia necessitam de um efetivo menor de assalariados.

Acrescente-se a esse fato, que nessa realidade globalizada são justamente os trabalhadores dos países periféricos os que mais sofrem diretamente os efeitos da globalização devido à política de liberalização comercial e da desregulamentação do mercado de trabalho.

Segundo o professor Marcio Pochmann (2002:34) está em formação uma Nova Divisão Internacional do Trabalho que parece referir-se mais à polarização entre produção manufatureira, em partes dos países da periferia e a produção de bens industriais de informação e comunicação sofisticados e de serviços de apoio à produção gerado no centro do capitalismo.

Na periferia ocorre a geração de valor agregado na produção de manufaturas de menor valor agregado e baixo coeficiente tecnológico que requer mão-de-obra barata, uso extensivo de matéria-prima e energia em atividades insalubres e poluidoras do meio ambiente que não são mais aceitas nos países ricos. Por outro lado nos centro do capitalismo concentram-se nas atividades de mais alto valor tecnológico e de confecção de valor intangível.

Nessa nova divisão do trabalho, 70% do total da força de trabalho dos países ricos concentra-se no setor de serviços, que é menos globalizado, enquanto nas economias periféricas ocorre o contrário, ou seja, 70% das ocupações estão concentradas nos setores primários e secundários que são mais objeto de competição mundial.

A órbita produtiva-tecnológica está associada aos investimentos diretos no exterior, assim como na concentração produtiva e tecnológica que reforça o poder dos oligopólios. Na área da atividade de pesquisa, 89% dela é realizada nos países de origem da empresa. O oligopólio tem consolidado e avançado posições no mercado em que atua com aprofundamento da concentração da produção mundial. Há concentração dos investimentos no interior da tríade, composta pelo Estados Unidos da América, Japão e Europa Ocidental, proporcionando a integração de apenas uma pequena parte geográfica de países do globo.

Por último, a vertente comercial que diz respeito à multiplicação do fluxo de comércio mundial devido à queda generalizada das barreiras alfandegárias, à multiplicação dos acordos bilaterais e à formação de áreas de livre comércio.

Nessa linha, a globalização produtiva está restrita aos países da tríade e em alguns países que apresentam condições mínimas para produção industrial mais complexa na periferia, tais como Brasil, México, Argentina, etc., levando a baixo crescimento econômico com crescente desemprego e desnacionalização.

Nesse quadro, as finanças internacionais têm se desenvolvido de acordo com sua própria lógica, e não mais em relação direta com o financiamento dos investimentos e do comércio em nível mundial. Começa a se delinear um novo regime de acumulação mundial que adquiriu a marca, cada vez mais nítida, de um capitalismo predominantemente rentista e parasitário, subordinado as necessidades do capital-dinheiro (Chesnais, 1995). Desse modo, a economia mundial desde o fim do século XX passou a ser grandemente influenciada pelas relações monetárias e financeiras internacionais, provocando instabilidade e crises periódicas.

Acontece que, mesmo diante desse processo de globalização e do predomínio de uma nova dinâmica que assola o mundo, a forma capitalista de sociedade ainda é capitalismo. E o capitalismo globalizado elevou as enormes deficiências que são características desse sistema e que necessitam serem combatidas e até eliminadas. No capitalismo brasileiro essas deficiências e imperfeições se apresentam ainda maiores e mais graves. Nesse sentido, a via de liberalização do mercado não representa o melhor nem o único caminho para avançarmos rumo ao desenvolvimento econômico e a justiça social.

Nesses “novos tempos” liberais que prega consenso e certezas não devemos abdicar da nossa capacidade crítica de pensar. Pensar ainda é preciso e deixar de o fazer é renunciar a nossa capacidade humana de melhorar e decidir sobre o nosso amanhã. Atualmente, cada vez mais a realidades econômicas só atingem a consciência das pessoas sob uma forma deformada fazendo com que se confunda causa e efeito, o que têm levando a que as pessoas comuns tenham dos fenômenos econômicos uma concepção totalmente errônea. Desse modo se torna difícil à compreensão das verdades econômicas. Nessa linha e conforme já salientado, diferente das afirmações correntes, o capitalismo global continua apresentando muito dos seus vários defeitos congênitos e, alguns até sem solução dentro do sistema capitalista.

A sociedade brasileira e os progressistas devem pressionar o governo atual para abandonar o modelo liberal, pois a inserção subordinada ao capitalismo globalizado e a solução de mercado somente irão agravar os problemas sociais e econômicos brasileiros. Nessa linha se faz necessário que a classe trabalhadora e a população em geral compreendam as questões econômicas, sociais e políticas que estão em jogo, a fim de perceberem que a política do governo do PT DE LULA continua levando o Brasil rumo a instabilidade que nos mantêm presos numa camisa de força.

A utilização e justificativa da globalização têm na periferia servido aos interesses das elites conservadoras a tal ponto de esquecermos que o mundo continua capitalista e têm agravado os seus vários defeitos congênitos. Hoje em dia é comum o esquecimento de que o mundo capitalista em qualquer dos seus modelos (liberal americano, europeu ou asiático) apresenta uma desigualdade incorrigível, uma má orientação da produção e um desperdício de muitos dos seus recursos, visto que ao lado de amplas necessidades por satisfazer são encontrados meios de produção ociosos e desemprego grave e crônico, tanto no mundo desenvolvido quanto no chamado mundo subdesenvolvido. Dito de outra maneira, Capitalismo globalizado continua produzindo, de um lado, uma minoria privilegiada e, no outro extremo a sua grande maioria, produz miséria, exclusão, injustiça e a fome.

Alguns defeitos do capitalismo podem ser enfrentados por reformas, outros que decorrem da essência desse sistema não são suscetíveis de nenhum tipo de mudanças. Dentro dessa realidade convêm salientarmos que: 1) continua predominando a degradação constante do trabalho assalariado em decorrência da ameaça e/ou constante aumento do desemprego, provocando insegurança na vida e marginalização da classe trabalhadora, ou seja elevada exclusão social; 2) que as inovações tecnológicas a serviço da competitividade entre empresas nos mercados globais tem a predominância das inovações dos processos produtivos, o que provoca a permanente modificação das combinações dos fatores de produção tornando supérfluas quantidades crescentes de assalariados e elevando conseqüentemente a composição orgânica de capital, o que implica perdas adicionais de postos de trabalho; 3) que o sistema capitalista globalizado continua tendo como preocupação central o lucro, numa concorrência feroz entre capitalista visando prioritariamente superar os concorrentes próximos ou não; 4) que em decorrência desse último ponto, continua atual a disposição dos empresários de colocar em risco a saúde e mesmo a vida de seus trabalhadores, vizinhos e até clientes, quer seja através de más condições de trabalho, poluição e produtos nocivos, desde que sejam lucrativos e não seja detectado pelas vítimas ou por fiscalização dos governos; 5) que o atual capitalismo individualista elevou a grande desigualdade social e de riqueza característicos desse sistema. Quanto mais o mercado governa o futuro da sociedade, os indivíduos, grupos sociais, cidades, países e até continentes pouco competitivos ficam fora do processo de globalização, elevando as desigualdades a níveis irreversíveis entre os seres humanos; 6) que os países desenvolvidos continuam sendo os maiores criadores e detentores da moderna tecnologia, o que aumenta a dependência de países emergentes em relação a esses países ricos; 7) que no período da globalização financeira é cada vez maior a crença na importância do capital estrangeiro para os países subdesenvolvidos como forma de suplementar a poupança doméstica, para facilitar a transferência de técnicas modernas e para ampliar a capacidade de importações. Acontece que essa política somente tem tornado os países emergentes em exportadores líquidos de capital para os países ricos; e 8) a partir dos anos 80, o capital tem voado rapidamente de um país para outro procurando a maior taxa de lucros, e dessa forma, levando os países subdesenvolvidos concorrerem entre si para que o capital não migre para outros países. Qualquer deficiência encontrada em um desses países da periferia tais como: as estradas inadequadas, sindicatos que reivindicarem muito, impostos mais elevados que em outros países, faz com que o capital fuja para um país mais “seguro e confiável”.

Na realidade, é bom relembrar que no atual capitalismo globalizado os empresários capitalistas produzem ainda e cada vez mais com objetivo do lucro e não para atender a necessidade e interesses da sociedade. Nessa sociedade as influências do “efeito demonstração”, da “moda” e da publicidade convertem, cada vez mais, uma quantidade enorme de produtos e serviços supérfluos em “necessidades”.

A propaganda e a publicidade são constantemente manipuladas pelos “gênios” do marketing, objetivando elevar a demanda de produtos “supérfluos” e induzir os consumidores a escolher produtos nocivos ou poluidores e até antiéticos como cigarro, bebidas, drogas, filmes de violência, bingos e jogos, produção de armas, revistas pornográficas e programas de televisão sobre violência, músicas de gosto duvidosas, automóveis, celulares, etc.

Nos países da periferia o consumo imitativo e a importação de bens consumo de luxo e supérfluos pelas elites aculturadas representa para esses países uma drenagem de divisas, de tal forma que, diminui a capacidade de importação de máquinas, equipamento e tecnologia necessária ao desenvolvimento econômico. 

Os defensores do liberalismo sempre afirmaram que os gastos privados merecem preferência sobre os gastos públicos por serem feitos buscando a máxima satisfação das necessidades e aspirações pessoais.  Porém, propositalmente, esquecem que existem gastos públicos em saúde, educação, habitação, transporte coletivo, serviços básicos, subsídios à alimentação, etc., que são essenciais para a grande maioria da população . Por outro lado, não enfatizam a existência de muitos gastos privados, suntuários, que interessam apenas a minorias privilegiadas. Essa última característica é um fato marcante que predomina na atual sociedade brasileira.

Convém destacar que o setor público teve um extraordinário papel criando e suprindo economias externas (energia elétrica, comunicação, redes de água e esgoto, distritos industriais) ao setor privado e realizando investimentos de infra-estrutura socioeconômica no processo de desenvolvimento do capitalismo brasileiro. No nosso país, o governo federal comandou a instalação até da indústria de base.

O setor público usualmente concedeu e concede ao capital uma série de vantagens tributárias, crédito, incentivos fiscais e cambiais, tais como a isenção de impostos, financiamento a taxas de juros subsidiadas, oferta quase gratuita ou doação de terrenos e a realização de políticas de desenvolvimento regional e nacional.

Atualmente a desigualdade, o desperdiço do esgotamento dos recursos naturais continua inerente ao sistema capitalista global. Nesse último ponto a Revista Carta Capital (No 280, 3 de março de 2004) traz reportagem segundo a qual documento do Pentágono prevê que o aquecimento global ameaça a estabilidade do mundo muito mais do que o terrorismo. Segundo a reportagem “O Apocalipse está aí”, um relatório secreto suprimido pelos chefes da Defesa norte-americana e obtido pelo The Observer, adverte para o risco de que cidades e países inteiros podem se tornar inabitáveis e a fome se agravarão em virtude de mudanças climáticas até 2020. Ainda, segundo o mesmo relatório, conflitos nucleares, grandes secas, fome e tumultos generalizados acontecerão ao redor do mundo e poderão criar o caos global. Dessa forma, se faz necessárias mudanças no ponto de vista da Casa Branca e do Governo dos Estados Unidos no sentido de assinar tratados globais para reduzir a taxa da mudança climática.

O Banco Mundial, no seu relatório de pesquisa política sob o nome Globalização, Crescimento e Pobreza (2003), reconhecem esses problemas causados pelas questões ambientais. Segundo a citada publicação, há uma ampla concordância entre os cientistas que a atividade humana causou o aquecimento global e que uma mudança climática ainda maior está por vir a não ser que ações corretivas sejam realizadas. Os responsáveis por este problema é o conhecido G- 7, grupo dos sete principais países industrializados, que respondem por 70 % das emissões de CO2 do planeta. Os Estados Unidos da América com apenas 4 % da população mundial, emite quase 25 % dos gases que causam o efeito estufa, se nega a cumprir o Protocolo de Kyoto.

Mesmo duvidando de previsões tão pessimistas não devemos nos esquecer que o capitalismo globalizado conserva sua característica inerentemente consumista e destruidora do meio ambiente. A destruição de parte da camada de ozônio, a poluição dos rios, a desertificação de diversas áreas do globo são algumas características que decorrem do desenvolvimento do capitalismo no último século.

Nessa sociedade desigual, o conceito de bem comum raramente tem conteúdo real servindo apenas como instrumento de mistificação. O capitalismo ainda procura incutir a crença na existência de um bem comum e na identidade entre os interesses das elites e os da sociedade como um todo, ou na defesa da liberdade e da democracia como uma bandeira a unir os interesses dos povos na terra. Nesse rumo, a grande maioria da população, que é cada vez mais marginalizada, sofre manipulação constante da mídia e de todos os grandes partidos conservadores na defesa desse sistema e para que mantenham a atitude de resignação com a própria sorte, ou com a própria desgraça, de tal forma a manterem sua postura submissa  (Browne, 1988).

Acontece que, no sistema capitalista globalizado, os atos governamentais continuam favorecendo em geral aos interesses dos grandes capitalistas e seus proprietários . Na periferia do capitalismo a democracia tem significado um instrumento forte e poderoso que ilude as populações desorganizadas e pobres, levadas a crer que essas exercem uma influência que de fato não possuem . A população não percebe claramente que a elite tem meio, não só para promoverem a eleição de políticos de sua confiança, como para evitar a de indesejáveis e cooptar adversários; e até mesmo para impedirem que os desfavorecidos se organizem e logrem participar do poder, mesmo que seja por intermédio de golpes de estado como sempre ocorreu na América Latina a exemplo do que ocorreu no Chile nos anos 70 e ainda está em curso na Venezuela.

Entre as funções de acumulação e legitimação, os governos têm preferencialmente optado pela primeira opção no sistema capitalista globalizado. Nesse sistema econômico a maioria das ações do setor público na esfera econômica afeta desigualmente aos diferentes grupos sociais, principalmente em beneficio da acumulação de capital e em detrimento da classe trabalhadora. No limite, classes inteiras são afetadas, como acontece com as classes trabalhadora e a capitalista em conjunto, por intermédio das leis defendendo e definindo as propriedades privadas, regulamentando o direito trabalhista e a organização sindical, a política de reajuste salarial, o incentivo ao capital, etc. Assim, o Estado reproduz e privilegia os interesses da acumulação de lucros em relação aos interesses do bem-estar social e aos interesses dos trabalhadores e da população em geral.

No caso brasileiro, a legislação trabalhista foi implementada autoritariamente de cima para baixo abrangendo, até recentemente, apenas uma parte da classe trabalhadora, ou seja, os trabalhadores urbanos eram quase os únicos que se enquadravam nessa legislação. Já no que diz respeito ao capital, o governo brasileiro ao promover o desenvolvimento econômico concedeu incentivos à iniciativa privada, basicamente constituída de subsídios ao capital via taxas de juros mais baixas ou negativas, isenção de impostos de produtos de importação, de tal forma que tornaram o capital o fator “mais barato” e encarecendo relativa e artificialmente o custo da mão-de-obra, o que veio a elevar o dramático problema do desemprego na economia brasileira (Cano, 1998).

No capitalismo globalizado continua válida a regra de que para “certos” partidos alcançarem o poder e o controle do aparelho governamental faz-se necessário tornar “confiável” ao Capital. O grande capital continua tendo como objetivo resguardar os seus interesses, do mesmo modo que se empenha para que seus membros ocupem posições estratégicas no governo, quer seja na burocracia executiva, quer seja no legislativo, ou pelo menos para que as pessoas que ocupam esses cargos tenham opiniões e valores idênticos aos seus.

O capital ainda pressiona os ocupantes das posições estratégicas através da persuasão, do oferecimento de vantagens tais como propinas, empregos futuros, empregos imediatos para parentes ou amigos, elogios públicos, ou até ameaças (Browne, 1988). Como se percebe não foi outro o motivo da mudança de discurso da “cúpula burguês petista” já antes das últimas eleições. No primeiro ano de governo de Luís Inácio Lula da Silva a mídia conservadora aplaudiu um presidente Lula que satisfez a agenda conservadora do capital financeiro. Atualmente encontramos o presidente Luis Inácio Lula da Silva deslumbrado com os elogios das elites conservadoras e com o poder.

Mesmo na atualidade, o capitalismo ainda apresenta a característica de que os partidos e seus candidatos mesmo incorporando em suas plataformas opiniões e reivindicações de seus membros e eleitores, a população não dispõe de muitos mecanismos para obrigar os eleitos a cumprirem suas promessas. Por essa linha, não é surpresa que hoje em dia o governo do PT, não só não esteja cumprindo com grande parte do prometido no seu programa de governo, como está seguindo as linhas mestras da política econômica do governo anterior, caracterizando um terceiro mandato de FHC a quem o PT combateu e criticou tão duramente (Cano, 2003).

Nessa sociedade individualista as pessoas são avaliadas em boa parte pelos ganhos e pelo que possuem. A norma que vigora é a oportunidade de ganhos elevados na forma de ganhos de capital, lucros e altos salários para determinadas categorias. Acontece que essa é uma especificidade do sistema econômico que objetivam prioritariamente o lucro e a acumulação ilimitada, não sendo possível impor limites quer ao enriquecimento e muito menos a cumulação de capital. Essa atitude provocaria a morte do sistema.

Dessa forma, no capitalismo globalizado continua, cada vez mais, valendo a máxima que torna respeitáveis os ganhos elevados e exorbitantes do capital e de certas profissões em virtude da argumentação de que eles são necessários para induzir o empresário a seguir caminhos arriscados e introduzir técnicas e/ou produtos novos, como também para atrair pessoas talentosas para determinadas funções.

Contudo, diferentemente do discurso ideológico do capital que afirma recair sobre os capitalistas os maiores riscos na sociedade capitalista, quer seja na orientação da produção ou no comando dos negócios, o que realmente ocorre é que nem todos os riscos e nem mesmo os mais sérios são suportados pelos capitalistas. Os riscos de invalidez, acidentes fatais e de desemprego são suportados principalmente pelos trabalhadores assalariados. Os principais riscos dos capitalistas são o de perder o capital aplicado, o acesso a cargos na direção das empresas, o privilegio dos cargos públicos ou nos diversos órgãos governamentais (Browne, 1988).

Atualmente, a sociedade e particularmente a classe trabalhadora dominada pelo pavor do desemprego crescente perdeu o respeito próprio e se tornou mais subserviente e indiferente a qualquer luta, aceitando qualquer tipo de trabalho e não se incomodando com as condições prejudiciais e arriscadas desse trabalho, nem com o caráter nocivo e perigoso dos bens ou serviços que produz.

As privatizações, as reestruturações, as fusões e aquisições, as terceirizações e os enxugamentos têm elevado a intensidade de trabalho e mais horas de trabalho. A perspectiva é a de que cada vez mais trabalhadores serão obrigados, ou convencidos, a adotar atitudes participativas, comprometidas com o sistema. Isso tudo em nome da modernização e da produtividade.

Diante dessa realidade, o projeto liberal ainda clama por mais desregulamentação do mercado  e das leis que regem o mundo do trabalho, afirmando que as negociações dos sindicatos em favor de seus membros e os direitos trabalhistas afetam a eficiência das empresas.

Constatamos nessa nova ordem global, de um lado o desemprego crescente e, do outro lado, um trabalho cada dias mais absorventes, exigentes, instáveis, estressantes. Quem tem a sorte de estar trabalhando sofre cada vez mais devido ao estresse e a depressão e por não ver sentido na tarefa que faz.

Frente à crise estrutural do emprego proliferam na sociedade brasileira estratégias de trabalho informal e de sobrevivência. A população recorre e recria formas cada vez mais ligadas à informalidade que ocupa as ruas das grandes cidades, esgarçando ainda mais o processo de precarização das condições e relações de trabalho no Brasil. Na economia brasileira os elevados índices de desemprego além de criar insegurança, têm fomentado a criminalidade, a marginalidade, a prostituição, ou seja, disseminado essa guerra civil em que vive diariamente o morador das periferias das grandes metrópoles (Tiriba, 2003).

As pesquisas da canadense Estelle Morin, professora de Comportamento Organizacional da HEC Montreal, uma afiliada da Business School of University of Montreal, e Ph.D. em Psicologia Organizacional e Industrial constatou que no Brasil, trabalha-se duas vezes mais do que no Canadá (Carvalho, In: Carta Capital, 263, 2003).

Porém, diante desse fato, o “mito do custo do trabalho” num universo de mercado de trabalho com elevado índice de flexibilidade e com poucas “regalias”, tem levado aos últimos governantes brasileiros a proporem diferentes reformas de mudança na legislação trabalhista que somente objetivam a redução nos direitos trabalhistas na forma de: 1) flexibilização dos direitos sociais; 2) implantação do contrato coletivo de trabalho; 3) redução de encargos trabalhistas; 4) eliminação do poder normativo da Justiça do Trabalho; 5) fim da contribuição sindical compulsória; 6) introdução do pluralismo sindical. O sindicalismo brasileiro precisa ficar alerta, pois o atual governo parece também sinalizar nessa linha. Mesmo fragilizado, o projeto neoliberal continua hegemônico no planeta e a sua ofensiva contra o direito ao trabalho será violenta na economia brasileira (Borges, 2004).

A situação do desemprego é tão grave que, não somente os principais sindicatos, mas também e até a classe trabalhadora perdeu a noção de que nesse sistema, o capitalista se apropria do excedente produzido pela classe trabalhadora. Voltamos ao velho discurso conservador do empresário criador de trabalho e riqueza. Dessa maneira passa a predominar novamente a visão do empresariado como um “benfeitor” e um “benemérito”, “empreendedor” que ao criar empresa e contratar mão-de-obra salva a vida do trabalhador.

Assim, como encontrado em Browner (1988:166) na guerra civil que impera no nosso país ficamos com a impressão de que o capitalista aparece como benfeitor a quem o trabalhador deve o seu sustento e não mais o inverso como é a característica no sistema capitalista. Assim, há algo de comum no empresário que nos livra do desemprego se aceitarmos doar-lhe parte do valor que o nosso trabalho cria, e no assaltante que nos leva a bolsa, mas nos poupa a vida: ambos nos possibilitam sobreviver.

Nesse contexto, o que predomina é idéia de “priorizar a competitividade” via redução dos custos de mão-de-obra, elemento considerado como a causa principal da diminuição da competitividade e do crescimento do emprego, em virtude do sistema de regulamentação existente e dos encargos trabalhistas criados pelo Estado do Bem-estar social.

Assim, não é surpresa o predomínio da tese de que a rigidez da legislação trabalhista, os altos custos dos salários e a falta de qualificação sejam os principais responsáveis pelo desemprego . Com o predomínio dessa idéia e em meio a um elevado desemprego, o grande contingente de pessoas procurando emprego está disposta a aceitar salários mais baixos, concorda com o desmantelamento dos mecanismos de proteção sindical e desautoriza a intervenção do Estado no campo social.

O “novo liberalismo” ressurge como ideologia no sentido meramente político-ideológico da modernidade pondo de novo nos sindicatos a culpa pela crise de desemprego . Diferente da era Keynesiana que afirmava ser o desemprego uma característica intrínseca do sistema capitalista, essa realidade liberal, torna necessário destruir o poder sindical, priorizar a livre iniciativa, reduzir os recursos de assistência social e iniciar a terceirização, incentivar o trabalho autônomo e sem vínculos empregatícios, iniciar estratégias de redução dos salários acompanhada pela redução da jornada de trabalho, provocar a redução do seguro-desemprego, etc; elevando o crescimento do trabalho informal e/ou sem registro, levando a que as pessoas acabem se sujeitando a empregos cada vez mais precários com salários reduzidíssimos como os de países asiático (Sayad, 1999).

A globalização propagou a crença ideológica de que qualquer grupo de países possa beneficiar-se com a participação em “mercado comum”. Todavia, no caso dos países subdesenvolvidos e em via de desenvolvimento, esse mito encobre três riscos sérios: 1) que esses benefícios da ampliação de mercado sejam colhidos principalmente pelas empresas estrangeiras e à custa de interesses nacionais; 2) que como essa associação reúne países em estágios muito distintos de desenvolvimento, a unificação dos mercados fará com que os países em desenvolvimento percam qualquer esperança de desenvolvimento; e 3) que a entrada do capital estrangeiro apresenta cada vez mais um alto grau de probabilidade de que, no longo prazo, provocará uma saída acumulada de divisas maior que a entrada.

A globalização tem possibilitado o enriquecimento ainda maior dos países de economia desenvolvida. Esses países elevaram o grau de monopólio do poder econômico, aumentaram o controle dos fóruns de decisões, expandiram o comando sobre os mecanismos de comércio e mercados financeiros, recursos naturais e maior controle sobre a tecnologia. Por outro lado, os países em desenvolvimento e pobres tornam-se altamente endividados e são forçados a pagar juros da dívida cada vez mais pesados diante de um rebaixamento histórico dos termos de troca e diante de condicionalidades ampliados econômicas e politicamente, ou seja, obrigados a adotar o projeto neoliberal que adequou os países devedores às exigências dos países ricos.
A globalização também legitimou a ocupação de novos espaços pelo capital financeiro mundial, especialmente nos países periféricos, sob o argumento de que se trata de um desenvolvimento natural das forças produtivas capitalistas.

Colocou para essas economias a necessidade inexorável de se reinserir nos mercados mundiais de modo competitivo e adverso às suas demandas sociais e a determinações nacionais, de tal forma a que se abandonou a idéia do desenvolvimento nacional autônomo com seus próprios recursos (Kucinski, 2000).

Historicamente, o afluxo de capitais para os países subdesenvolvidos tem levado esses países a grave crise de divisas, mostrando o paradoxo do subdesenvolvimento que é o da transferência líquida de recursos dos paises pobres para os países ricos. Nessa linha, ocorreu nas últimas décadas o agravamento do desequilíbrio cambial crônico dos países subdesenvolvidos devido à atração de capitais de curto prazo dos países ricos para os países ditos emergentes via diferencial entre as taxas de juros vigentes nos paises desenvolvidos e subdesenvolvidos provocando grande instabilidade nos mercados receptores (Cano, 1998).

Pelo apresentado, o capitalismo embora numa nova fase, isto é, no capitalismo globalizado, na sua essência ainda é capitalismo. Sistema individualista e darwinista repleto de vícios e defeitos. Diferente da pregação do fim da história, na era liberal de globalização financeira a história recusa-se a terminar e segue produzindo ironias e paradoxos. Não parece ter lógica, muito menos direção.

O capitalismo globalizado leva a uma revolução permanente negando qualquer autoridade ao passado, negando mesmo as condições que viabilizaram sua expansão. Tem levado a uma generalizada erosão na conduta pública e privada, reduziu enormemente a influencia da religião, propicia a disseminação da corrupção tanto no setor estatal quanto no setor privado, procura constantemente e crescente alienar os consumidores com a disseminação do fetichismo da mercadoria, leva a alienação de eleitores diante dos fatos políticos, provocando ainda atitudes de liberalização desenfreada da atividade sexuais e de produtos e serviços ligados a esta atividade, etc.

Nessa situação, o neoliberalismo ao mesmo tempo em que celebra a democracia se vê obrigado a demonizar quem se opõe a ele. Nessa linha, para os fundamentalistas de mercado o islamismo passou a ocupar o lugar do comunismo como o inimigo que precisa ser execrado e destruído. Esse fundamentalismo incomoda aos liberais pelo seu conteúdo antiimperialista e antagônico ao neoliberalismo.

O fundamentalismo islâmico necessita ser atacado e destruído porque não aceita aspectos essenciais ao capitalismo da nova era liberal, que apresenta a corrupção, a liberdade e libertinagem dos costumes, a amoralidade, a primazia do lucro e do mercado, a desqualificação da solidariedade social, da destruição das culturas e hábitos comunitários e nacionais como fatos comuns decorrentes do progresso (Kucinski, 2000). Progresso econômico desse capitalismo global, individualista, egoísta que tem sido o rumo seguido pelas elites brasileiras, desprezando o homem cordial e a solidariedade social que eram contribuições típicas de brasilidade para a humanidade.

O capitalismo brasileiro apresentou em grande parte do século XX um ritmo de crescimento elevado da economia, principalmente em setores que produz para a minoria privilegiada que imita os hábitos de consumo das elites dos países desenvolvidos. Por outro lado, o país possui hoje 54 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza, segundo dados do IBGE. Esse número representa 31,8% dos cerca de 170 milhões de brasileiros. Desses 54 milhões, 49 milhões têm renda inferior a meio salário mínimo por mês e 5 milhões restantes são pessoas que sobrevivem sem nenhum tipo de renda.
A crise do modelo desenvolvimentista e a implantação do neoliberalismo fizeram crescer o predomínio do consumo suntuário das elites tradicionais que imitam os padrões de consumo dos países de elevado nível de desenvolvimento e agravou-se a condição dos desfavorecidos (Furtado 2002). Acrescente-se o fato de que no atual modelo, enquanto a grande maioria da população brasileira passa fome, boa parte das melhores terras e das águas escassas é utilizada no agronegócio para produzir alimentos que serão consumidos nos países ricos.

Constata-se a um retrocesso da economia brasileira rumo ao modelo primário-exportador via disseminação do agronegócio. Mostrando o retrocesso da economia brasileira rumo a reprimarização, não somente da sua economia como também de suas exportações, em 2003, ano em que a produção industrial brasileira sofreu uma forte retração, a participação do agronegócio no PIB voltou a crescer. Segundo dados da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil) a participação do agronegócio no PIB subiu de 29% para 31% do PIB em 2003. Já o Ministério da Agricultura estima em 33% o percentual de participação do agronegócio no Produto Interno Bruto. Convém salientar que essa crescente participação do agronegócio tem sido resultada das sucessivas safras recordes e da retração dos outros setores. A bem da verdade, acrescente-se o fato de que a mensuração da presença do agronegócio, porém, é difícil de ser detectada porque o agronegócio inclui ramificações que vão além da agricultura e da pecuária, tradicionalmente classificados como um setor único (Folha de São Paulo, 14/04/2004).

A conclusão a que chegamos é a de que a economia brasileira aloca recursos escassos de forma socialmente ineficaz e economicamente ineficiente, à medida que, além de manter grande parte de seus recursos ociosos (Latifúndio é apenas um dos exemplos), não consegue ainda suprir as necessidades básicas da grande maioria da população, destinando parcelas significativas dos seus recursos à produção de bens supérfluos e não essenciais.

Globalização, esse nome pomposo para o estágio atual do capitalismo e da economia mundial, não tem produzido elevadas taxas de inflação, mas provocadas apenas baixas taxas de crescimento e muito desemprego. Nesse contexto, surge uma pergunta: Valerá a pena continuarmos a aprofundar um modelo de desenvolvimento que não contribui para diminuir a percentagem dos pobres e miseráveis e, até mesmo a maioria dos que dele se beneficiam está sendo condenada a viver permanente ameaça por assaltos, epidemias, exploração, más condições de trabalho, doenças provocadas pelo mundo do trabalho ou a triste opção do desemprego?

Diante da onda liberal existirá retorno? Por falta de uma alternativa melhor no horizonte histórico do capitalismo, o Welfare State ainda se apresenta como a alternativa mais viável de sociedade. Nessa linha, pode a sociedade reivindicar e o setor público brasileiro tentar corrigir algumas dessas anomalias apresentadas pelo sistema capitalista no Brasil por meio da manipulação de uma adequada política econômica objetivando conquistas sociais que priorize os interesses da nação. Reformas progressistas nas áreas tributária, agrária, urbana, educacional, monetária e até no seu comércio exterior.

Porém, não serão as elites e nem um governo comprometido com as políticas do FMI que realizará reformas estruturais necessárias à construção de uma alternativa. Além do que, o modelo liberal implementado no Brasil não é susceptível de remendos. Não há nenhuma forma de ajuste macroeconômico capaz de fazer com que a soberania econômica do país seja restaurada e o manejo da política econômica e da política de desenvolvimento possa ser, de novo, movida pelas decisões soberanas da nação dentro da alternativa liberal (Cano, 2003).

Diante da crise da dívida externa da Argentina, o melhor aluno do FMI e principal país a implementar as propostas consubstanciadas no Consenso de Washington na América Latina, das propostas de Hugo Chaves para Venezuela e a eleição de Lula no Brasil estão os países do Cone Sul (Brasil, Venezuela, Argentina, etc.) perdendo uma oportunidade histórica de mudar a jogatina contra os países da periferia.

Infelizmente o caminho seguido pelo “nova elite petista” segue na linha da submissão e da vulnerabilidade interna e externa. Do ponto de vista estrutural, o governo de LULA está aumentando a vulnerabilidade externa da economia brasileira não somente na dimensão comercial e produtiva, mas também na tecnológica e na dimensão monetária e financeira. Faz-se necessário e urgente romper com a política econômica imposta pelo neoliberalismo, gerenciado pelo “cão de guarda” do capital internacional o FMI, que prescreve superávit primário, juros elevados e recessão econômica. Ruptura essa indispensável para realização das mudanças (Gonçalves, 2003).

Lutar somente pelo crescimento econômico na linha atual significa a defesa do status quo. Dessa maneira é mais sensato implementar reformas estruturais e buscar novas formas menos elitistas de desenvolvimento ou, quem sabe, até esquecermos o crescimento econômico realizando apenas uma melhor distribuição de renda no Brasil, de tal sorte a eliminarmos a miséria, a fome, a exclusão e a injustiça.

O objetivo principal é tentar atenuar e “eliminar”, através de reformas, os principais defeitos do capitalismo brasileiro. Uma mobilização popular e organizada se faz necessária, para forçar e lembrar o governo petista qual o lado o elegeu, pois como afirma Marilena Chauí (2003) citando Espinosa: um direito não é algo concedido, mas algo que é conquistado e conversado, porque ele é poder. A construção e implementação de um projeto nacional claramente identificado com os interesses do povo brasileiro, com a utilização dos recursos primordialmente para melhorar a situação dos pobres e excluídos não virão de uma decisão do Estado.

O projeto de “modernização” no terceiro mandato de FFFHHH, ou seja, no governo LULA é um projeto de modernização conservadora que na sua realização exige mais capital internacional, mais liberdade e menos Estado e conseqüente redução do gasto social. Um projeto que exige que todos sejam mais eficientes, mais produtivos, mais econômicos e mais gananciosos. Enquanto isso cria cada vez menos emprego, os ricos ficam mais ricos e o contingente de pobres aumenta. O gasto público é elevado à condição de bode expiatório de todos os males e se pratica altíssimas taxas de juros que impõe limites à vida dos governos em todas as esferas (União, Estados e Municípios) originando a grande crise do setor público devido à política econômica equivocadamente escolhida.

O Brasil que necessita de justiça social, prosperidade e democracia, com a “modernidade” ressalta as vantagens do mercado livre, da terceirização, da automação, da economia de mão-de-obra e da necessidade dos trabalhadores se aposentarem mais tarde. Por outro lado, execra o déficit público, luta pela diminuição da carga tributaria e questiona os benefícios sociais. O mundo dos liberais recomenda que sejamos mais cruéis e impiedosos com os menos capazes, os ineficientes e os excluídos. Problemas como saúde, educação e segurança do cidadão não são considerados problemas graves e emergenciais, podem esperar mais um pouco. Enfatizam as questões econômicas, numa linha de predomínio do econômico sobre o político, o cultural e o social. Um discurso vulgar e mal fundamentado. Discussão liderada pelas elites aculturadas atenta e embevecida pelos termos metropolitanos e que não entende direito e com realismo os problemas do Brasil (Sayad, 1999).

Concluindo gostaria de deixar a mensagem de Maria da Conceição Tavares (1999:73) para qual: “O Brasil é um país continental, tem potencialidades de desenvolvimento, tem condições objetivas que independem do capital especulativo, que independem da globalização. Tem condições de dar alimentação, vestuário, calçado, escola e um mínimo de saúde e seguridade social à sua população. Embora possa levar algum tempo, existem condições objetivas de converter o país em nação, como o fizeram, aliás, vários paises do mundo, nas crises internacionais anteriores e nas situações mais diversas de desenvolvimento e organização social da produção e sistema político”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

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Leituras indicadas

 

QUESTÃO REGIONAL E GESTÃO DO TERRITÓRIO NO BRASIL

Integração econômica e redes logísticas no cone sul

Geopolítica da Amazônia

O processo de mundialização da economia e a divisão internacional do trabalho: globalização e periferia na atualidade Vários texto de boa qualidade.

IMPERIALISMO, GLOBALIZAÇÃO E PÓS-MODERNIDADE

Processo Histórico de Regionalização do Brasil

 

Para entender melhor as desigualdades regionais no Brasil necessário se faz avaliar o processo histórico em que se geraram as diferenças de desenvolvimento regional no País. Resultado da expansão comercial européia (portuguesa), a ocupação e o povoamento do Brasil se deram por meio de surto de atividades exportadoras que, sucedendo-se ao longo do tempo, foram fixando populações em diferentes pontos do território nacional. Sob o compasso do comportamento do mercado externo no tempo do colonialismo português, a base econômica de uma região era suplantada pela de outra região, de tal forma que a formação histórica brasileira é marcada pela descontinuidade espacial e temporal, com reflexos profundos nas relações regionais.

O Nordeste, graças à cana-de-açúcar, foi a região que mais acumulou capital nos séculos XVI e XVII. No século seguinte, essa posição foi ocupada pelo estado de Minas Gerais, devido à mineração do ouro e pedras preciosas. A partir do século XIX, foi a vez do Rio de Janeiro (a então capital do País) e São Paulo por causa do cultivo e exportação do café. Com as outras regiões em crise ou em estagnação, essa atividade estabeleceu as bases da concentração do capital e, por conseqüência, da industrialização. Daí o surgimento das atuais desigualdades regionais.

Segundo Tânia Bacelar , os principais fatos que colaboraram para transformar o país a partir das décadas finais do século XIX, foram: a abolição da escravidão, a intensa urbanização e o rápido desenvolvimento industrial. De um país rural, escravocrata e primário-exportador, o Brasil transforma-se em uma nação urbano-industrial.

Na história brasileira aconteceram vários ensaios de industrialização, amparados tanto por uma conjuntura mundial favorável (Primeira Grande Guerra e a Grande Depressão) e pela crescente prosperidade do café. Portanto, não demorou para que o Estado de São Paulo promovesse, em poucas décadas, um intenso processo de substituição inter-regional de importações, pondo em xeque os esforços industrializantes de regiões como o Sul. No entanto, foi em meados da década de 1960, sob os auspícios de governos ditatoriais militares com a meta de transformar o país em uma potência mundial através de investimentos externos, que o Sudeste (leia-se São Paulo) acabou por consolidar sua hegemonia na matriz produtiva nacional, permanecendo as demais regiões como elos subalternos.

De acordo com Bacelar , essa moderna e ampla base industrial, ao concentrar-se, fortemente, na região Sudeste, respondia, em 1970, por 81% da atividade industrial do país. Apenas o estado de São Paulo, gerava 58% da produção da indústria existente. Na medida em que o mercado nacional se integrava, a indústria buscava novas localizações, desenvolvendo-se especialmente, devido aos incentivos fiscais, nas áreas metropolitanas das regiões menos desenvolvidas do país como Salvador, estado da Bahia; Recife, estado de Pernambuco e Fortaleza, estado do Ceará. Mas o desenvolvimento sempre se concentrou no eixo Sudeste-Sul.

Nos anos 1990, devido às importantes transformações ocorridas no contexto mundial, o ambiente econômico brasileiro sofre grandes mudanças. Dentre as principais destacam-se uma política de abertura comercial intensa e rápida, a priorização à chamada "integração competitiva", reformas profundas na ação do Estado e finalmente a implementação de um programa de estabilização da moeda nacional, o Real, iniciado em meados de 1994, com um plano econômico que leva o mesmo nome.

Paralelamente, o setor privado promove uma reestruturação produtiva também intensa e muito rápida. Tende-se a romper o padrão dominante no Brasil das últimas décadas, onde a prioridade era dada à montagem de uma base econômica que operava essencialmente no mercado interno (embora fortemente penetrada por agentes econômicos transnacionais) e que ia lentamente desconcentrando atividades em espaços periféricos do País.

O Estado Nacional jogava um papel ativo nesse processo, tanto por suas políticas explicitamente regionais, como por suas políticas ditas de corte setorial/nacional e as ações de suas estatais (siderurgia, eletricidade, telefonia) com recursos destinados à investimentos (o Estado empresário). No presente, as decisões dominantes tendem a ser as do mercado (o Estado indutor), dada a crise fiscal e as novas orientações governamentais de cunho neoliberal, ao lado da evidente indefinição e atomização que tem marcado a política de desenvolvimento regional no Brasil.

Bacelar acredita que, embora as tendências ainda sejam muito recentes, alguns estudos têm convergido para sinalizar a interrupção do movimento de desconcentração do desenvolvimento na direção das regiões menos desenvolvidas. No caso da indústria, dados recentes permitem indicar mais uma vez que, assim como ocorreu em meados da década de 60, existe uma tendência à concentração do dinamismo em determinados espaços do território brasileiro. Segundo a autora, trabalhos recentes localizaram os atuais centros urbanos dinâmicos do país em termos de crescimento industrial. Das 68 aglomerações urbanas com intenso dinamismo industrial recente, 79% estão situadas nas regiões Sul/Sudeste, 15% na região Nordeste e apenas 6% nas regiões Norte e Centro-Oeste. As economias de aglomeração retiram as maiores Regiões Metropolitanas, Rio e São Paulo (a última com população de 18 milhões de habitantes), desse dinâmico foco industrial, mas a Região Metropolitana de São Paulo concentra cada vez mais o comando financeiro da economia nacional.

Em suma, segundo Bacelar22, a história econômica das regiões brasileiras se confunde com a história da industrialização do País e da constituição e consolidação do mercado interno brasileiro. Nesses processos, foi tomando forma uma divisão inter-regional de trabalho e, em conseqüência, foram se definindo estruturas produtivas e papéis diferenciados para cada região no interior da economia nacional, com repercussões sobre o desenvolvimento econômico e as condições de vida nas distintas regiões.

Bons textos para leituras com plementares

 

 

 

TENDÊNCIAS ATUAIS DAS MIGRAÇÕES INTERNAS NO BRASIL

REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E PRODUÇÃO DO ESPAÇO: O CASO DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA INSTALADA NO BRASIL

MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA NO BRASIL: IMPACTOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E AMBIENTAIS.

LUTA PELA TERRA  E MODERNIZAÇÃO DA AGRICULTURA

Desenvolvimento rural no Brasil: os limites do passado e os caminhos do futuro 

TENDÊNCIAS ATUAIS DAS MIGRAÇÕES INTERNAS NO BRASIL

18 de setembro de 2008

Reservas de petróleo atingem 12,6 bilhões de barris

20 DE FEVEREIRO DE 2008 - 10h27

 

O Brasil fechou 2007 com reservas provadas de 12,6 bilhões de barris de petróleo e reservas totais de 16,887 bilhões de barris de petróleo se forem acrescidas as reservas prováveis, que é o petróleo encontrado nos campos em fase de desenvolvimento da produção ou que ainda estão em fase de dimensionamento mas que ainda não têm sua viabilidade comercial confirmada.

Na comparação com 2006, as reservas totais caíram 7,6% entre um ano e outro. Os números incluem o petróleo em campos sob concessão da Petrobras e de outras petroleiras, como Shell, Devon, Anadarko, Statoil e Repsol, sem citar as menores proprietárias de campos maduros em terra.

Já as reservas de gás somavam 370 bilhões de m3, o que equivale a quase 13 trilhões de pés cúbicos (TCFs), medida internacionalmente utilizada para dimensionar as reservas do combustível. Os dados foram divulgados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).

As reservas listadas não incluem o petróleo encontrado no campo de Tupi e Júpiter, na bacia de Santos e nem outras descobertas da Petrobras no pré-sal. Essas estão em fase de avaliação, não tiveram a comercialidade declarada pela estatal e só podem ser consideradas reservas prováveis. Entre 2006 e 2007 as reservas provadas aumentaram em 442 milhões de barris de óleo e 17 bilhões de m3 de gás.

O Rio continua na frente no ranking de reservas brasileiras de óleo e gás, com reservas provadas de 10,17 bilhões de barris de petróleo e 167,91 bilhões de m3 de gás natural, com destaque para a bacia de Campos, que continua líder em reservas. E as reservas totais eram de 14,3 bilhões de barris de óleo e 272 milhões de m3 de gás .

No Espírito Santo, as reservas provadas somavam em 31 de dezembro 1,345 bilhão de barris de petróleo e 38,73 bilhões de m3 de gás. Somando-se reservas dos campos que ainda não começaram a produzir, as reservas totais do Estado eram de 2,47 bilhões de barris.

A Petrobras informou nesta terça-feira (19) que no Brasil foram produzidos 1,826 milhão de barris/dia de petróleo em janeiro, aumento de 2,3% sobre o volume extraído em janeiro de 2007. Na comparação com dezembro, a produção caiu 1,5%, devido à parada para manutenção do oleoduto que interliga as plataformas de Atum e Xaréu, no mar do Ceará, e à saída do navio-plataforma Seillean do Campo de Golfinho (ES) para Marlim Leste, na bacia de Campos (RJ).

Somando-se os resultados no Brasil e exterior, a produção média de petróleo e gás da Petrobras em janeiro foi de 2,117 milhões de barris de óleo e gás por dia. O consumo de combustíveis no Brasil também aumentou 7,57% em 2007.

Fonte: Valor Econômico

A Amazônia e o projeto nacional de desenvolvimento sustentado

 

Uma política de desenvolvimento sustentado deve buscar, a um só tempo, desenvolver a região, elevar o nível de renda de sua gente e assegurar a soberania do país sobre a Amazônia

Em memória de Ajuricaba, que signigfica “abelha feroz” e indica uma pessoa que não tolera a inércia

Eron Bezerra

A Amazônia global tem uma área de 7,8 milhões de km2 e está distribuída em nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa). A parte brasileira é representada pela Amazônia Legal, região político-administrativa instituída pela lei 1.806/1953, abrangendo os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e a parte do Maranhão a oeste do meridiano 44º de longitude oeste. Ela possui uma área de 5.217.423 km2 (61% do país), onde reside uma população estimada de 23 milhões de pessoas (12% do total), cuja densidade demográfica oscila entre 1 e 16 habitantes por km2. Como esta população é predominantemente urbana, algumas áreas rurais ostentam densidade demográfica de menos de 0,25 habitantes/km2.

Nessa região está concentrada a maior biodiversidade do planeta, extraordinária reserva mineral (gás, nióbio, ferro, petróleo, ouro, cassiterita etc), em torno de 20% de toda a água doce do planeta, 25 mil km de vias navegáveis e a maior floresta tropical úmida do mundo, algo como 350 milhões de hectares.

Como se pode constatar, na Amazônia há abundância dos três elementos essenciais à vida e à sua propagação: água, calor e espaço físico, o que a transforma, portanto, no último grande espaço vital “disponível” da terra, na medida em que as demais grandes áreas do planeta estão densamente povoadas ou submetidas a condições climáticas extremas, como desertos e geleiras – o que as torna inabitáveis em condições normais.

A singularidade da região, associada a esse conjunto de atrativos, tem feito com que a Amazônia seja alvo permanente de cobiça internacional. A tática e os argumentos variam com o tempo, mas a pretensão de uma “gestão compartilhada” sobre a Amazônia sempre esteve presente em todos os momentos.

Internacionalização – as principais táticas usadas pelo imperialismo

A bandeira do ambientalismo, para o imperialismo, nunca foi uma luta ambiental. Serve para justificar sua pretensão hegemônica.

A Amazônia sempre foi vista como reserva estratégica do imperialismo. Ações nesse sentido vão desde a organização da “Companhia Comercial Brasileira de Colonização, Agricultura, criação de gado, fabricação de sal e minerais” – criada em Londres, em 1832, para atuar no Norte do Brasil – até a recente declaração do presidente da Alemanha, Horst Kohler, por ocasião de sua visita ao Brasil em 2007, defendendo uma gestão compartilhada da Amazônia.

Para viabilizar seu objetivo o imperialismo já recorreu desde a tática militar até a ciência, passando por “missões religiosas”, pela “defesa” de povos oprimidos e a defesa do meio ambiente. De maneira geral combina mais de uma forma de pressão e, em cada momento, uma determinada tática assume a centralidade. Hoje, a questão ambiental, especialmente a “teoria do bloqueio”, assume a centralidade.

No século XIX a centralidade era a ocupação militar. Os insurgentes cabanos foram formalmente procurados pelo império britânico no sen tido de separarem a Amazônia do Brasil em troca de proteção militar e apoio material. Recusaram. Fracassada a tática militar, surge a “teoria do arrendamento”, através do Bolivian Sindicate, pelo qual a região do Acre passaria ao controle americano. O povo da região, em armas, pôs fim a esta pretensão.

A ciência, então, passa a ser o pretexto. Surge a idéia do Instituto da Hiléia, um organismo supranacional encarregado de “estudar” a Amazônia, onde o Brasil só teria um voto. A teoria de que a Amazônia seria o “pulmão” do mundo justificaria ela ser tratada como “patrimônio da humanidade”, em decorrência de sua elevada complexidade e papel preponderante no equilíbrio ambiental do planeta. Embora a ciência tenha desautorizado tais “certezas cientificas”, a verdade é que a bandeira da Amazônia como “patrimônio da humanidade” nunca mais saiu de pauta. E hoje é esposada, por ignorância teórica ou propósitos inconfessáveis, até por gente que se reivindica de “esquerda”.

Quando as queimadas se intensificaram, na década de 1970, a tática central passou a ser a questão ambiental. A bandeira da Amazônia como “patrimônio da humanidade”, ganhou ares de imprescindibilidade. Diversos “especialistas” passaram a defender que a Amazônia não teria capacidade de suportar “pisoteio humano” e as queimadas eram as responsáveis pelo aquecimento global. Sugeriam, na prática, que a Amazônia fosse “desocupada”. É a síntese da “teoria do bloqueio”, cujo objetivo é impedir toda e qualquer utilização de seus recursos naturais, até mesmo para projetos de elevado interesse social e de reduzido impacto ambiental.

Hoje, mesmo demonstrada a fragilidade científica dessa opinião, o imperialismo não desiste. Volta com a tese do “arrendamento” de áreas amazônicas e desta feita é vitorioso, na medida em que leis neste sentido, de autoria do Ministério do Meio Ambiente, já foram aprovadas em Brasil, Peru e Colômbia.

Como se pode constatar, a bandeira do ambientalismo, para o imperialismo, nunca foi uma luta ambiental. Serve para justificar sua pretensão hegemônica.

Principais correntes que polemizam a Amazônia

Daí por que ser fundamental a compreensão de quais correntes de pensamento polemizam a Amazônia, na medida em que nem todas buscam efetivamente a sua sustentabilidade. Esse debate nunca foi desapaixonado. Tem sido até mesmo irracional, mesclando visões de classe distintas com “conceitos” ambientais corretos ou de eficácia duvidosa e que, em última análise, servem apenas para “justificar” a visão de classe à qual se filia o autor em questão ou para camuflar os reais interesses desses grupos.

Grosso modo, estes polemistas se agrupam em três correntes básicas: os “desenvolvimentistas”, entendidos como o grupo que enfatiza exclusivamente o crescimento econômico; os “santuaristas”, para quem a preservação é tudo e o crescimento econômico nada; e os “sustentabilistas”, fruto do entrechoque dessas correntes que sustentam ser, mais do que possível, imprescindível conciliar o crescimento econômico com a preservação ambiental.

A intocabilidade da Amazônia, como advogam os adeptos do santuarismo, é uma tese tecnicamente insustentável e politicamente reacionária, na medida em que favorece a histórica pretensão do imperialismo de dispor desses recursos como reserva estratégica. Mesmo assim até hoje encontra adeptos, que tenderão a se multiplicar na mesma proporção da intensificação do debate em torno da escassez de água e do aquecimento global, as duas principais tragédias ambientais anunciadas, embora nem sempre haja concordância dos cientistas sobre esses diagnósticos.

A maioria dos especialistas converge para um cenário de absoluta escassez de água nos próximos 20 anos, o que torna a bacia hidrográfica amazônica – a maior do mundo – num bem de elevado valor monetário e geopoliticamente estratégico, conforme ilustra o “mapa da escassez mundial de água”, do International Water Managment Institute.

Se há relativo consenso quanto à escassez de água, há muita polêmica no que diz respeito à causa real da elevação da temperatura do planeta terra.

Ninguém questiona o fato de a temperatura média ter aumentado. Mas, enquanto um grupo de pesquisadores e ativistas, aglutinados em torno do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), responsabiliza a elevada concentração de gases de efeito estufa na atmosfera como a responsável por esta catástrofe, vários outros cientistas e ativistas apresentam como causa principal das alterações climáticas as variações da própria atividade solar. Os defensores dessa teoria apresentam, em socorro de suas opiniões, evidências de que outros planetas do sistema solar – como Marte, Júpiter, Saturno e Plutão – também experimentaram elevação sazonal de temperatura de até 10º Celsius. Sustentam, ainda, que após a Segunda Guerra Mundial verificou-se um aumento significativo de emissões de dióxido de carbono e, contudo, a temperatura média global baixou durante quatro décadas seguidas, a partir de 1940. E lembram, por fim: os que hoje fazem alarido em torno do aquecimento global são os mesmos que alardeavam a eminente catástrofe do “esfriamento global” nos anos 1970.

Mas, independentemente das “certezas ou incertezas” científicas, esse é o debate ambiental do momento. E, como sempre, tem muito mais de geopolítica do que ciência. Cito cinco exemplos ilustrativos.

1) Na Colômbia e no Peru estão tramitando projetos de leis que visam a “arrendar” as bacias hidrográficas, não apenas a concessão de água. Fica evidente a pretensão do imperialismo de controlar esses mananciais;

2) o pesquisador Ilse Aben, do Instituto Holandês para Pesquisa Espacial, acaba de “concluir” que 50% da concentração de monóxido de carbono (CO) na atmosfera da Austrália são produzidos pelos incêndios nas florestas da América do Sul. Lamenta não poder precisar quanto vem do Brasil (!!!);

3) o planeta Terra produz 49 bilhões de toneladas/ano de gás carbônico (CO2) ou 7,5 tonelada/pessoa, considerando-se 6,5 bilhões de habitantes. Acontece que enquanto um americano ou europeu é responsável por algo como 17 toneladas dessa poluição, um brasileiro ou chinês não chega sequer a três toneladas. Mesmo assim os “ricos” exigem, para reduzirem suas emissões, que os países em “desenvolvimento”, especialmente Brasil e China, reduzam na mesma proporção. Não querem competidores. O encontro do G8, recém-concluído na Alemanha, remete para até 2050 a data-limite para os países ricos adotarem medidas para reduzir em 50% suas emissões de CO2. O mundo perde, enquanto Bush agradece;

4) estima-se que a Amazônia emite 200 milhões de toneladas/ano de gás carbônico (0,4% da emissão total) e seqüestra, pela ação de sua floresta tropical, 350 milhões de toneladas desse gás da atmosfera. O saldo é de 150 milhões de toneladas. Significa que a Amazônia limpa e não polui o meio ambiente, como de maneira geral nós somos levados a acreditar pela propaganda unilateral;

5) hoje, na Amazônia, há vários programas de “desenvolvimento sustentado”: o programa piloto de demarcação de terras indígenas; o programa de manejo florestal; o programa de manejo de várzeas; dentre outros. São programas oficiais do governo brasileiro voltados para comunidades indígenas, florestais e ribeirinhas. Seus relatórios e conclusões servem de base para a opinião ofi liFica cial do governo bem como para a definição de suas estratégias nos diversos campos de atuação, especialmente na questão ambiental. As pessoas envolvidas nesses programas circulam livremente pela Amazônia com a chancela legal do poder público. Mas todos esses programas são financiados por organismos multilaterais, por agências estrangeiras. Estão sob o guarda-chuva do PPG7 (um programa piloto do grupo dos sete países mais ricos). Entre os maiores financiadores estão os seguintes: CI (Conservation International, Estados Unidos); DFID (Department for International Development); GTZ (Cooperação Alemã para o Desenvolvimento); JBIC (Japan Bank for International Cooperation); KFW (Banco Alemão para o Desenvolvimento); e WWF (World Wildlife Fund).

A lógica desse programa, do ponto de vista oficial, é o desenvolvimento sustentável e a conseqüente diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Do ponto de vista extra-oficial o que anima essas agências é a difusão de idéias e visões que sustente a tese de que a Amazônia é patrimônio da humanidade.

Colonização, Potencial Econômico e a alternativa para a Amazônia

A ocupação da Amazônia geralmente se deu de forma predatória e agressiva, em conformidade com a lógica capitalista. As primeiras tentativas de colonização da área ocorreram em 1541-42, 1560-61, 1637-39 e, finalmente, em 1669.

Segundo historiadores, havia uma grande população nativa na região, algo como sete milhões de “índios”, cuja diversidade étnica pode ser mensurada pelos 700 idiomas que ali se falavam. Os 250 mil “índios” sobreviventes ainda hoje falam em torno de 250 idiomas diferentes.

Inicialmente as tropas portuguesas foram duramente rechaçadas pela “confederação dos povos do Rio Negro”, aglutinados em torno da consígnia de que “esta terra tem dono” e da liderança do cacique Ajuricaba, que se notabilizou pela altivez com que combateu o invasor até o último dia de sua vida. Ao ser finalmente preso e acorrentado no convés de um navio para ser conduzido a julgamento, ele se lançou às águas do Rio Negro bradando: “prefiro a morte à escravidão”.

No período de 1655 a 1850 a região recebeu as primeiras levas de migrantes nordestinos. A partir de 1870 esse fluxo se intensificou e atraiu também, em menor proporção, judeus e árabes. Os nordestinos se fixaram às margens dos grandes rios e, do ponto de vista econômico, se dedicaram fundamentalmente ao extrativismo. Os judeus e árabes ao comércio fluvial: o popular “regatão”. Há uma grande abundância de recursos até por volta de 1910. A partir de então se inicia um longo período de declínio na produção de borracha na região, em decorrência da alta produtividade dos seringais de cultivo da Malásia, implantados a partir da biopirataria de nossas sementes.

Com o advento da 2ª guerra mundial e o controle da Malásia pelo ”eixo”, os “aliados” ficaram sem suprimento de borracha. Milhares de nordestinos, então, foram enviados à Amazônia como “soldado da borracha” para assegurar o fornecimento dessa matéria-prima ao “esforço de guerra”. Tenta-se, novamente, soerguer o que se convencionou chamar de “ciclo da borracha”, caracterizado por larga expansão econômica e brutal concentração de renda em torno de alguns “coronéis de barranco”. Mas, com o fim da guerra e o restabelecimento do fluxo de suprimento da Malásia, a Amazônia entra novamente num longo período de estagnação econômica.

Diante desse quadro o governo central, na década de 1950 e 1960, lançou mão de instrumentos como a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), Superintendência da Borracha (SUDHEVEA) e Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) na tentativa de criar uma alternativa econômica para a região.

Os projetos da Sudam fracassaram, com raras exceções, pelos sucessivos escândalos de corrupção e o enorme impacto ambiental, num momento em que a legislação ambiental ainda se estruturava e havia uma forte predominância das correntes “santuaristas”.

A SUDHEVEA não conseguiu desenvolver seringais de cultivos, tanto por insuficiência técnico-científica quanto por pressão ambiental. Desapareceu, após sucessivos fracassos, sem que se questionasse sequer a que tinha vindo.

Dos três empreendimentos a Suframa foi o único que obteve pleno êxito. Consolidou em Manaus um grande parque industrial, bastante diversificado, tem partilhado boa parte de seus recursos com estados e prefeituras da Amazônia, especialmente a parte ocidental, e ajudou a fazer do Amazonas o estado economicamente mais forte da região, embora seja a unidade nacional com menor índice de desmatamento (2%).

Os demais estados, sem opção econômica, recorreram fundamentalmente a seus recursos naturais, nem sempre utilizados de forma ambientalmente adequada, para assegurarem a geração de renda e trabalho à sua população.

A base econômica dos estados da região se assenta no extrativismo de espécies vegetais e/ou de recursos minerais. A produção agropecuária – cujo nível de intensidade é bastante distinto entre os estados – representa a outra base econômica comum aos estados. O Amazonas é o único da região cuja base econômica é eminentemente industrial, em decorrência do pólo eletro-eletrônico da Zona Franca de Manaus.

Mas a Amazônia, até por ser o “último espaço vital do planeta”, dispõe de extraordinários recursos hídricos, florestais, minerais, piscosos, fototerápicos e uma biodiversidade sem precedentes. Urge tirar conseqüência disso. Sem prescindir de um rigoroso controle ambiental, é preciso utilizar esses recursos para assegurar o pleno desenvolvimento da região e elevar o padrão de vida de sua gente.

A utilização de ferro, nióbio, petróleo, gás, silvinita e outros minerais que brotam na Amazônia é uma necessidade econômica e política. Mas é preciso ter presente a importância da industrialização dessa matéria-prima no local onde ela é produzida, sob pena de não agregar valor e tampouco desenvolver a região. A “serra do navio” e o seu manganês desapareceram sem que se estruturasse qualquer base econômica no Amapá. Fenômeno semelhante pode ocorrer com o Pará se o minério de ferro da “serra dos Carajás” não for processado e industrializado na região através de siderúrgicas. Assim como o Amazonas não pode prescindir de uma planta de petroquímica para verticalizar a sua produção de petróleo e gás.

Ademais, é fundamental que se conclua a construção dos gasodutos Coari-Manaus e Coari-Porto Velho e se intensifique a pesquisa na busca de novas reservas de gás e petróleo na Amazônia, região geologicamente propensa à concentração de minerais fósseis.

O potencial madeireiro, expresso em mais de 3,5 milhões de km2 de floresta tropical e adequadamente manejado a partir de estudos científicos desenvolvidos pelo Inpa e a Embrapa, pode transformar a Amazônia num centro de referência na fabricação de móveis de alto valor agregado em decorrência do apelo amazônico.

Segundo estudos oficiais, o potencial hidroenergético da região seria da ordem de 70.000 mW, dos quais menos de 10% estão explorados, o que pode convertê-la, novamente, num grande centro de produção de energia limpa. Nesse particular é preciso rigor na localização dessas usinas, restringindo-as a áreas de elevada cota topográfica para evitar inundações irracionais como ocorreu na hidroelétrica de Balbina no Amazonas.

O mundo tem fome e a Amazônia tem a solução: o fornecimento de peixe. O nosso potencial pesqueiro é estimado em mais de 3.000 espécies, entre comestíveis e ornamentais, dos quais em torno de 40% já catalogados pela ciência. Ademais a criação de peixes e o seu manejo em lagos naturais aumentam enormemente esse potencial. A implantação de “entreposto de salgamento”, de fábricas de enlatados, e outros procedimentos que visem à agregação de valor permitem à Amazônia assumir o compromisso de pôr fim à fome do mundo. Não é utopia.

A produção de alimentos agrícolas pode ser feita sem a necessidade de agredir a floresta, na medida em que a região possui mais de 25 milhões de hectares de várzea – terras com fertilidade equivalente às do mitológico rio Nilo. Essa área é suficiente para produzir algo como 50 milhões de toneladas de alimentos, o que representaria mais ou menos 70% da produção nacional. Nesse campo deve merecer atenção especial o desenvolvimento da agroindústria e da eco-indústria (óleos comestíveis, palmeiras, castanha, polpas, sucos, sorvetes, refrigerantes, óleos e essências aromáticas, corantes etc).

O aprofundamento do conhecimento científico e tecnológico para utilizar adequadamente a nossa extraordinária Biodiversidade é, sem dúvida, o nosso maior e mais promissor desafio. Indústrias de química fina e de cosmético podem e devem ser à base de uma planta industrial amazônica, onde disporão de farta matéria-prima.

E se poderia falar, igualmente, de seu inquestionável potencial turístico, tanto pelo apelo ambiental que a região naturalmente desperta, quanto por sua exoticidade. É uma área onde já se desenvolvem algumas experiências exitosas.

Esse conjunto de medidas, sem prejuízo de outras ações, deve fazer parte de uma política de desenvolvimento sustentado que busque, a um só tempo, desenvolver a região, elevar o nível de renda de sua gente e assegurar a soberania do país sobre a Amazônia.

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Eron Bezerra é engenheiro agrônomo, professor da Universidade Federal do Amazonas, deputado estadual, Secretário Estadual de Agricultura do Amazonas e membro do Comitê Central do PCdoB.

17 de setembro de 2008

OS BIOCOMBUSTÍVEIS, O ETANOL E A FOME NO MUNDO

 

No primeiro caso, estão as preocupações de caráter ambiental que derivam da crescente busca para a redução de emissões de gases que aceleram o efeito estufa. Quanto aos governos, a segurança energética relaciona-se com a redução da dependência da importação de petróleo, bem cada vez mais escasso e cujos principais países exportadores encontram-se em regiões com freqüentes instabilidades políticas. É nesse contexto que a experiência brasileira no uso do álcool derivado da cana-de-açúcar desperta a atenção mundial.
O Brasil está, há pelo menos três décadas, na vanguarda da corrida dos biocombustíveis, em decorrência não só da enorme quantidade de terras e recursos hídricos disponíveis, como também por seu domínio tecnológico na produção de cana, a mais importante das matérias-primas utilizadas para produzir açúcar, etanol e eletricidade de forma competitiva.
A decisão dos governos dos Estados Unidos (EUA) e dos países da União Européia (UE) em pelo menos duplicar o seu consumo de biocombustíveis nos próximos anos não só acirrou inúmeros interesses, como também ensejou grandes polêmicas.
Uma das principais polêmicas é aquela que discute o impacto que o crescimento das culturas agrícolas ligadas à produção de biocombustíveis causariam à produção de alimentos. De início deve-se ressaltar que a importância dos combustíveis de origem agrícola no mercado global de energia é pequena, visto não representarem mais do que 1% da produção de combustíveis fósseis.
Mas, o crescente impacto do boom agroenergético tem afetado, de forma mais ou menos significativa, certos mercados agrícolas, especialmente o do milho, a principal matéria prima usada para produção de etanol nos EUA. A produção norte-americana do etanol já consome cerca de 20% do milho produzido no país e esta cultura vem avançando gradativamente sobre áreas de outros plantios, especialmente os dedicados à soja. Isso tem ocasionado aumento dos preços de certos produtos agrícolas e causado desequilíbrios na estrutura dos mercados agropecuários (especialmente os de rações), além de afetar as exportações (os EUA são os maiores exportadores mundiais).
Já o impacto da expansão da agroenergia nos mercados agrícolas é muito menor em países como o Brasil, que produzem álcool a partir da cana. Mais eficiente que o milho ou qualquer outra cultura agrícola, a produtividade da cana é duas vezes maior que a do milho e seu custo de produção é 30% menor.
Do total de terras aráveis do Brasil (aproximadamente 340 milhões de hectares), cerca de 2,0% são usadas para o cultivo de cana, metade delas dedicadas à produção de etanol. A cultura da cana deverá se ampliar nos próximos anos às custas das terras dedicadas ao plantio de soja (cerca de 6,0% das terras aráveis) e milho (3,2%) e também sobre as áreas de pastos que correspondem a quase 60% das terras aráveis. Mas, não há certeza que, em algumas áreas, a cana não possa se expandir em detrimento a algumas culturas alimentares. Daí, a ferrenha oposição setores da sociedade em relação a essa expansão.
Estimativas para a safra de cana de 2007/2008 indicam que ela crescerá 15% em relação a de 2006/2007 e o aumento se verificará em quase todas as unidades federativas. Os estados que apresentarão o maior crescimento porcentual serão a Bahia (75,9%) e Tocantins (73,5%). Todavia, em volume, a produção de cana é bem concentrada. Cerca de 85% dela verifica-se no Centro-Sul, com destaque para São Paulo com aproximadamente 70% do total regional. O Paraná (porção norte), Minas Gerais (região do Triângulo Mineiro), Mato Grosso Sul (leste) e centro-sul de Goiás completam o quadro.
Há estudos em andamento no Ministério da Agricultura no sentido de se estabelecer um zoneamento agroecológico do setor sucroalcooleiro cujo objetivo seria o de definir as áreas disponíveis para a ampliação da produção levando em conta não só os índices de produtividade, mas também os impactos ambientais e socioeconômicos dessa expansão.
Os EUA e o Brasil são, nessa ordem, os maiores produtores mundiais de etanol, sendo os norte-americanos os maiores importadores do produto e nosso país o maior exportador. Todavia, o Brasil não possui as limitações de expansão de área cultivada como os EUA, já que a cana pode, a princípio, se expandir especialmente em áreas de cerrado, que tradicionalmente têm sido utilizadas para pastagens ou produção de soja. O Brasil, por exemplo, poderia produzir 132 milhões de litros de etanol, volume necessário para substituir 15% da gasolina nos EUA, com cerca de 30 milhões de hectares de cana-de-açúcar, o triplo da área atual de cana, porém apenas 10% da nossa reserva de pastagens.
Se produzida com alta tecnologia, a agroenergia representa uma extraordinária oportunidade para os países subdesenvolvidos da América Latina, África e parte da Ásia. O Brasil, em particular, tem uma chance de ouro para estar à frente dos demais países no contexto global da bioenergia, buscando consolidar o álcool (e também o biodiesel) como commodities globais, produzidas de forma ambiental e socialmente correta.
A expressiva alta dos alimentos nos últimos dois anos e a crise alimentar que vem afetando muitos países pobres como o Haiti, Burkina Fasso, Níger, entre outros levou vários especialistas ligados a organismos multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a afirmar que esses problemas, que poderiam se alastrar por outros países eram causados pela expansão dos cultivos dedicados a produção de biocombustíveis (o etanol em particular) em detrimento daqueles dedicados a alimentação humana. Na verdade, o problema tem como causas uma combinação de fatores que atuam de forma diferenciada em vários países.
Genericamente seriam cinco os principais fatores que explicam, em termos mundiais, a situação atual. O aumento da produção de biocombustíveis e a manutenção dos subsídios agrícolas em países ricos, como os EUA e países da UE. O aumento dos custos da produção agrícola como decorrência do aumento do petróleo e dos fertilizantes. O forte incremento do consumo de alimentos por parte de países emergentes de grande população como são os casos da China, Índia, Brasil e México. A quebra de safras em vários países produtores de grãos cujo exemplo mais evidente é o da Austrália, atingida por secas prolongadas nos últimos anos. A crise financeira dos EUA que levou investidores a apostar em contratos de mercadorias, contribuindo também para o aumento de preços dos alimentos.

Nelson Bacic Olic
Revista Pangea, 29/4/2008

NAÇÃO ATIVA, NAÇÃO PASSIVA

 

A globalização atual e as formas brutais que adotou para impor mudanças levam à urgente necessidade de rever o que fazer com as coisas, as idéias e também com as palavras. Qualquer que seja o debate, hoje, reclama a explicitação clara e coerente dos seus termos, sem o que se pode facilmente cair no vazio ou na ambiguidade.
É o caso do próprio debate nacional, exigente de novas definições e vocabulário renovado. Como sempre, o país deve ser visto como uma situação estrutural em movimento, na qual cada elemento está intimamente relacionado com os demais. Agora, porém, no mundo da globalização, o reconhecimento dessa estrutura é difícil, do mesmo modo que a visualização de um projeto nacional pode se tornar obscura. Talvez por isso, os projetos das grandes empresas, impostos pela tirania das finanças e trombeteados pela mídia, acabem, de um jeito ou de outro, guiando a evolução dos países, em acordo ou não com as instâncias públicas, frequentemente dóceis e subservientes, deixando de lado o desenho de uma geopolítica própria a cada nação, que leve em conta suas características e interesses.
Assim, as noções de destino nacional e de projeto nacional cedem frequentemente a frente da cena a preocupações menores, pragmáticas, imediatistas, inclusive porque, pelas razões já expostas, os partidos políticos nacionais raramente apresentam plataformas conduzidas por objetivos políticos e sociais claros e que exprimam visões de conjunto. A idéia de história, sentido, destino é amesquinhada em nome da obtenção de metas estatísticas, cuja única preocupação é o conformismo diante das determinações do processo atual de globalização. Daí a produção sem contrapartida de desequilíbrios e distorções estruturais, acarretando mais fragmentação e desigualdade, tanto mais graves quanto mais abertos e obedientes se mostrem os países.
Tomemos o caso do Brasil. É mais que uma simples metáfora pensar que uma das formas de abordagem da questão seria considerar, dentro da nação, a existência, na realidade, de duas nações. Uma nação passiva e uma nação ativa. A grande ironia vem do fato de que as contabilidades nacionais, sendo globalizadas -e globalizantes!-, o que se passa a considerar como nação ativa é aquela que obedece cegamente ao desígnio globalitário, enquanto o resto acaba por constituir, desse ponto de vista, a nação passiva. A fazer valer tais postulados, a nação ativa seria a daqueles que aceitam, pregam e conduzem uma modernização que dá preeminência aos ajustes que interessam ao dinheiro, enquanto a nação passiva seria formada por tudo o mais.
Serão mesmo adequadas essas expressões? Ou aquilo que, desse modo, se está chamando de nação ativa seria, na realidade, a nação passiva, enquanto a nação chamada passiva seria, de fato, a nação ativa?
A chamada nação ativa, isto é, aquela que comparece eficazmente na contabilidade nacional e na contabilidade internacional, tem o seu modelo conduzido pelas burguesias internacionais e pelas burguesias nacionais associadas. É verdade, também, que o seu discurso globalizado, para ter eficácia local, necessita de um sotaque doméstico e por isso estimula um pensamento nacional associado, produzido por mentes cativas, subvencionadas ou não.
A nação chamada ativa alimenta a sua ação com a prevalência de um sistema ideológico que define as idéias de prosperidade e de riqueza e, paralelamente, a produção da conformidade. A "nação ativa" aparece como fluida, veloz, externamente articulada, internamente desarticuladora, entrópica. Será ela dinâmica? Como essa idéia é muito difundida, cabe lembrar que velocidade não é dinamismo. Esse movimento não é próprio, mas atribuído, tomado emprestado a um motor externo; ele não é genuíno, não tem finalidade, é desprovido de teleologia. Trata-se de uma agitação cega, um projeto equivocado, um dinamismo do diabo.
A nação chamada passiva é constituída pela grossa maior parte da população e da economia, aqueles que apenas participam de modo residual do mercado global ou cujas atividades conseguem sobreviver à sua margem, sem participar cabalmente da contabilidade pública ou das estatísticas oficiais. O pensamento que define e compreende os seus atores é o do intelectual público engajado na defesa dos interesses da maioria.
As atividades dessa nação passiva são frequentemente marcadas pela contradição entre a exigência prática da conformidade, isto é, a necessidade de participar direta ou indiretamente da racionalidade dominante, e a insatisfação e o inconformismo dos atores diante de resultados sempre limitados. Daí o encontro cotidiano de uma situação de inferiorização, tornada permanente, o que reforça em seus participantes a noção de escassez e convoca a uma reinterpretação da própria situação individual diante do
lugar, do país e do mundo.
A "nação passiva" é estatisticamente lenta, colada às rugosidades do seu entorno, localmente enraizada e orgânica. É também a nação que mantém relações de simbiose com o entorno imediato, relações cotidianas que criam, espontaneamente e na contracorrente, uma cultura própria, endógena, resistente, que também constitui um alicerce, uma base sólida para a produção de uma política. Essa nação passiva mora ali onde vive e evolui, enquanto a outra apenas circula, utilizando os lugares como mais um recurso a seu serviço, mas sem outro compromisso.
Num primeiro momento, desarticulada pela "nação ativa", a "nação passiva" não pode alcançar um projeto conjunto. Aliás, o império dos interesses imediatos que se manifestam no exercício pragmático da vida contribui, sem dúvida, para tal desarticulação.
Mas, num segundo momento, a tomada de consciência trazida pelo seu enraizamento no meio e, sobretudo, pela sua experiência da escassez, torna possível a produção de um projeto, cuja viabilidade provém do fato de que a nação chamada passiva é formada pela maior parte da população, além de ser dotada de um dinamismo próprio, autêntico, fundado em sua própria existência -daí sua veracidade e riqueza.
Podemos desse modo admitir que aquilo que, mediante o jogo de espelhos da globalização, ainda se chama de nação ativa é, na verdade, a nação passiva, enquanto o que, pelos mesmos parâmetros, é considerado como a nação passiva constitui, já no presente, mas sobretudo na ótica do futuro, a verdadeira nação ativa. Sua emergência será tanto mais viável, rápida e eficaz se se reconhecerem e revelarem a confluência dos modos de existência e de trabalho dos respectivos atores e a profunda unidade do seu destino.
Aqui, o papel dos intelectuais será, talvez, muito mais do que promover um simples combate às formas de ser da "nação ativa" -tarefa importante, mas insuficiente, nas atuais circunstâncias-, devendo empenhar-se por mostrar, analiticamente, dentro do todo nacional, a vida sistêmica da nação passiva e suas manifestações de resistência a uma conquista indiscriminada e totalitária do espaço social pela chamada nação ativa.
Tal visão renovada da realidade contraditória de cada fração do território deve ser oferecida à reflexão da sociedade em geral, tanto à sociedade organizada nas associações, sindicatos, igrejas, partidos etc., como também à sociedade desorganizada, que encontrará nessa nova interpretação os elementos necessários para a postulação e o exercício de uma outra política, mais condizente com a busca do interesse social.

MILTON SANTOS
Folha de São Paulo, 21/11/1999

POBREZA

 

A Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) pretende ampliar o debate sobre a questão populacional no Brasil. Eles querem fugir da idéia simplista, enraizada nas teorias de Thomas Malthus (1766-1834), de que o excesso de pessoas no mundo causa fome, pobreza e problemas ambientais. O assunto adquiriu maior dimensão quando a Revista Veja publicou, em fevereiro deste ano, em suas páginas amarelas, uma entrevista com o pesquisador Paul Enrlich na qual ele expõe suas convicções neomalthusianas. Esta postura “estreita” tem sido difundida por importantes setores da sociedade brasileira, tanto políticos quanto empresariais, que consideram a redução da fecundidade dos pobres uma saída para muitos problemas sociais. “É uma postura simples, que não requer grandes programas públicos”, afirma George Martini, presidente da Abep.

Martini enumera outros aspectos populacionais que influenciam a estrutura socioeconômica brasileira, como as mudanças na composição da população em termos de idade e sexo, mudanças na força de trabalho e a queda na taxa de fecundidade no país. A esses fatores se relacionam, por exemplo, o envelhecimento da população (e os maiores gastos com saúde e aposentadorias), a maior longevidade das mulheres em relação aos homens e a diminuição na disponibilidade de mão-de-obra. Há, ainda, a questão da distribuição espacial: “quatro em cada dez brasileiros moram em cidades com mais de um milhão de pessoas, mas quando se pensa em políticas ambientais, o foco está nas áreas rurais, embora tal problema esteja concentrado no meio urbano”, avalia.

Paul Ehrlich tem 73 anos e está ligado à Universidade de Stanford, na Califórnia. É autor do controverso best-seller “A bomba populacional” (1968), no qual escreve que a falta de comida causaria a morte de milhões de pessoas nas décadas seguintes. Suas previsões, contudo, não se confirmaram e, desde aquela época, a proporção de famintos em relação à população mundial vem caindo. Na entrevista, Paul Ehrlich sustenta sua tese de que a Terra está chegando ao limite da sustentabilidade da vida humana, com frases de impacto, como "com menos gente no mundo, certamente a pobreza e a fome não teriam grassado e se tornado um fenômeno com as proporções de hoje".

A Abep enviou carta ao diretor de Redação da Revista Veja, aprovada e assinada por 110 pesquisadores, mas a revista preferiu ignorar o repúdio dos especialistas e não divulgou o texto. Ao invés disso, publicou apenas os elogios de dois leitores que concordam com os conceitos do pesquisador. Nas previsões de Ehrlich, a Terra seria um lugar bom para viver com 2 bilhões de habitantes. "O equilíbrio natural seria assegurado se o mundo tivesse apenas 30% dos habitantes de hoje. De acordo com meu estudo, todas elas seriam bem alimentadas e educadas, viveriam em cidades vibrantes, teriam bons empregos e não mais ouviriam falar no desaparecimento da camada de ozônio", enfatiza.

Para quebrar o ciclo catastrófico decorrente do excesso populacional, o pesquisador de Stanford afirma à Veja ser inevitável que os governos intervenham para limitar a venda de produtos cujo consumo excessivo ocasione prejuízos para o meio ambiente, como a gasolina e os derivados de petróleo. Defende ainda a necessidade de se promover uma mudança de hábitos de consumo para evitar o desperdício e manifesta sua crença em políticas de redução da fecundidade, mas admite já ter abandonado idéias como a cobrança de impostos sobre berços e fraldas e a esterilização (por lei) de indianos com mais de três filhos.

No Brasil, segundo Roberto do Carmo, professor do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Nepo/Unicamp), as taxas de crescimento populacional caíram significativamente, o que se deve principalmente ao fato da fecundidade - número médio de filhos por mulher em idade reprodutiva - ter reduzido de seis para dois filhos por mulher. "O Brasil já atingiu o nível de reposição da população, que é de 2,1 filhos. Com essa fecundidade, projeta-se o ‘crescimento zero’ da população brasileira para o ano de 2050". Ele compartilha a opinião de vários cientistas de que o crescimento da população tende a se estabilizar ou mesmo diminuir em todo o mundo, a partir da metade deste século.

Mariana Perozzi
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=3&noticia=80
acesso em 31/03/2006

PECUÁRIA AMEAÇA PANTANAL, AFIRMAM PESQUISADORES BRASILEIROS

 

Como a Amazônia, o Pantanal já teve 17% da sua paisagem natural devastada, mas o drama da planície alagada, assim como o de outras áreas úmidas do Brasil, é praticamente ignorado pelos governos estaduais e federal, afirmam cientistas reunidos em Cuiabá para discutir o futuro dessas regiões.

Segundo Walfrido Tomás, especialista em gestão da biodiversidade da Embrapa Pantanal, a pecuária intensiva está se difundindo no Pantanal, principalmente por meio de pessoas de fora da região, e tem desmatado muito mais do que a tradicional pecuária pantaneira.

"A terra é barata e é óbvio que as pessoas não têm ligação cultural com a paisagem. Elas vêm com capital e a melhor forma de (obter retorno rápido) é desmatar", disse Tomás, em entrevista por telefone à BBC Brasil.

Segundo pesquisadores, a pecuária tradicional é mais compatível com o ecossistema do Pantanal porque o pantaneiro vive de acordo com o ciclo das águas da região, não desmata para plantar pasto artificial e sabe quais plantas podem retirar do pasto natural.

"O Pantanal tem paisagens diversas: cordões arenosos, ilhas de vegetação, é todo mesclado. Quem vem de outras culturas não sabe administrar diferentes unidades de paisagem, precisam uniformizar, desmatam tudo", afirmou Cátia Nunes, coordenadora do programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da UFMT.

Dados da Embrapa de 2004 sugerem que a pecuária intensiva é a grande responsável pela alteração da paisagem do Pantanal. Além da pecuária, outra ameaça à região, destaca Tomás, é a construção das hidrelétricas planejadas para o rio Paraguai. Segundo ele, as usinas podem alterar todo o ciclo hidrológico do principal rio do Pantanal.

Cobrança
Os dois pesquisadores estão entre os cerca de 600 pesquisadores de 30 países que participam da 8ª Conferência Internacional de Áreas Úmidas, prevista para terminar nesta sexta-feira.

O evento foi organizado pelo Centro de Pesquisas do Pantanal, em parceria com a Associação Internacional de Ecologia e a Universidade Federal de Mato Grosso.

No caso do Brasil, além de falar sobre as ameaças os pesquisadores destacaram a falta de uma definição legal e de uma política de preservação dessas áreas.

"As áreas úmidas precisam ser tratadas de forma estratégica e devem ser tratadas pelo valor ambiental que têm. O fato de o Brasil não ter políticas públicas para áreas úmidas é resultado da atitude que nós temos ante a essas áreas, como áreas que 'têm mosquito'. Por isso, as pessoas geralmente drenam", disse Tomás.

De acordo com cálculos apresentados pelo pesquisador Wolfgang Junk, do Instituto Max Plank de Liminologia, na Alemanha, pelo menos 20% da América do Sul é coberta por áreas úmidas.

Representantes do governo do Mato Grosso, incluindo o governador Blairo Maggi, da Agência Nacional de Águas (ANA), e do Ministério da Ciência e Tecnologia participaram de sessões da conferência.

São consideradas áreas úmidas as que têm água de forma periódica ou sazonal. São campos úmidos, lagoas, pequenos córregos, tudo que esteja entre água e áreas secas e que tenha vida biológica ligada à água.

Carolina Glycerio
Da BBC Brasil em São Paulo, 25 de julho, 2008

PAÍS ENVELHECE COM MAIS RAPIDEZ DO QUE SE PREVIA


Taxa de natalidade atingiu 1,8 filho por mulher em 2006, nível esperado para 2043

Com cada vez mais velhos e menos crianças, políticas públicas terão que ser revistas para se adaptar à realidade da população
O envelhecimento populacional brasileiro chegará antes do que se estimava. A divulgação, no início deste mês, da PNDS (Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde) mostrou que o país chegou, em 2006, a uma taxa de fecundidade de 1,8 filho por mulher. O IBGE, em sua estimativa oficial, feita em 2004, previa que esse patamar só seria atingido em 2043.

Nem mesmo projeções da ONU menos conservadoras indicavam uma taxa abaixo de 2,0 antes de 2010. Diante dessa e de outras pesquisas que registraram fecundidade menor, o IBGE revisará suas estimativas.

Mais do que uma simples revisão de um cálculo estatístico, a constatação de que o Brasil terá cada vez mais idosos e menos crianças antes do previsto tem impacto em cálculos de aposentadoria e traz desafios para políticas públicas, que terão que se adaptar a uma estrutura populacional envelhecida.
A demógrafa Elza Berquó, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e coordenadora da PNDS, lembra que as Pnads (Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios, feitas anualmente pelo IBGE) já indicavam que a fecundidade caía num ritmo mais acelerado do que o estimado pelo instituto.
Em 2004, a taxa chegou ao nível de 2,1 filhos por mulher, patamar que indica tendência de reposição populacional e que, pelas estimativas do IBGE, só seria atingido em 2014.

"O movimento de transição da fecundidade se iniciou há 40 anos e os dados recentes são coerentes com a série histórica. Não sei por que o IBGE continuou trabalhando com essa estimativa [de queda menor]. Não faço projeções, mas, a julgar por essa tendência, acho que a fecundidade continuará caindo", diz Berquó.
Fernando Albuquerque, que participou da elaboração das estimativas do IBGE, diz que o instituto projetou queda menor porque o Censo de 2000 e a Pnad de 2001 não sugeriam queda acentuada. "As Pnads de 2002 a 2006, no entanto, registraram um declínio mais rápido. Por isso, já estamos revendo a projeção para incorporar os resultados recentes."

O demógrafo José Eustáquio Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, diz que a queda mais rápida da fecundidade indica que a população começará a diminuir antes. Pela estimativa do IBGE, isso aconteceria somente a partir de 2062. A projeção da ONU com taxas mais próximas das verificadas recentemente, no entanto, aponta que isso deve acontecer já na década de 2030.

O envelhecimento mais rápido que o estimado traz desafios ao país. Um deles é aumentar os investimentos em saúde para atender melhor aos idosos.

Previdência

Outro diz respeito ao equilíbrio das contas da Previdência. Anualmente, quando o IBGE divulga aumento da expectativa de vida, isso altera o fator previdenciário, índice que acaba aumentando o tempo que o trabalhador precisa contribuir com o INSS para se aposentar com o mesmo benefício.

Carlos Guerra, vice-presidente da Federação Nacional de Previdência Privada, diz que os impactos também serão sentidos no setor particular, que poderá absorver mais insatisfeitos com os resultados da Previdência oficial, mas que, igualmente, precisará se adaptar.

"O equilíbrio ideal é ter cinco contribuintes para cada inativo, mas já estamos nos aproximando da situação de um para um", diz Guerra. Segundo ele, planos que garantem renda vitalícia mensal perderão espaço para outros com opção de fazer um resgate maior do benefício.

Apesar dos desafios que a queda mais intensa da fecundidade trará, Eustáquio Alves alerta que não se deve trocar o mito da "explosão populacional" pelo da "implosão populacional". "Não há por que ficar apavorado com a redução da população. Ela pode ser boa ou ruim dependendo de como a sociedade e as políticas públicas respondem a isso."

Antonio Gois,
Folha de São Paulo, 21/07/2008

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